Questão 78, caderno azul ENEM 2020


O toyotismo, a partir dos anos 1970, teve grande impacto no mundo ocidental, quando se mostrou para os países avançados como uma opção possível para a superação de uma crise de acumulação.

ANTUNES, R. Os sentidos do trabalho: ensaio sobre a afirmação e a negação do trabalho.
São Paulo: Boitempo, 2009 (adaptado).

A característica organizacional do modelo em questão, requerida no contexto de crise, foi o(a)

A) expansão dos grandes estoques.

B) incremento da fabricação em massa.

C) adequação da produção à demanda.

D) aumento da mecanização do trabalho.

E) centralização das etapas de planejamento.

Resolução Em Texto

  • Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
    • Geografia / Sociologia (Modelos de Produção Industrial: Fordismo e Toyotismo)
    • História (Crise do Petróleo de 1970)
  • Tema/Objetivo Geral: Analisar o contexto de crise do modelo fordista para identificar a principal característica organizacional do Toyotismo que o apresentou como uma solução.
  • Nível da Questão: Médio.
    • A questão exige um conhecimento prévio sobre os modelos de produção. O candidato precisa saber que a “crise de acumulação” era um problema de superprodução inerente ao Fordismo, e que a principal inovação do Toyotismo foi exatamente a de inverter essa lógica.
  • Gabarito: C
    • A alternativa está correta porque a “crise de acumulação” era uma crise de superprodução: o modelo antigo (Fordismo) produzia em massa e criava grandes estoques que não conseguiam mais ser vendidos. A principal inovação organizacional do Toyotismo para resolver isso foi o sistema just-in-time, que inverte a lógica: em vez de produzir para estocar, a produção é “puxada” pela necessidade do mercado. Ou seja, é uma adequação da produção à demanda.

PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Decodificação do Objetivo: Em bom português, a missão é: “O texto diz que, nos anos 70, o mundo industrial estava em crise porque produzia coisas demais e não conseguia vender (uma ‘crise de acumulação’). Então, um novo modelo, o Toyotismo, surgiu como solução. Qual foi a principal característica organizacional desse novo modelo que ajudou a resolver o problema da produção excessiva?”

Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine uma pizzaria antiga (o Fordismo). O dono acha que vai vender muito, então passa o dia inteiro fazendo centenas de pizzas de mussarela e as empilha no balcão (produção em massa e grandes estoques). No fim da noite, ele vendeu poucas e precisa jogar dezenas de pizzas fora. Isso é a “crise de acumulação”. Agora, imagine uma pizzaria nova (o Toyotismo). O balcão está vazio. O pizzaiolo só começa a fazer a pizza depois que o cliente faz o pedido, e faz exatamente no sabor que o cliente quer. Ele não tem estoque e não tem desperdício. O que essa nova pizzaria faz? Ela adequa a produção à demanda.

Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação):

  • Diagnosticar a “Doença”: O que era a “crise de acumulação”?
  • Analisar o “Remédio”: Qual foi a principal inovação organizacional do Toyotismo?
  • Conectar Doença e Remédio: Como o “remédio” cura a “doença”?
  • Realizar a Autópsia: Vamos analisar cada alternativa para ver qual delas descreve o princípio ativo do “remédio”.

PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para este caso, a melhor ferramenta é uma Tabela Comparativa de Modelos de Produção. Ela nos ajudará a visualizar o conflito entre o problema (Fordismo) e a solução (Toyotismo).

Característica OrganizacionalO Modelo Antigo em Crise (Fordismo)O Novo Modelo (Toyotismo)
Lógica de ProduçãoProdução em massa e padronizada. “Empurra” o produto para o mercado.Produção flexível e variada. É “puxada” pela demanda do mercado.
EstoquesGRANDES ESTOQUES. Produz-se para estocar, na esperança de vender.ESTOQUES MÍNIMOS (ou zero). A matéria-prima chega “bem na hora” (just-in-time) de produzir o que já foi vendido.
Ritmo de TrabalhoRígido, repetitivo, linha de montagem.Flexível, equipes multifuncionais.
O Problema Central (A “Doença”)Inflexibilidade e SUPERPRODUÇÃO. Quando a demanda cai, os estoques encalham, gerando a “crise de acumulação”.
A Solução (O “Remédio”)ADEQUAÇÃO DA PRODUÇÃO À DEMANDA. Só se produz o que o consumidor quer, na quantidade que ele quer e na hora que ele quer.

Conclusão Forense: A tabela mostra que o Toyotismo foi projetado como o antídoto direto para o principal veneno do Fordismo. A crise de ter coisas demais (acumulação) é resolvida ao se produzir apenas o necessário (adequação à demanda).


PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Nossa tabela já revelou a lógica do caso. O texto, embora curto, nos dá a pista decisiva: o Toyotismo surgiu para “superação de uma crise de acumulação”.

  • Acumulação (neste contexto) = Acúmulo de estoques de mercadorias não vendidas.
  • Crise de Acumulação = O momento em que esses estoques se tornam tão grandes que geram prejuízo e paralisam o sistema.

Como se resolve uma crise de excesso de estoque? Parando de produzir em excesso. E como se para de produzir em excesso? Produzindo apenas o que já tem um comprador ou uma demanda certa. Esse é o coração da filosofia just-in-time e do Toyotismo.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨

CUIDADO! A armadilha mais sedutora é a alternativa (B), “incremento da fabricação em massa”. O candidato pode associar “indústria” e “superação de crise” com “produzir mais”. O erro é não perceber que a crise descrita era justamente causada pela fabricação em massa excessiva e inflexível. O Toyotismo não foi um “mais do mesmo”, foi uma ruptura, propondo produzir melhor e de forma mais inteligente, e não necessariamente mais.

A Bússola (O Perfil do Culpado):

  • Síntese do raciocínio: A investigação mostra que o Toyotismo resolveu a crise de superprodução do Fordismo ao inverter a lógica produtiva.
  • Expectativa: A alternativa correta deve descrever essa nova lógica de produzir de acordo com a demanda.

PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

Vamos agora interrogar cada um dos suspeitos.

  • A) expansão dos grandes estoques.
    • A “Narrativa do Erro”: Uma leitura completamente invertida do conceito.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Direta. Os grandes estoques eram o sintoma da doença (a crise de acumulação) que o Toyotismo veio curar. A principal meta do Toyotismo é a redução radical dos estoques.
    • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
  • B) incremento da fabricação em massa.
    • A “Narrativa do Erro”: O candidato cai na “Armadilha Clássica”.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Histórica. A fabricação em massa é a marca do Fordismo, o modelo que estava em crise. O Toyotismo propõe uma produção mais flexível e em lotes menores, adaptada a um mercado mais diversificado.
    • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
  • C) adequação da produção à demanda.
    • Análise de Correspondência: Esta alternativa é o retrato falado da nossa Bússola. Ela descreve perfeitamente a filosofia just-in-time, a principal inovação do Toyotismo para combater a superprodução e os estoques parados.
    • Conclusão: 🟢 Alternativa correta.
  • D) aumento da mecanização do trabalho.
    • A “Narrativa do Erro”: O candidato associa “novo modelo de produção” com “mais máquinas”.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Foco Incorreto. Embora o Toyotismo use tecnologia, sua principal inovação não é a mecanização (que já era central no Fordismo), mas a organização do fluxo de produção e a gestão da mão de obra (equipes flexíveis, multifuncionais).
    • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
  • E) centralização das etapas de planejamento.
    • A “Narrativa do Erro”: O candidato pode pensar que um sistema mais eficiente precisa de mais controle central.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Direta. O Toyotismo, na verdade, promove a descentralização e a autonomia das equipes de trabalho (círculos de qualidade, sistema kanban), que passam a ter mais responsabilidade no controle da produção.
    • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Frase de Fechamento: Confirmamos que a alternativa C é a correta. Este caso ilustra a passagem do mundo da produção em massa para o da produção flexível, uma das maiores transformações econômicas do final do século XX.

Resumo-flash (A Imagem Mental): O Fordismo era um canhão que atirava produtos para o mercado; o Toyotismo é um sniper que só atira quando o alvo (a demanda) aparece.

Para ir Além (A Ponte para o Futuro): O mesmo princípio do Toyotismo, de adequar a produção à demanda em tempo real, é a base do modelo de negócios das plataformas de streaming, como Netflix e Spotify. Antigamente (o “Fordismo” da mídia), um estúdio produzia um filme ou uma gravadora produzia um disco, em massa, e o “empurrava” para o mercado (cinemas, lojas), correndo o risco de encalhar (a “crise de acumulação”). Hoje, a Netflix não produz conteúdo no escuro. Ela usa a análise de dados massivos (Big Data) para entender exatamente o que a demanda quer assistir e, então, produz séries e filmes “sob medida” para nichos específicos. É a filosofia just-in-time aplicada à cultura.


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