A credulidade dos ouvintes aumenta o descaramento do narrador, e o descaramento deste conquista-lhes a credulidade. A eloquência, quando levada a seu patamar mais alto, deixa pouco lugar à razão ou à reflexão, mas, dirigindo-se inteiramente à imaginação e aos afetos, cativa os ouvintes condescendentes e subjuga-lhes o entendimento.
HUME, D. Uma investigação sobre o entendimento humano e sobre os princípios da moral. São Paulo: Edunesp, 2009.
No contexto do século XVIII, o autor propõe uma reflexão radical acerca da arte da eloquência, restringindo-a ao
A) sistema de crenças, conforme a proposta kantiana de objetividade do conhecimento.
B) campo dos absolutos, semelhante ao entendimento medieval dos Universais.
C) domínio da lógica, consoante a compreensão aristotélica nos Analíticos.
D) paradigma da racionalidade, alinhado ao modelo cartesiano de método.
E) âmbito da persuasão, análogo às críticas platônicas aos sofistas.
Resolução Em Texto
Matérias Necessárias para a Solução da Questão
- Filosofia Moderna: Empirismo de David Hume (Crítica à Razão e o Papel das Paixões)
- Filosofia Antiga: Sofistas e a Crítica de Platão à Retórica
- Interpretação de Texto Filosófico
Tema/Objetivo Geral:
Analisar a crítica de David Hume à eloquência como uma ferramenta de manipulação emocional em oposição à argumentação racional.
Nível da Questão
- Médio. A questão é de nível médio porque, embora o texto de Hume seja bastante direto em sua crítica, a alternativa correta exige um conhecimento prévio específico da história da filosofia: a famosa oposição entre Platão e os sofistas. Sem essa bagagem, o candidato poderia ter dificuldade em validar a analogia proposta na alternativa (E), mesmo que entenda a ideia principal do texto.
Gabarito
- E) âmbito da persuasão, análogo às críticas platônicas aos sofistas. Esta alternativa está correta porque Hume descreve a eloquência como uma arte que ignora a razão para cativar através da imaginação e dos afetos, ou seja, persuadir. Isso é diretamente análogo à crítica que Platão fazia aos sofistas, que, segundo ele, usavam a retórica para convencer e não para buscar a verdade.
PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
Decodificação do Objetivo:
Em bom português, a questão nos pede para identificar exatamente qual é o “lugar” ou a “função” que David Hume atribui à arte da eloquência, com base na crítica que ele faz no texto.
Simplificação Radical (A Analogia Central):
Pense na eloquência como uma ferramenta poderosa. A missão aqui é descobrir, segundo a análise de Hume, para que essa ferramenta realmente serve. Ela é uma chave de fenda de precisão, usada para construir um argumento lógico e verdadeiro? Ou é um pé de cabra, usado para forçar a entrada na mente do ouvinte através da emoção e da imaginação, arrombando as defesas da razão?
Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação):
Nosso plano de ataque será o seguinte:
- Análise Forense do Texto: Vamos dissecar a descrição que Hume faz da eloquência, sublinhando as palavras-chave que revelam sua verdadeira natureza.
- Construção do Perfil: Com base nas pistas do texto, vamos definir com precisão o que a eloquência faz e o que ela não faz.
- Desenvolvimento da Bússola: Criaremos um “retrato falado” da alternativa correta, descrevendo exatamente as características que ela precisa ter.
- Julgamento das Alternativas: Usaremos nossa Bússola para confrontar cada uma das suspeitas (as alternativas A, B, C, D e E) e encontrar a correspondência perfeita.
PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Para decifrar o enigma de Hume, precisamos de duas ferramentas conceituais essenciais: a sua visão sobre a natureza humana e o conflito histórico entre Platão e os sofistas. Vamos explorá-las em um diálogo investigativo.
Diálogo Investigativo
Mentor: Para entender Hume, precisamos primeiro abandonar uma ideia muito comum: a de que somos seres puramente racionais. Hume fez uma das afirmações mais radicais da filosofia: “A razão é, e deve ser, apenas a escrava das paixões”.
Aluno: Espere, como assim? A razão não deveria ser a guia, a chefe que controla nossas emoções?
Mentor: Exatamente o contrário para Hume. Ele argumenta que o que realmente nos move, o que nos faz levantar da cadeira e agir, são nossas paixões, nossos sentimentos, desejos e afetos. A razão, para ele, é como um consultor inteligente. Ela pode mostrar o caminho mais eficiente para conseguir o que já queremos, mas não pode nos dizer o que querer. O desejo vem primeiro. Agora, pense: se o verdadeiro centro de comando são as paixões, qual seria a forma mais eficaz de convencer alguém?
Aluno: Atacando diretamente as paixões, a imaginação, os sentimentos… e não a razão.
Mentor: Bingo! E é exatamente aí que entra a crítica de Hume à eloquência. Ele a vê como a técnica suprema para contornar o “consultor” (a razão) e falar diretamente com o “chefe” (as paixões). A eloquência, em seu auge, não se preocupa em estar certa; ela se preocupa em parecer certa, em sentir-se certa para o ouvinte.
Aluno: Essa ideia de um discurso que é apenas bonito e convincente, mas não necessariamente verdadeiro, me parece familiar… Já ouvi isso em algum lugar.
Mentor: Sim, você ouviu. E essa é a segunda ferramenta que precisamos. Voltemos mais de 2.000 anos, para a Atenas Antiga. Lá existia um grupo de mestres itinerantes chamados Sofistas. Eles eram especialistas na arte da retórica, o poder da palavra. Eles ensinavam os jovens cidadãos a falar bem em público e a vencer debates, o que era crucial para o sucesso político.
Aluno: Então eles eram como professores de oratória?
Mentor: Exato, mas com uma implicação filosófica profunda. Para muitos sofistas, não existia uma “Verdade” absoluta. O que importava era a capacidade de fazer o seu argumento prevalecer. O filósofo Platão (através de seu mestre, Sócrates) foi o maior crítico deles. Para Platão, a retórica sofista era uma arte perigosa, uma espécie de “culinária da alma”.
Aluno: “Culinária da alma”?
Mentor: Sim. Pense na diferença entre um médico e um chef de doces. O médico se preocupa com a saúde real do seu corpo (a verdade). O chef de doces se preocupa em criar algo que agrade ao seu paladar (a aparência, o prazer imediato), mesmo que não seja saudável. Para Platão, a filosofia era a medicina da alma, buscando a verdade. A retórica dos sofistas era a confeitaria: ela produzia discursos “saborosos” que agradavam às multidões, mas que não as nutriam com a verdade, apenas com persuasão e opinião (doxa).
Aluno: Entendi! Então, a crítica de Hume à eloquência, que apela aos “afetos” e à “imaginação” em vez da “razão”, é um espelho moderno da crítica de Platão à retórica dos sofistas, que apelava à opinião e ao prazer em vez da verdade.
Mentor: Exatamente. Você conectou os pontos. Hume está descrevendo o mesmo mecanismo: um discurso que visa à persuasão a qualquer custo, subjugando o entendimento crítico. Com essas duas ferramentas em mãos, o texto de Hume se torna transparente.
PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
Agora, com nossas ferramentas afiadas, vamos executar uma autópsia profunda no texto de Hume. A missão é não deixar nenhuma palavra escapar ao nosso escrutínio.
Execução Sequencial: A Análise Forense do Texto
Vamos tratar o texto como a cena de um crime intelectual, onde a eloquência é a principal suspeita.
- Pista 1 (A Exclusão da Vítima):“A eloquência, quando levada a seu patamar mais alto, deixa pouco lugar à razão ou à reflexão…”
- Análise Detalhada do Detetive: Esta é a premissa fundamental do argumento de Hume. Note a expressão “deixa pouco lugar”. Ele não diz que a eloquência “conversa mal” com a razão. Ele diz que a presença de uma implica a ausência da outra. Elas são como água e óleo. A eloquência, para ser eficaz, precisa primeiro expulsar a razão da sala. Ela cria um vácuo de pensamento crítico para poder operar sem resistência. O objetivo de um discurso científico é provocar reflexão; o objetivo do discurso eloquente, segundo Hume, é evitá-la. A eloquência não quer um parceiro de debate, quer uma plateia indefesa.
- Pista 2 (A Arma do Crime):“…mas, dirigindo-se inteiramente à imaginação e aos afetos…”
- Análise Detalhada do Detetive: Se a razão foi expulsa, como a eloquência age? Hume nos entrega a arma do crime: ela se dirige “inteiramente” (uma palavra que denota totalidade, exclusividade) a dois alvos específicos: a imaginação e os afetos.
- A imaginação é a capacidade de criar imagens, cenários e narrativas na mente do ouvinte. É o cinema mental. O orador eloquente não apresenta dados, ele pinta um quadro.
- Os afetos são as paixões, as emoções brutas: medo, esperança, raiva, orgulho.
- A tática é brilhante e perigosa: em vez de construir um argumento lógico no campo da razão, o orador constrói uma experiência emocional na mente do ouvinte. É a diferença entre apresentar a estatística “o desemprego aumentou 5%” (um apelo à razão) e contar a história de “João, pai de três filhos, que hoje não tem o que pôr na mesa” (um apelo direto aos afetos através da imaginação).
- Análise Detalhada do Detetive: Se a razão foi expulsa, como a eloquência age? Hume nos entrega a arma do crime: ela se dirige “inteiramente” (uma palavra que denota totalidade, exclusividade) a dois alvos específicos: a imaginação e os afetos.
- Pista 3 (O Resultado Final):“…cativa os ouvintes condescendentes e subjuga-lhes o entendimento.”
- Análise Detalhada do Detetive: Aqui temos a descrição do resultado, usando verbos de dominação, não de esclarecimento. Analisemos o vocabulário:
- “Cativa”: Significa aprisionar, prender. A mente do ouvinte não é libertada pela verdade, mas aprisionada por uma narrativa emocional.
- “Subjuga”: Este é um termo militar. Significa derrotar, colocar sob um jugo, dominar pela força. O entendimento não é “convencido” ou “esclarecido”; ele é derrotado em batalha. A eloquência vence a guerra pela mente não por ter o melhor argumento, mas por ter a melhor artilharia emocional. O entendimento se rende, não concorda.
- Análise Detalhada do Detetive: Aqui temos a descrição do resultado, usando verbos de dominação, não de esclarecimento. Analisemos o vocabulário:
Juntando as peças, o retrato que Hume pinta é o de um sequestro mental. A eloquência primeiro isola a vítima (expulsa a razão), depois usa suas armas (imaginação e afetos) para forçar uma rendição incondicional (a subjugação do entendimento).
A Bússola (O Perfil do Culpado)
- Síntese do raciocínio: Nossa investigação aprofundada revela que Hume caracteriza a eloquência como uma estratégia de comunicação que opera fora do campo da lógica. Sua função é neutralizar o pensamento crítico para manipular as emoções e a imaginação do público, com o objetivo final de dominar, e não de iluminar, o entendimento. Sua finalidade não é a verdade, mas a vitória.
- Expectativa: O “retrato falado” da alternativa correta precisa atender a um critério fundamental: ela deve identificar o campo de atuação da eloquência como sendo a persuasão (a arte de convencer através de apelos não-racionais) e, idealmente, conectar essa visão a um precedente histórico famoso onde essa mesma crítica foi feita, que é o caso da oposição filosófica de Platão aos sofistas.
PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
Com a Bússola em mãos, vamos examinar os suspeitos.
A) sistema de crenças, conforme a proposta kantiana de objetividade do conhecimento.
- Análise: Esta alternativa menciona Kant, um filósofo que buscou estabelecer os fundamentos de um conhecimento objetivo e universal, baseado nas estruturas da própria razão. Isso é o oposto do que Hume descreve.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato pode se confundir com a palavra “crenças”, mas Kant e Hume estão em polos opostos nesse debate.
- O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Direta. O texto de Hume é sobre subjugar a razão; a proposta de Kant é sobre fundamentá-la.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
B) campo dos absolutos, semelhante ao entendimento medieval dos Universais.
- Análise: Hume é um dos maiores céticos da filosofia, famoso por atacar a noção de verdades absolutas e metafísicas. Associá-lo a absolutos medievais é um erro crasso.
- A “Narrativa do Erro”: Uma associação superficial de “filosofia” com “verdades absolutas”, sem conhecer a posição específica de Hume.
- O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Direta. Hume desconfia de absolutos; seu texto descreve algo que funciona no campo do relativo e do emocional.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
C) domínio da lógica, consoante a compreensão aristotélica nos Analíticos.
- Análise: Os Analíticos de Aristóteles são a obra fundadora da lógica formal. Hume afirma explicitamente que a eloquência “deixa pouco lugar à razão”.
- A “Narrativa do Erro”: Pensar que “discurso” e “lógica” são sempre a mesma coisa.
- O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Direta com o texto. O texto de Hume é uma denúncia da eloquência como anti-lógica.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
D) paradigma da racionalidade, alinhado ao modelo cartesiano de método.
- Análise: O modelo de Descartes é o ápice da confiança na razão (“Penso, logo existo”). Ele busca um conhecimento claro, distinto e livre das paixões e dos sentidos. Novamente, é o exato oposto do que Hume descreve.
- A “Narrativa do Erro”: Agrupar todos os filósofos “modernos” (Descartes, Hume) em um mesmo saco “racionalista”, sem ver as profundas diferenças entre eles.
- O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Direta. O método cartesiano é um antídoto para o tipo de manipulação que Hume atribui à eloquência.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
E) âmbito da persuasão, análogo às críticas platônicas aos sofistas.
- Análise de Correspondência: Vamos comparar com nossa Bússola.
- “âmbito da persuasão”: Corresponde perfeitamente à nossa conclusão de que a eloquência, para Hume, visa cativar e subjugar, não provar. É a arte do convencimento.
- “análogo às críticas platônicas aos sofistas”: Corresponde perfeitamente ao paralelo histórico que identificamos no Passo 2, onde Platão acusava os sofistas de usarem a retórica para persuadir as massas em vez de buscar a verdade.
- A alternativa é uma combinação perfeita do que o texto diz e do seu contexto histórico-filosófico.
- Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
Frase de Fechamento: A resposta correta é a (E) porque Hume, em sua análise cética e profundamente psicológica, desmascara a eloquência não como uma serva da razão, mas como a mestra da persuasão, uma arte que manipula as paixões de forma muito semelhante à que Platão acusava os sofistas de fazer séculos antes.
Resumo-flash (A Imagem Mental): Para Hume, a eloquência não é a luz da razão que ilumina o caminho; é o holofote que cega o entendimento para que as emoções possam dominar o palco.
Para ir Além (A Ponte para o Futuro): O princípio que Hume descreve aqui — a persuasão que contorna a lógica para apelar diretamente à emoção e à identidade — é o pilar fundamental de uma indústria trilionária hoje: o Marketing e a Publicidade Moderna. Quando uma marca de refrigerante vende “felicidade” em vez de uma bebida açucarada, ou quando um comercial de carro vende “liberdade” e “status” em vez de especificações de engenharia, eles estão usando a eloquência exatamente como Hume a definiu. Eles não estão se dirigindo à sua “razão ou reflexão”, mas inteiramente à sua “imaginação e aos afetos” para “subjugar-lhes o entendimento” e associar uma emoção positiva a um produto. A crítica filosófica do século XVIII é o manual de instruções da psicologia do consumidor do século XXI.
