Porque todos confessamos não se poder viver sem alguns escravos, que busquem a lenha e a água, e façam cada dia o pão que se come, e outros serviços que não são possíveis poderem-se fazer pelos Irmãos Jesuítas, máxime sendo tão poucos, que seria necessário deixar as confissões e tudo mais. Parece-me que a Companhia de Jesus deve ter e adquirir escravos, justamente, por meios que as Constituições permitem, quando puder para nossos colégios e casas de meninos.
LEITE, S. História da Companhia de Jesus no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1938 (adaptado).
O texto explicita premissas da expansão ultramarina portuguesa ao buscar justificar a
A) propagação do ideário cristão.
B) valorização do trabalho braçal.
C) adoção do cativeiro na Colônia.
D) adesão ao ascetismo contemplativo.
E) alfabetização dos indígenas nas Missões.
Resolução Em Texto
- Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
- História do Brasil (Brasil Colônia, Escravidão, Ação dos Jesuítas)
- Interpretação de Texto Histórico
- Análise de Discurso (Estratégias de Justificação)
- Tema/Objetivo Geral: Analisar um documento histórico para identificar qual prática da colonização portuguesa está sendo justificada e defendida.
- Nível da Questão: Fácil.
- A questão se resolve pela leitura direta e interpretação do vocabulário do texto. A repetição da palavra “escravos” e a argumentação explícita de que “não se poder viver sem alguns escravos” e que a Companhia “deve ter e adquirir escravos” torna a identificação do tema central inequívoca.
- Gabarito: C
- A alternativa está correta porque o texto é uma defesa explícita da necessidade da escravidão para a manutenção das atividades da Companhia de Jesus. O autor argumenta que, sem escravos para realizar os trabalhos manuais, a missão religiosa dos jesuítas seria impossível. Portanto, o texto busca justificar a adoção do cativeiro (escravidão) na Colônia.
PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
Decodificação do Objetivo: Em bom português, a missão é: “O autor do texto, um jesuíta, está escrevendo para defender uma prática. Qual prática é essa? O que ele está tentando justificar?”
Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine o diretor de uma escola de caridade que escreve uma carta para seus superiores dizendo: “Não temos como continuar nosso trabalho de ensinar as crianças. Somos poucos e passamos o dia todo limpando o prédio e fazendo a merenda. Precisamos urgentemente contratar funcionários de limpeza e cozinha, senão teremos que fechar as portas”. O que o diretor está justificando? A necessidade de contratar mão de obra para os serviços básicos. O jesuíta no texto está fazendo a mesma coisa, mas a “mão de obra” que ele quer “adquirir” no século XVI não são funcionários, são escravos.
Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação):
- Isolar a Tese do Autor: Qual é a principal afirmação ou pedido que o autor faz?
- Analisar a Justificativa: Quais são os argumentos que ele usa para defender sua tese?
- Identificar a Prática Defendida: Juntando a tese e a justificativa, qual é a instituição colonial que o texto está legitimando?
- Realizar a Autópsia: Vamos analisar cada alternativa para ver qual delas corresponde a essa prática.
PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Para este caso, a melhor ferramenta é uma Análise da Estrutura da Justificativa. Vamos desmontar o argumento do autor passo a passo.
A ANATOMIA DO ARGUMENTO JESUÍTICO
PASSO 1: A PREMISSA INQUESTIONÁVEL (“É um fato que…”)
- Frase: “Porque todos confessamos não se poder viver sem alguns escravos…”
- Análise: O autor parte do princípio de que a necessidade de escravos é um consenso, um fato da vida colonial.
PASSO 2: A JUSTIFICATIVA PRAGMÁTICA (“Precisamos deles para…”)
- Frase: “…que busquem a lenha e a água, e façam cada dia o pão […], e outros serviços que não são possíveis poderem-se fazer pelos Irmãos Jesuítas…”
- Análise: Ele argumenta que os serviços básicos e braçais são essenciais e que os jesuítas, por serem poucos e ocupados com a missão espiritual, não podem realizá-los.
PASSO 3: A CONCLUSÃO LÓGICA (“Logo, nós devemos…”)
- Frase: “Parece-me que a Companhia de Jesus deve ter e adquirir escravos, justamente…”
- Análise: A conclusão é um pedido direto para que a própria ordem religiosa participe do sistema escravista.
Conclusão Forense: A estrutura do argumento é uma defesa clara e direta da adoção da escravidão pela Companhia de Jesus, justificada por uma suposta necessidade prática para a sobrevivência da missão. O texto é uma peça de legitimação do cativeiro.
PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
Nossa análise do argumento já resolveu o caso. O texto é um documento histórico fascinante porque revela a contradição no coração da ação jesuítica.
- Por um lado, os jesuítas frequentemente defendiam os indígenas da escravização pelos colonos.
- Por outro, como mostra o texto, eles mesmos viam a necessidade de possuir escravos (geralmente de origem africana) para a manutenção de suas próprias estruturas (colégios, missões).
- A justificativa é utilitária: o “mal” da escravidão é necessário para alcançar o “bem” maior da evangelização e da educação.
🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! A armadilha mais sedutora é a alternativa (A), “propagação do ideário cristão”. O candidato lê “Irmãos Jesuítas” e “confissões” e foca na missão religiosa. O erro é não perceber que o texto não está justificando a evangelização em si. Ele está justificando o meio material (o uso de escravos) que, segundo o autor, é necessário para que a evangelização possa acontecer. O tema do texto não é a fé, mas a mão de obra.
A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: A investigação mostra que o texto é um argumento explícito para que a Companhia de Jesus adquira e utilize mão de obra escrava.
- Expectativa: A alternativa correta deve nomear essa prática de escravidão ou cativeiro.
PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
Vamos agora interrogar cada um dos suspeitos.
- A) propagação do ideário cristão.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato cai na “Armadilha Clássica”.
- O “Diagnóstico do Erro”: Confundir o Fim com o Meio. A propagação da fé é o objetivo final dos jesuítas, mas o assunto do texto e o que ele busca justificar é o meio para alcançar esse fim: a posse de escravos.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
- B) valorização do trabalho braçal.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato foca na menção aos “serviços” e “trabalho”.
- O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Direta. O texto faz o exato oposto de valorizar o trabalho braçal. Ele o descreve como algo que os próprios jesuítas não podem (ou não devem) fazer, delegando-o a uma classe inferior e subjugada.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
- C) adoção do cativeiro na Colônia.
- Análise de Correspondência: Esta alternativa é o retrato falado da nossa Bússola. “Adoção do cativeiro” é um sinônimo preciso para a prática da escravidão que o texto está defendendo e justificando.
- Conclusão: 🟢 Alternativa correta.
- D) adesão ao ascetismo contemplativo.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato pode associar “monges” e “religiosos” com uma vida de contemplação.
- O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. O texto descreve os jesuítas como ocupados com tarefas ativas (“confissões e tudo mais”), e a justificativa para ter escravos é justamente para que eles possam continuar a realizar essas tarefas. Não há menção a ascetismo ou contemplação.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
- E) alfabetização dos indígenas nas Missões.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato pensa em outra atividade famosa dos jesuítas.
- O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. O texto não faz nenhuma menção à catequização ou alfabetização de indígenas. O foco é estritamente na necessidade de mão de obra para os serviços gerais.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
Frase de Fechamento: Confirmamos que a alternativa C é a correta. Este caso é um poderoso documento sobre a complexidade da história, mostrando como até mesmo instituições com missões espirituais estavam profundamente inseridas e dependentes da estrutura brutal da escravidão.
Resumo-flash (A Imagem Mental): Para salvar almas, o jesuíta argumentava que era preciso escravizar corpos.
Para ir Além (A Ponte para o Futuro): O mesmo padrão de justificar uma prática eticamente questionável em nome de um “bem maior” é um dilema central na Ética da Tecnologia hoje. Por exemplo, empresas de tecnologia coletam uma quantidade massiva de dados pessoais, muitas vezes invadindo a privacidade dos usuários. A justificativa? “É para melhorar nossos serviços”, “para oferecer uma experiência personalizada”, “para garantir a segurança”. A estrutura do argumento é a mesma do jesuíta: o “mal” (a perda de privacidade, o cativeiro) é apresentado como um meio necessário e pragmático para alcançar um “bem” (um serviço melhor, a salvação das almas). A análise crítica de tais justificativas continua a ser um desafio fundamental.
