Doce mistura
A canjica – creme amarelo à base de milho – é prova da diversidade do Brasil, pelas variações em seu nome de batismo. Servido polvilhado com canela, o doce confunde: o que lá no norte é “canjica”, lá no sul é “curau”. Os nomes se invertem quando o doce muda. O creme branco com os grãos inteiros de milho, no sul, é “canjica”, e, no norte, “curau”.
Revista Língua Portuguesa, n. 31, maio 2008 (adaptado).
Esse texto, que apresenta um prato da culinária brasileira, evidencia
A) valor afetivo nas nomenclaturas.
B) variedade linguística entre regiões.
C) disputa regional pelo melhor prato.
D) modos de preparo de um mesmo alimento.
E) paladares diversificados entre diferentes estados.
Resolução Em Texto
Matérias Necessárias para a Solução da Questão
- Variação Linguística (Lexical e Regional)
- Interpretação de Linguagem Mista
Tema/Objetivo Geral: Identificar o fenômeno da variação linguística regional a partir de um exemplo da culinária brasileira.
Nível da Questão
Muito Fácil. – A questão é extremamente direta. Tanto o texto quanto a imagem são redundantes em seu propósito: mostrar que um mesmo item recebe nomes diferentes em lugares diferentes do Brasil. As alternativas incorretas abordam temas que não são sequer mencionados no material, tornando a eliminação simples e a resposta correta, inequívoca.
Gabarito
Letra B. – A alternativa está correta pois o material apresentado (texto e imagem) tem como único e explícito objetivo demonstrar a diversidade de nomes para um mesmo prato, o que é a definição exata de variedade linguística entre regiões.
PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
Decodificação do Objetivo: A questão nos pede para identificar qual fenômeno é o foco principal do texto e da imagem. O que o material quer nos ensinar ao mostrar a “canjica” com tantos nomes diferentes?
Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine que o material é uma página de um atlas. Mas, em vez de mostrar os rios ou as cidades de cada estado, ele mostra a “palavra” que as pessoas daquele lugar usam para a mesma coisa. O atlas nos mostra que em São Paulo se fala “Curau”, na Bahia, “Canjica de milho verde”, e no Rio, “Canjiquinha”. O mapa é diferente, mas o objeto é o mesmo. Nossa missão é dar o nome técnico para esse “mapa de palavras”.
Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação):
- Analisar a Pista Verbal: Identificar a ideia central do texto “Doce mistura”.
- Analisar a Pista Visual: Entender a função da imagem e das setas.
- Cruzar as Evidências: Confirmar que texto e imagem apontam para a mesma conclusão.
- Construir o Retrato Falado: Definir o que a alternativa correta precisa afirmar.
PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
A ferramenta conceitual para este caso é a Variação Linguística, especificamente a variação regional no léxico (vocabulário).
Dossiê: Variação Linguística Regional (Dialetos)
- Definição: É o fenômeno natural pelo qual uma mesma língua apresenta diferenças dependendo da região geográfica onde é falada.
- Como se Manifesta? Pode ocorrer na pronúncia (sotaques), na gramática e, como no nosso caso, no léxico (palavras diferentes para a mesma coisa).
- Exemplos Clássicos no Brasil:
- Mandioca / Aipim / Macaxeira
- Tangerina / Mexerica / Bergamota
- Pão Francês / Cacetinho / Pão de Sal
- Aplicação no Caso: O doce de creme de milho amarelo é o objeto. “Canjica”, “Curau”, “Canjiquinha”, “Corá” são as suas variações lexicais regionais.
O texto e a imagem funcionam como um verbete de dicionário ilustrado sobre este fenômeno.
PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
Vamos executar a análise, que neste caso é uma constatação de evidências.
- Pista Verbal: O texto abre dizendo que o prato é “prova da diversidade do Brasil, pelas variações em seu nome de batismo“. Ele continua, explicitando a troca de nomes entre Norte e Sul. A intenção não poderia ser mais clara.
- Pista Visual: A imagem reforça isso de forma esmagadora. Temos um único prato no centro, e múltiplas setas apontando para ele, cada uma trazendo um nome diferente e a sigla do(s) estado(s) onde é usado (MG, SP, RJ, BA, etc.).
- Cruzamento: Texto e imagem dizem, de formas diferentes, a mesmíssima coisa: a língua varia conforme a região.
🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
A única armadilha aqui é a desconfiança. A questão é tão direta que o candidato pode pensar: “É uma pegadinha, não pode ser tão óbvio”. Esse pensamento pode levar a uma tentativa de superinterpretar o material, procurando significados ocultos sobre “disputas regionais” ou “modos de preparo” que simplesmente não estão lá. O desafio é confiar na evidência direta.
A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: O conjunto (texto e imagem) utiliza um exemplo culinário para ilustrar um conceito linguístico: a existência de diferentes vocábulos para designar o mesmo referente em diferentes áreas geográficas do Brasil.
- Expectativa: A alternativa correta deve mencionar, de forma explícita, a variação/diversidade da língua associada às regiões.
PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
A) valor afetivo nas nomenclaturas.
- A “Narrativa do Erro”: O leitor pode pensar que nomes de comida têm origens afetivas ou familiares.
- O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. O texto não explora a origem ou o sentimento por trás dos nomes, apenas constata a sua diferença geográfica e linguística.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
B) variedade linguística entre regiões.
- Análise de Correspondência: Esta é uma descrição técnica e precisa do fenômeno apresentado. Corresponde perfeitamente à nossa “Expectativa”. A “variedade linguística” é o tema, e “entre regiões” é o contexto.
- Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
C) disputa regional pelo melhor prato.
- A “Narrativa do Erro”: O leitor associa diversidade regional com rivalidade, algo comum em discussões sobre cultura.
- O “Diagnóstico do Erro”: Inferência Indevida. O texto tem um tom expositivo e informativo, não de debate. Ele apresenta as diferenças como uma prova de “diversidade”, não de “disputa”.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
D) modos de preparo de um mesmo alimento.
- A “Narrativa do Erro”: O leitor foca na parte do texto que menciona o “creme branco com os grãos inteiros”, pensando que o foco é a receita.
- O “Diagnóstico do Erro”: Erro de Foco. O creme branco é mencionado apenas para ilustrar a complexidade da troca de nomes, mas o foco principal do texto e 100% da imagem é sobre os nomes do creme amarelo.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
E) paladares diversificados entre diferentes estados.
- A “Narrativa do Erro”: O leitor assume que pratos regionais refletem gostos diferentes.
- O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. O material fala sobre nomes, não sobre sabores. Não há nenhuma informação sobre o gosto do prato ou se ele muda de um estado para outro.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
Frase de Fechamento: A resposta correta é a letra B, pois o texto e a imagem funcionam como uma aula-relâmpago, usando um doce popular para provar que a riqueza do Brasil está não apenas em seus sabores, mas também na diversidade da sua língua.
Resumo-flash (A Imagem Mental): A língua portuguesa no Brasil é um grande banquete: a comida pode ser a mesma, mas o cardápio muda de mesa em mesa.
Para ir Além (A Ponte para o Futuro): O fenômeno da variação linguística regional é um espelho direto do conceito de especiação alopátrica na Biologia Evolutiva. Este conceito descreve como uma única espécie ancestral, ao ser separada por barreiras geográficas (rios, montanhas, desertos), evolui de formas diferentes em cada local, dando origem a novas espécies ou subespécies. Da mesma forma, uma língua “ancestral” (o português trazido ao Brasil), ao se espalhar por um território vasto com barreiras geográficas e culturais, começou a “evoluir” de maneiras ligeiramente diferentes em cada região, resultando nos dialetos que temos hoje. A geografia molda tanto os seres vivos quanto a linguagem.
