Um dos exemplos mais conhecidos de herança recessiva ligada ao cromossomo X é o daltonismo. Como em qualquer distúrbio recessivo ligado ao cromossomo X, existem muito mais homens apresentando o fenótipo com esse tipo de daltonismo do que mulheres. Um casal formado por um homem não daltônico e por uma mulher gestante também não daltônica, mas portadora do gene recessivo para esse tipo de daltonismo, está esperando um bebê. Em uma das consultas de pré-natal, o casal recebeu um heredograma que contém todas as possibilidades de genótipo para esse bebê. Considere a legenda:
Qual heredograma foi recebido pelo casal?
Resolução Em Texto
- Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
- Genética (Herança ligada ao Sexo / Ligada ao Cromossomo X)
- Genética (Heredogramas)
- Interpretação de Texto
- Tema/Objetivo Geral: Aplicar os princípios da herança recessiva ligada ao X para prever todos os possíveis descendentes de um casal específico e identificar o heredograma que representa corretamente essas possibilidades.
- Nível da Questão: Médio.
- A questão exige um raciocínio em duas etapas: primeiro, “montar” os genótipos dos pais a partir da descrição textual; segundo, realizar o cruzamento (usando o “Quadro de Punnett”) para encontrar todas as quatro possibilidades de descendentes e, finalmente, comparar esse resultado com os cinco heredogramas.
- Gabarito: B
- A alternativa está correta. O pai é XᴰY e a mãe é XᴰXᵈ. O cruzamento entre eles pode gerar quatro tipos de descendentes: uma filha não daltônica (XᴰXᴰ), uma filha portadora (XᴰXᵈ), um filho não daltônico (XᴰY) e um filho daltônico (XᵈY). O heredograma B é o único que representa corretamente o casal parental e mostra exatamente essas quatro possibilidades na descendência.
PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
Decodificação do Objetivo: Em bom português, a missão é: “Um pai não daltônico e uma mãe que não é daltônica, mas carrega o gene (portadora), vão ter um bebê. O médico mostrou a eles um ‘mapa’ com todas as possibilidades de como o bebê pode ser (menina daltônica, menina portadora, menino daltônico, etc.). Qual dos cinco ‘mapas’ (heredogramas) é o correto para este casal?”
Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine a genética como um jogo de cartas. O pai tem um baralho com as cartas X e Y. A mãe tem um baralho com duas cartas X, mas uma delas está “marcada” com o gene do daltonismo. Para ter um filho, cada um sorteia uma carta e a combina. Nossa tarefa é descobrir todas as quatro combinações de cartas possíveis que podem sair desse sorteio e encontrar o heredograma que mostra exatamente essas quatro combinações.
Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação):
- Decifrar o Código Genético: Vamos definir os símbolos (alelos) para o daltonismo.
- Identificar os “Jogadores”: Vamos determinar o genótipo (as “cartas”) do pai e da mãe.
- Jogar as Cartas: Vamos usar a ferramenta do Quadro de Punnett para simular o cruzamento e descobrir todas as possibilidades para os filhos.
- Realizar a Autópsia: Vamos comparar o nosso resultado com cada heredograma para encontrar o correto.
PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Para este caso, a ferramenta principal é a Análise Genética, que inclui o Quadro de Punnett.
DOSSIÊ: O GENE DO DALTONISMO
- Localização: Cromossomo X.
- Natureza: Recessivo.
- Decifrando o Código (Alelos):
- Xᴰ = Cromossomo X com o alelo Dominante (visão normal).
- Xᵈ = Cromossomo X com o alelo recessivo (daltonismo).
- Y = Cromossomo Y (não carrega este gene).
- Identificando os Pais (Os “Jogadores”):
- Pai: “homem não daltônico”. Para um homem não ser daltônico, seu único X deve ser normal. → Genótipo: XᴰY.
- Mãe: “mulher […] não daltônica, mas portadora”. Ela não é daltônica, então tem pelo menos um Xᴰ. Mas é portadora, então tem o gene recessivo escondido. → Genótipo: XᴰXᵈ.
- Simulando o Cruzamento (O Quadro de Punnett):
Vamos cruzar os gametas dos pais:
| Xᴰ (da mãe) | Xᵈ (da mãe) | |
| Xᴰ (do pai) | XᴰXᴰ | XᴰXᵈ |
| Y (do pai) | XᴰY | XᵈY |
Conclusão Forense (As 4 Possibilidades):
- XᴰXᴰ: Filha Mulher não daltônica (círculo branco).
- XᴰXᵈ: Filha Mulher heterozigota portadora (círculo com ponto).
- XᴰY: Filho Homem não daltônico (quadrado branco).
- XᵈY: Filho Homem daltônico (quadrado azul).
PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
Nosso Quadro de Punnett já nos deu o “retrato falado” do heredograma que estamos procurando. O heredograma correto deve mostrar:
- Na geração parental: Um homem não daltônico (quadrado branco) e uma mulher portadora (círculo com ponto).
- Na geração filial: Exatamente as quatro possibilidades que encontramos: uma mulher não daltônica, uma mulher portadora, um homem não daltônico e um homem daltônico.
🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! A principal armadilha é a alternativa (A). Ela mostra os pais corretos, mas erra feio nos filhos, mostrando uma filha daltônica (impossível, pois o pai daria um Xᴰ que a “salvaria”) e uma filha portadora (possível), um filho daltônico (possível) e um não daltônico (possível). A presença da filha daltônica invalida o heredograma.
A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: A investigação genética revelou os genótipos dos pais (XᴰY e XᴰXᵈ) e as quatro possibilidades de descendentes (XᴰXᴰ, XᴰXᵈ, XᴰY, XᵈY).
- Expectativa: O heredograma correto deve representar exatamente essa família e todas as suas possibilidades.
PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
Vamos agora interrogar cada um dos suspeitos (os heredogramas).
- A)
- Análise: Pais corretos. Filhos: 1 mulher daltônica (impossível), 1 mulher portadora, 1 homem daltônico, 1 homem não daltônico.
- O “Diagnóstico do Erro”: Resultado Incorreto. Uma mulher só pode ser daltônica (XᵈXᵈ) se receber um Xᵈ do pai. Mas o pai é XᴰY, então ele só pode doar o Xᴰ para as filhas.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
- B)
- Análise: Pais corretos (Homem não daltônico XᴰY; Mulher portadora XᴰXᵈ). Filhos: 1 mulher não daltônica (XᴰXᴰ), 1 mulher portadora (XᴰXᵈ), 1 homem daltônico (XᵈY), 1 homem não daltônico (XᴰY).
- Análise de Correspondência: Esta alternativa é o retrato falado da nossa Bússola. Corresponde perfeitamente aos pais e às quatro possibilidades de filhos que calculamos no Quadro de Punnett.
- Conclusão: 🟢 Alternativa correta.
- C)
- Análise: Pais corretos. Filhos: 2 mulheres portadoras, 2 homens não daltônicos.
- O “Diagnóstico do Erro”: Resultados Incompletos. Ignora a possibilidade de nascer uma filha não daltônica (XᴰXᴰ) e, crucialmente, a de nascer um filho daltônico (XᵈY).
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
- D)
- Análise: Pais corretos. Filhos: 2 mulheres não daltônicas, 2 homens daltônicos.
- O “Diagnóstico do Erro”: Resultados Incompletos. Ignora a possibilidade de nascer uma filha portadora (XᴰXᵈ) e a de nascer um filho não daltônico (XᴰY).
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
- E)
- Análise: Pais corretos. Filhos: 2 mulheres daltônicas (impossível), 2 homens não daltônicos.
- O “Diagnóstico do Erro”: Resultado Incorreto. Como na alternativa A, é impossível para este casal ter uma filha daltônica.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
Frase de Fechamento: Confirmamos que a alternativa B é a correta. Este caso é uma aula de genética preditiva, mostrando como o conhecimento das leis da herança nos permite calcular, com precisão, as probabilidades e possibilidades para as futuras gerações.
Resumo-flash (A Imagem Mental): A genética ligada ao X é um jogo de cartas onde a mãe dá as cartas que definem o destino dos filhos homens.
Para ir Além (A Ponte para o Futuro): O mesmo princípio de prever múltiplos resultados possíveis a partir de um conjunto de condições iniciais é a base da previsão do tempo e de modelos climáticos. Um meteorologista não consegue prever com 100% de certeza se vai chover amanhã. Em vez disso, usando os dados atuais (as “cartas” da mãe e do pai — temperatura, pressão, umidade), ele roda o modelo computacional várias vezes para gerar um conjunto de cenários possíveis (as quatro “crianças” do nosso heredograma). O resultado é uma previsão de “80% de chance de chuva”, que representa a proporção de cenários em que a chuva ocorreu. A lógica do aconselhamento genético e da previsão do tempo é a mesma: trabalhar com probabilidades e possibilidades, e não com certezas absolutas.
