Questão 16 caderno azul ENEM 2025 Dia 1


Símbolos

Eu e tu, ante a noite e o amplo desdobramento do mar, fero, a estourar de encontro à rocha nua… Um símbolo descubro aqui, neste momento esta rocha, este mar… a minha vida e a tua.

O mar vem, o mar vai, nele há o gesto violento de quem maltrata e, após, se arrepende e recua. Como compreendo bem da rocha o sentimento! São muito iguais, por certo, a minha mágoa e a sua.

Contemplo neste quadro a nossa triste vida; tu és dúbio mar que, na sua inconsciência, tem carinhos de amor e fúrias de demência!

Eu sou a dor estanque, a dor empedernida, sou rocha a emergir de um côncavo de areia, imóvel, muda, isenta e alheia ao mar, alheia.

MACHADO, G. Poesia completa. Rio de Janeiro: Cátedra/MEC, 1978.

Nesse soneto, os traços da estética simbolista são resgatados pelo eu lírico ao

A) rejeitar as emoções de “amor” e “mágoa”.

B) expressar a dubiedade do olhar sobre o outro.

C) representar o “eu” e o “tu” como sujeitos volúveis.

D) associar a sua inconsciência a elementos da natureza.

E) metaforizar o conflito amoroso nas imagens de “mar” e “rocha”.

Resolução Em Texto

Matérias Necessárias para a Solução da Questão

  • Interpretação de Texto Poético
  • Figuras de Linguagem (principalmente Metáfora e Analogia)
  • Características do Simbolismo (escola literária)

Tema/Objetivo Geral: Identificar como as características de uma escola literária (Simbolismo) se manifestam na construção de um poema.

Nível da Questão
Médio. – A questão é de nível médio porque não exige apenas a compreensão literal do poema. Ela demanda que o candidato realize duas conexões importantes: primeiro, entender a grande metáfora que estrutura o texto (a relação amorosa representada pelo mar e pela rocha) e, segundo, reconhecer essa técnica como uma característica central do Simbolismo, um movimento que valoriza a sugestão e o uso de símbolos para expressar emoções e ideias abstratas.

Gabarito
Letra E – A alternativa está correta porque resume perfeitamente a estratégia do eu lírico: ele usa as imagens da natureza – o “mar” violento e a “rocha” imóvel – como uma grande metáfora para representar o conflito da sua relação amorosa.


PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Decodificação do Objetivo: A questão nos pede para identificar qual alternativa descreve a técnica principal que o eu lírico usa no poema para expressar seus sentimentos, e como essa técnica se conecta à estética do Simbolismo.

Simplificação Radical (A Analogia Central): Pense neste poema como um “código secreto”. O eu lírico não diz diretamente “nosso amor é um conflito doloroso”. Em vez disso, ele nos entrega duas senhas: “mar” e “rocha”. Nossa missão é decifrar o que essas senhas significam e, mais importante, entender que usar senhas (símbolos) para falar de sentimentos é a marca registrada do Simbolismo. O verdadeiro desafio aqui é conectar a imagem ao sentimento.

Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação):

  1. Reconhecer a Missão: Entender o que o Simbolismo valoriza.
  2. Identificar os Agentes: Analisar quem é o “mar” e quem é a “rocha” no poema.
  3. Mapear a Ação: Descrever a relação de conflito entre o mar e a rocha.
  4. Conectar os Pontos: Unir a relação “mar vs. rocha” com a relação “eu vs. tu”.
  5. Construir o Retrato Falado: Definir o que a alternativa correta precisa afirmar sobre essa conexão.

PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para decifrar este caso, precisamos de dois dossiês investigativos: um sobre o movimento Simbolista e outro sobre os símbolos centrais do poema.

Dossiê : O Simbolismo

  • Foco: Subjetividade, o “eu” interior, o mundo dos sonhos e do inconsciente.
  • Método: Sugestão em vez de descrição. O poeta não afirma, ele evoca.
  • Arma Principal: O Símbolo. Usar elementos concretos (uma flor, uma cor, um objeto) para representar ideias abstratas e emoções complexas (amor, morte, angústia).
  • Não Gosta de: Objetividade, clareza excessiva, descrições realistas. Prefere o vago, o nebuloso, a musicalidade.

Dossiê : Os Símbolos do Poema (“Mar” e “Rocha”)

Vamos organizar as pistas em uma tabela para ver o padrão claramente:

Símbolo (Elemento da Natureza)Representa Quem?Características no PoemaSentimento/Ideia Abstrata
O MarO “tu” (a pessoa amada)Violento, recua, dúbio, inconsciente, com “carinhos de amor e fúrias de demência”.Inconstância, paixão volúvel, imprevisibilidade, agressividade e ternura.
A RochaO “eu” (o eu lírico)Nua, sentimento de mágoa, dor estanque, empedernida, imóvel, muda, alheia.Sofrimento constante, passividade, dor silenciosa e imutável, resiliência forçada.

A interação entre eles — o mar que “estoura de encontro à rocha nua” — é a representação simbólica da relação amorosa.


PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Seguindo nosso plano, vamos executar a análise.

  1. A Missão Simbolista: O poema não é sobre uma paisagem. Desde a primeira estrofe, o eu lírico avisa: “Um símbolo descubro aqui… a minha vida e a tua”. Ele está usando a cena para falar de algo mais profundo.
  2. Identificação dos Agentes:
    • O “tu” é o mar: “tu és dúbio mar que… tem carinhos de amor e fúrias de demência!”.
    • O “eu” é a rocha: “Eu sou a dor estanque… sou rocha”.
  3. A Ação (O Conflito): O mar “vem” e “vai”, com um “gesto violento”, maltratando a rocha. A rocha, por sua vez, é “imóvel, muda, isenta e alheia”, recebendo o impacto de forma passiva e dolorosa.
  4. A Conexão: A dinâmica da natureza espelha a dinâmica do relacionamento. O “tu” é inconstante e agressivo, alternando entre carinho e fúria. O “eu” é passivo e sofre de forma constante e silenciosa. É a descrição de um relacionamento conflituoso e doloroso.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! O erro mais comum aqui é ler o poema de forma literal, como se fosse apenas sobre um passeio na praia. A armadilha é focar nas palavras “amor” e “mágoa” isoladamente, sem perceber que a força do poema está na imagem que ele constrói para simbolizar esses sentimentos. A chave não está nos sentimentos em si, mas na forma como eles são representados.

A Bússola (O Perfil do Culpado):

  • Síntese do raciocínio: O eu lírico utiliza elementos da natureza (mar e rocha) como metáforas para representar os dois polos de uma relação amorosa conflituosa: a inconstância agressiva do “tu” e a dor passiva do “eu”.
  • Expectativa: A alternativa correta deve, obrigatoriamente, mencionar a criação de uma metáfora ou símbolo que usa imagens da natureza (mar/rocha) para expressar o conflito amoroso.

PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

Vamos agora confrontar nosso “retrato falado” com os suspeitos (as alternativas).

A) rejeitar as emoções de “amor” e “mágoa”.

  • A “Narrativa do Erro”: O leitor vê a palavra “alheia” no final e pensa que o eu lírico está se distanciando de tudo.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Direta. O poema é uma imersão profunda nessas emoções. Ele não as rejeita, ele as disseca e as representa simbolicamente. A mágoa é central (“a minha mágoa e a sua”).
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

B) expressar a dubiedade do olhar sobre o outro.

  • A “Narrativa do Erro”: O aluno foca na frase “tu és dúbio mar” e generaliza a “dubiedade” para o olhar do eu lírico.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Reducionismo / Erro de Atribuição. Quem é descrito como “dúbio” é o “tu” (o mar), não o olhar do eu lírico. O olhar do poeta é, na verdade, bem decidido e claro sobre a natureza conflituosa da relação.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

C) representar o “eu” e o “tu” como sujeitos volúveis.

  • A “Narrativa do Erro”: O leitor percebe a inconstância do mar (“vem” e “vai”) e assume que ambos os sujeitos são assim.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Generalização Excessiva. Apenas o “tu” (o mar) é volúvel. O “eu” (a rocha) é o exato oposto: “estanque”, “empedernida”, “imóvel”. A essência do conflito está justamente nesse contraste.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

D) associar a sua inconsciência a elementos da natureza.

  • A “Narrativa do Erro”: O leitor lê “na sua inconsciência” e atribui ao sujeito da frase, o eu lírico.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Erro de Atribuição. O texto é claro: “tu és dúbio mar que, na sua inconsciência…”. A inconsciência pertence ao mar (o “tu”), não ao eu lírico (o “eu”).
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

E) metaforizar o conflito amoroso nas imagens de “mar” e “rocha”.

  • Análise de Correspondência: Esta alternativa é um encaixe perfeito com a nossa “Expectativa”. Ela menciona o processo (“metaforizar”), o tema (“o conflito amoroso”) e os elementos usados (“imagens de ‘mar’ e ‘rocha’”). Ela descreve com precisão a estratégia central do poema.
  • Conclusão: ✔️ Alternativa correta.

PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Frase de Fechamento: A resposta correta é a letra E, pois o brilhantismo do poema reside em sua capacidade de traduzir a complexidade de um conflito amoroso em uma imagem poderosa e universal: a luta incessante entre o mar e a rocha, uma assinatura clássica da estética simbolista.

Resumo-flash (A Imagem Mental): Neste poema, o coração não fala, a natureza encena: o amor é um oceano de fúria e carinho quebrando contra um rochedo de dor silenciosa.

Para ir Além (A Ponte para o Futuro): O mesmo princípio de usar um sistema concreto para simbolizar uma realidade abstrata e invisível é a base da Física de Partículas. Quando os físicos falam do “sabor” (up, down, strange) ou da “cor” (red, green, blue) de um quark, eles não estão dizendo que a partícula tem gosto ou cor literal. Eles criaram um sistema de metáforas, um “dicionário” de símbolos, para descrever as propriedades e interações abstratas de um mundo que não podemos ver. Assim como a poeta usa “mar” e “rocha” para falar de amor, o físico usa “cor” e “sabor” para falar da estrutura fundamental da matéria. A necessidade de simbolizar o invisível conecta a arte e a ciência.


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