Uma definição possível para o conceito de arte afro-brasileira pode ser: produção plástica que é feita por negros, mestiços ou brancos a partir de suas experiências sociais com a cultura negra nacional. Exemplos clássicos dessa abordagem são Carybé (1911-1997), Mestre Didi (1917-2013) e Djanira da Motta e Silva (1914-1979), cujas obras emergem e ganham forma em razão do ambiente social no qual habitaram e viveram. Se Didi era um célebre representante da cultura religiosa nagô baiana e brasileira, iniciado desde o ventre no candomblé, Carybé era argentino e, naturalizado brasileiro, envolveu-se de tal modo com essa religião que alguns dos orixás dos quais conhecemos a imagem visual são produções suas.

Disponível em: www.premiopipa.com. Acesso em: 13 nov. 2021 (adaptado).

Sob a perspectiva da multiculturalidade e de acordo com o texto, a produção artística afro-brasileira caracteriza-se pelo(a)

A) estranhamento no modo de apropriação da cultura religiosa de matriz africana.

B) distanciamento entre as raízes de matriz africana e a estética de outras culturas.

C) visão uniformizadora das religiões de matriz africana expressada nas diferentes produções.

D) relação complexa entre as vivências pessoais dos artistas e os referenciais estéticos de matriz africana.

E) padronização da forma de produção e da temática da matriz africana presente nas obras dos artistas citados.

✍ “Resolução Em Texto”

Matérias Necessárias para a Solução da Questão
Artes (História da Arte Brasileira e Estética).
Sociologia (Multiculturalismo e Identidade Cultural).
Interpretação de Texto (Compreensão de Teses).

Tema/Objetivo Geral:
Definir o conceito de arte afro-brasileira não por critérios raciais/biológicos, mas por critérios socioculturais e vivenciais, analisando como diferentes artistas (nativos ou estrangeiros) interagem com a cultura negra.

Nível da Questão
Médio.
Exige que o aluno supere o senso comum de que “arte afro-brasileira é apenas a arte feita por afrodescendentes” e compreenda a definição mais ampla e antropológica apresentada no texto base.

Gabarito
Letra D.
O texto define essa produção artística como resultado do encontro entre a vida do artista (suas experiências, seja ele um sacerdote como Didi ou um imigrante como Carybé) e o universo simbólico africano (os orixás, a estética).


1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Decodificação do Objetivo:
A questão quer que você identifique a “fórmula” da arte afro-brasileira segundo o texto. O que torna uma obra “afro-brasileira”? É a cor da pele do pintor? É o local de nascimento? Ou é a conexão dele com o tema?

Simplificação Radical (A Analogia Central):
Imagine o Samba.
Quem faz o Samba? Só quem nasceu no morro? Ou um japonês que se mudou para o Brasil, estudou percussão e vive no meio das baterias também pode fazer Samba?
O texto diz que o “japonês do samba” (no caso, o argentino Carybé) também produz arte afro-brasileira.
Portanto, a arte não está no DNA, está na Vivência. O desafio é entender que a arte nasce da mistura (multiculturalidade) entre quem a pessoa é e onde ela vive.

Nosso Plano de Ataque será o seguinte:

  1. Analisar a Definição: Ler a primeira frase do texto com lupa.
  2. Comparar os Perfis: Contrastar Mestre Didi (o “de dentro”) com Carybé (o “de fora”).
  3. Sintetizar a Relação: Encontrar a alternativa que descreve esse encontro entre o indivíduo e a cultura.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Vamos usar a ferramenta da Sociologia da Cultura.

Dossiê dos Artistas Citados:

Artista Origem (Quem ele é?) Relação com a Cultura Negra (Vivência) Resultado Artístico
Mestre Didi Brasileiro, Baiano, Sacerdote do Candomblé. Imersão Total: Iniciado desde o ventre. A cultura é sua essência. Arte Sacra Afro-Brasileira.
Carybé Argentino, Branco, Viajante. Apropriação Afetiva: Naturalizou-se, envolveu-se, apaixonou-se pelos Orixás. Iconografia dos Orixás (imagens visuais).

Conceito-Chave:
Multiculturalidade: Não é apenas viver lado a lado, é a troca. O texto mostra que a cultura negra no Brasil é tão forte que ela “imanta” e inspira até quem vem de fora (brancos, estrangeiros), criando uma arte que mistura a visão pessoal do artista com a estética africana.


3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Vamos dissecar a tese do autor:

  1. A Tese: “produção plástica que é feita por negros, mestiços ou brancos”.
    • Tradução: A arte afro-brasileira é democrática racialmente.
  2. A Condição: “…a partir de suas experiências sociais com a cultura negra nacional”.
    • Tradução: Você não precisa ser negro, mas precisa viver e sentir a cultura negra.
  3. A Conclusão: As obras “emergem… em razão do ambiente social”.
    • Tradução: A arte é fruto do meio e da relação do artista com esse meio.

Síntese:
Se Carybé (argentino) pinta Orixás, ele está misturando a vivência pessoal dele (um estrangeiro que escolheu a Bahia) com o referencial estético (a religião africana). Essa mistura é complexa, rica e legítima.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO com a ideia de “Apropriação Cultural” no sentido negativo (Alternativa A).
Hoje em dia, fala-se muito que “branco não pode fazer arte negra”. O texto vai na contramão dessa polêmica moderna. Ele diz que Carybé pode e faz arte afro-brasileira porque ele teve vivência. O texto celebra essa união, não a critica como “estranhamento” ou roubo. Atenha-se ao texto!

A Bússola (O Perfil do Culpado):

  • Síntese do raciocínio: A arte afro-brasileira é caracterizada pela interação profunda entre a subjetividade do artista (sua história de vida) e a objetividade da cultura (os símbolos africanos), independentemente da etnia do criador.
  • Expectativa: A alternativa correta deve conter palavras que indiquem conexão, relação, vivência ou interação entre o artista e a cultura.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

A) estranhamento no modo de apropriação da cultura religiosa de matriz africana.

  • Diagnóstico do Erro: Contradição de Sentimento.
  • Análise: O texto diz que Carybé “envolveu-se de tal modo”. Envolvimento é o oposto de estranhamento. Ele se sentiu em casa, não estranho.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

B) distanciamento entre as raízes de matriz africana e a estética de outras culturas.

  • Diagnóstico do Erro: Contradição Direta.
  • Análise: O texto fala de aproximação. A estética de Carybé (outra cultura/argentina) se fundiu às raízes africanas. Não houve distanciamento, houve fusão.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

C) visão uniformizadora das religiões de matriz africana expressada nas diferentes produções.

  • Diagnóstico do Erro: Generalização.
  • Análise: “Uniformizadora” significa que tudo ficou igual. O texto diz que as obras “emergem em razão do ambiente” e das “experiências”. Como cada artista tem uma experiência diferente, a arte resultante é diversa, não uniforme.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

D) relação complexa entre as vivências pessoais dos artistas e os referenciais estéticos de matriz africana.

  • Análise de Correspondência: Perfeita.
  • Vivências pessoais: Cobre tanto a vida religiosa de Didi quanto a imigração de Carybé.
  • Referenciais estéticos: São os Orixás, o candomblé, a cultura negra.
  • Relação complexa: É a interação dinâmica descrita no texto (“a partir de suas experiências sociais”).
  • Conclusão: ✔️ Alternativa correta.

E) padronização da forma de produção e da temática da matriz africana presente nas obras dos artistas citados.

  • Diagnóstico do Erro: Mesmo erro da C.
  • Análise: Não há padronização. Mestre Didi fazia esculturas com búzios e palha; Carybé fazia pinturas e desenhos. Formas diferentes, temáticas conectadas, mas não padronizadas.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Frase de Fechamento:
A alternativa D é a correta pois resume a definição sociológica do texto: a arte afro-brasileira é o produto do diálogo íntimo entre a biografia do artista e a riqueza da cultura negra.

Resumo-flash:
Arte não é sangue, é solo e vivência.

🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
Este texto dialoga com o conceito de Hibridismo Cultural (Néstor García Canclini). Na América Latina, as culturas não são “puras”. Elas são híbridas. Um argentino pode se tornar o maior pintor de Orixás do Brasil (Carybé), assim como um francês (Pierre Verger) se tornou um dos maiores fotógrafos e babalaôs da Bahia. A cultura é fluida e contagiante.