Questão 96 caderno azul ENEM 2023 PPL


A primeira experiência empresarial de mineração da Amazônia ocorreu no Amapá, em 1945, com a exploração de manganês na Serra do Navio. Para atender às exigências do mercado consumidor, foi inicialmente lavrado o minério de alto teor (média de 40% de Mn), correspondendo a cerca de 22 milhões de toneladas, o que comprometeu a vida útil da jazida. As atividades de lavra foram interrompidas em 1998 por causa da exaustão do minério economicamente viável, sendo que, do ponto de vista ambiental, pouco mais de 50% da área atingida durante a atividade mineradora foi recuperada. Contudo, as consequências mais danosas do empreendimento não foram apenas de ordem ambiental, mas também social. A população local viu seu minério ser esgotado sem receber ajuda de programas que lhe garantissem emprego alternativo e condições de vida dignas. 

Amazônia: a floresta e o futuro. Scientific American Brasil, n. 2, 2008 (adaptado). 

A exemplo do caso descrito, é possível citar, como impactos socioambientais decorrentes da extração e do processamento de minérios, o fato de essa prática

A) produzir resíduos e renovar os recursos naturais. 

B) alterar a paisagem e consumir grande quantidade de energia.

C) gerar baixos lucros às empresas e afetar os lençóis de água subterrâneos. 

D) contaminar o ambiente com mercúrio e consumir grande quantidade de energia. 

E) apresentar pequena demanda da parte do mercado consumidor e alterar a paisagem.

Resolução Em Texto

Matérias Necessárias para a Solução da Questão

  • Geografia Econômica (Mineração e recursos minerais).
  • Ecologia (Impactos ambientais da atividade extrativista).
  • Sociologia/Geografia Humana (Impactos sociais de grandes empreendimentos).

Tema/Objetivo Geral

  • Identificar as consequências físicas e econômicas da exploração mineral em larga escala (mineração industrial), diferenciando-as de outros tipos de garimpo.

Nível da Questão: Fácil

  • A questão é considerada fácil pois exige apenas uma observação lógica da realidade: mineração envolve cavar buracos (alterar paisagem) e usar máquinas (gastar energia). As outras alternativas contêm erros conceituais graves e fáceis de eliminar (como dizer que minério é renovável ou que empresas visam lucro baixo).

Gabarito: Alternativa (B)

  • A atividade de mineração a céu aberto remove a cobertura vegetal e o solo, modificando a topografia (paisagem). Além disso, o maquinário pesado e o beneficiamento do minério demandam eletricidade e combustíveis em escala massiva.

PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

O texto relata a ascensão e queda da exploração de manganês na Serra do Navio (Amapá), destacando o esgotamento da jazida e o abandono socioambiental. A questão pede para generalizar esse caso: quais são os impactos típicos inerentes à extração e processamento de minérios industriais?

Simplificação Radical:
Imagine que você precisa remover uma montanha inteira para tirar o metal que está dentro dela.

  1. O que acontece com a vista do local? (A montanha some = Paisagem muda).
  2. O que é necessário para quebrar toneladas de rocha? (Máquinas gigantes = Muita energia).
    A questão pede para identificar esse par de consequências óbvias.

Nosso Plano de Ataque será o seguinte:

  • Caracterizar o Processo: Definir o que envolve tirar 22 milhões de toneladas de pedra do chão.
  • Filtrar Mitos: Separar o que é específico de garimpo de ouro (mercúrio) do que é mineração industrial (máquinas e energia).
  • Conectar Causa e Efeito: Ligar a “lavra” à “mudança visual” e o “processamento” ao “consumo energético”.

PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para não cair em pegadinhas, vamos usar um Dossiê Técnico da Mineração Industrial.

Dossiê: O Ciclo da Extração Mineral

Etapa 1: A Lavra (Extração)

  • Ação: Remoção da vegetação e do solo (decapeamento), uso de explosivos e escavação.
  • Consequência Visual: Criação de cavas gigantescas, modificação do relevo e desmatamento.
  • Impacto: Alteração drástica da paisagem.

Etapa 2: O Beneficiamento (Processamento)

  • Ação: Trituração, moagem e separação do metal da rocha estéril.
  • Insumo Necessário: Eletricidade para as usinas e combustível diesel para caminhões e trens.
  • Impacto: Consumo intenso de energia.

Etapa 3: O Legado (Pós-Mineração)

  • Recurso: Minérios são Não Renováveis. Uma vez retirados, a jazida se exaure (acaba).
  • Resíduo: Sobra muita rocha sem valor e rejeitos químicos ou físicos.

Conceito Chave:
Diferença entre Mineração Industrial e Garimpo:

  • Mineração Industrial (Manganês, Ferro): Alta tecnologia, alto consumo de energia, alteração de relevo em grande escala.
  • Garimpo Artesanal (Ouro): Baixa tecnologia, uso de mercúrio para amalgamar o ouro, contaminação química dos rios.

PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Vamos realizar uma análise profunda e dedutiva do texto e do cenário proposto.

Análise de Escala e Paisagem:
O texto menciona a lavra de “22 milhões de toneladas” de minério. Pense na magnitude física disso. Para retirar essa quantidade de material, é necessário remover a floresta (desmatamento), retirar a camada de solo fértil e dinamitar a rocha matriz. O resultado inevitável é a transformação de uma serra ou floresta em uma imensa cratera ou em patamares de escavação.
Portanto, a “alteração da paisagem” não é um efeito colateral pequeno; é a própria essência da atividade mineradora a céu aberto. Onde havia morro, passa a haver buraco.

Análise Energética e Industrial:
O texto fala em “atender às exigências do mercado” e “processamento”. Mineração industrial não é feita com picaretas manuais. Envolve escavadeiras hidráulicas gigantes, caminhões fora-de-estrada que consomem centenas de litros de diesel por hora, correias transportadoras quilométricas e usinas de beneficiamento que trituram rocha 24 horas por dia.
Tudo isso demanda uma infraestrutura energética colossal. Frequentemente, a instalação de uma mina exige a construção de usinas hidrelétricas ou termoelétricas dedicadas apenas para alimentá-la. Logo, o “consumo de grande quantidade de energia” é intrínseco ao processo.

Análise por Exclusão (O Raciocínio Negativo):

  • O texto fala em “exaustão” e “esgotado”. Isso elimina qualquer ideia de “renovação de recursos” (recursos minerais são finitos).
  • O texto fala em “primeira experiência empresarial”. Empresas buscam lucro máximo. Isso elimina a ideia de “baixos lucros”.
  • O texto fala em “Manganês”. Manganês é um metal ferroso usado em ligas de aço. A contaminação por mercúrio é específica do processo de amalgamação do Ouro. O aluno atento percebe que associar mercúrio a manganês é um erro técnico.

Síntese da Investigação:
Ao cruzar os dados, temos duas certezas absolutas: a geografia física do local é destruída (alteração da paisagem) e a demanda por combustível e eletricidade é imensa (consumo de energia).

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
A palavra “Amazônia” ativa um gatilho mental no estudante: “Amazônia + Mineração = Mercúrio nos rios”.
Cuidado! O mercúrio é usado especificamente no garimpo de ouro para separar o metal da areia. O texto fala de manganês. Manganês não usa mercúrio no seu processamento. O erro é generalizar um problema específico do ouro para todos os metais.

A Bússola (Síntese do raciocínio):
A mineração remove montanhas (altera paisagem) e usa máquinas pesadas (consome energia).

Expectativa:
Buscamos a alternativa que cite modificação física do ambiente e demanda energética.


PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

Alternativa (A): produzir resíduos e renovar os recursos naturais.

  • Narrativa do Erro: O aluno foca apenas na primeira parte.
  • Diagnóstico do Erro: Contradição Científica. Minérios (ferro, manganês, ouro) são recursos não renováveis. O texto fala explicitamente em “exaustão do minério”, provando que ele não se renova.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

Alternativa (B): alterar a paisagem e consumir grande quantidade de energia.

  • Análise de Correspondência: Perfeita. A extração a céu aberto redesenha o relevo (buracos e pilhas de estéril), alterando a paisagem. O processamento industrial (britagem, transporte ferroviário) é uma atividade eletrointensiva.
  • Conclusão: ✔️ Alternativa correta.

Alternativa (C): gerar baixos lucros às empresas e afetar os lençóis de água subterrâneos.

  • Narrativa do Erro: O aluno confunde o prejuízo social (para o povo) com o prejuízo empresarial.
  • Diagnóstico do Erro: Interpretação Econômica Falha. As empresas de mineração geralmente obtêm lucros altíssimos (commodities). O texto diz que a população não recebeu ajuda, mas o minério de “alto teor” foi vendido, gerando lucro para a corporação, não prejuízo.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

Alternativa (D): contaminar o ambiente com mercúrio e consumir grande quantidade de energia.

  • Narrativa do Erro: O aluno cai na armadilha do garimpo de ouro.
  • Diagnóstico do Erro: Associação Indevida. O uso de mercúrio é típico da mineração artesanal de ouro (garimpo). A mineração de manganês descrita no texto é industrial e não utiliza mercúrio em seu processo de separação.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

Alternativa (E): apresentar pequena demanda da parte do mercado consumidor e alterar a paisagem.

  • Narrativa do Erro: O aluno ignora os dados do texto.
  • Diagnóstico do Erro: Contradição com o Texto. O enunciado cita “exigências do mercado consumidor” e a extração de “22 milhões de toneladas”. Isso indica uma demanda gigantesca, não pequena.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

A resposta é (B). A mineração é uma atividade transformadora do espaço geográfico, trocando capital natural (paisagem e energia) por capital financeiro, deixando cicatrizes físicas permanentes.

Resumo-flash:
Mineração industrial é uma troca: leva a montanha e a energia, deixa o buraco e a nostalgia.

Para ir Além:
Este caso da Serra do Navio é um exemplo clássico de “Enclave Econômico” na Geografia. Uma empresa chega, extrai tudo, gera riqueza que vai para fora (exportação) e, quando o recurso acaba, vai embora deixando uma “cidade fantasma” e passivos ambientais. Isso se conecta ao conceito de sustentabilidade: o uso do recurso presente comprometeu as gerações futuras daquela região.


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