— Vá para o inferno, Gondim. Você acanalhou o troço. Está pernóstico, está safado, está idiota. Há lá ninguém que fale dessa forma!
Azevedo Gondim apagou o sorriso, engoliu em seco, apanhou os cacos da sua pequenina vaidade e replicou amuado que um artista não pode escrever como fala.
— Não pode? — perguntei com assombro. E por quê? Azevedo Gondim respondeu que não pode porque não pode.
— Foi assim que sempre se fez. A literatura é a literatura, seu Paulo. A gente discute, briga, trata de negócios naturalmente, mas arranjar palavras com tinta é outra coisa. Se eu fosse escrever como falo, ninguém me lia.
RAMOS, G. São Bernardo. Rio de Janeiro: Record, 2009.
Nesse fragmento, a discussão dos personagens traz à cena um debate acerca da escrita que
A) diferencia a produção artística do registro padrão da língua.
B) aproxima a literatura de dialetos sociais de pouco prestígio.
C) defende a relação entre a fala e o estilo literário de um autor.
D) contrapõe o preciosismo linguístico a situações de coloquialidade.
E) associa o uso da norma culta à ocorrência de desentendimentos pessoais.
✍ “Resolução Em Texto”
Matérias Necessárias para a Solução da Questão
Literatura Brasileira (Modernismo – 2ª Fase).
Interpretação de Texto (Metalinguagem).
Variação Linguística (Norma Culta vs. Linguagem Coloquial).
Tema/Objetivo Geral:
Analisar um debate metalinguístico (a literatura falando sobre a própria literatura) dentro de uma obra modernista, identificando o conflito entre a escrita artificial/rebuscada e a escrita natural/oral.
Nível da Questão
Médio.
Exige que o aluno compreenda vocabulário específico (“pernóstico”) e perceba que o diálogo não é uma briga pessoal qualquer, mas uma discussão estética sobre como se deve escrever um livro.
Gabarito
Letra D.
O texto coloca em choque duas visões: a de quem acha que literatura deve ser “enfeitada” (preciosismo) e a de quem acha que ela deve ser direta como a fala (coloquialidade).
1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
Decodificação do Objetivo:
A questão quer que você identifique o motivo da briga. Um personagem (Paulo Honório, o narrador) xinga o outro (Gondim, o escritor) por causa do jeito que ele escreve. Qual é o cerne desse desentendimento estético?
Simplificação Radical (A Analogia Central):
Imagine que você vai postar uma foto na rede social.
- Gondim (O Escritor): Quer usar 10 filtros, corrigir a luz, fazer pose e colocar uma legenda poética difícil. Ele acha que “arte tem que ser diferente da vida real”.
- Paulo Honório (O Crítico): Quer postar a foto #semfiltro, natural, do jeito que foi. Ele acha que o excesso de enfeite é “pernóstico” (metido/falso).
A questão pede o nome técnico para essa briga: Filtro Exagerado (Preciosismo) vs. Vida Real (Coloquialidade).
Nosso Plano de Ataque será o seguinte:
- Traduzir os Adjetivos: Entender o que significa “pernóstico” e “acanalhou”.
- Mapear os Argumentos: O que cada um defende sobre a relação Fala x Escrita?
- Encontrar o Termo Técnico: Associar essa disputa às alternativas apresentadas.
2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Vamos usar a ferramenta da Estética Modernista.
Graciliano Ramos é um autor da 2ª Fase do Modernismo (Romance de 30), conhecida pela linguagem seca, direta e crítica ao excesso de “floreios” do passado.
Dossiê do Conflito:
| Personagem | O que ele defende? | Termo Técnico |
| O Narrador (Paulo) | “Há lá ninguém que fale dessa forma!” | Defende a Coloquialidade (Naturalidade, aproximação com a fala). |
| Gondim (Escritor) | “Um artista não pode escrever como fala” / “Arranjar palavras com tinta” | Defende o Preciosismo (Artificialidade, distinção, norma culta rígida). |
Vocabulário Essencial:
- Pernóstico: Pretensioso, metido a besta, que usa palavras difíceis para parecer inteligente.
- Preciosismo Linguístico: O exagero no cuidado com a língua, uso de termos raros e construções complexas desnecessárias.
3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
Vamos dissecar o diálogo:
- O Ataque: O narrador diz: “Vá para o inferno… Está pernóstico”. Ele está irritado porque o texto de Gondim soa falso. Ninguém fala daquele jeito na vida real.
- A Defesa: Gondim responde: “A literatura é a literatura”. Para ele, escrever é um ato sagrado e separado da vida (“negócios a gente trata naturalmente, mas tinta é outra coisa”).
- O Abismo: Temos aqui a clássica tensão da literatura brasileira. De um lado, a tradição que quer a língua “pura e bela” (Gondim). Do outro, a modernidade que quer a língua “viva e real” (Narrador).
Síntese:
O texto contrapõe a maquiagem (Gondim) à cara limpa (Narrador).
🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO com a alternativa A (Diferencia a produção artística do registro padrão).
Essa é perigosa! Gondim realmente diferencia a arte da fala. Mas o registro “padrão” não é necessariamente o inimigo aqui. O problema apontado pelo narrador não é o texto estar “correto” gramaticalmente, é ele estar “pernóstico” (exagerado, artificial). Você pode escrever na norma padrão sem ser pernóstico (Graciliano Ramos fazia isso: norma culta, mas seca e direta). O foco da crítica é o exagero/preciosismo, não a correção gramatical em si.
A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: O debate gira em torno da distância entre a língua falada (coloquial) e a língua escrita literária (preciosa/artificial).
- Expectativa: A alternativa correta deve conter palavras que indiquem essa oposição: artificial vs. natural, rebuscado vs. simples, ou preciosismo vs. coloquialidade.
4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
A) diferencia a produção artística do registro padrão da língua.
- Diagnóstico do Erro: Imprecisão Terminológica.
- Análise: O debate não é sobre “Arte vs. Norma Padrão”. É sobre “Artificialidade vs. Naturalidade”. Gondim não defende apenas o registro padrão, ele defende um estilo elevado (“arranjar palavras com tinta”). O narrador não ataca a gramática, ataca a pedância (“pernóstico”).
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
B) aproxima a literatura de dialetos sociais de pouco prestígio.
- Diagnóstico do Erro: Extrapolação.
- Análise: O narrador quer que se escreva como se fala, mas não especifica que deve ser um dialeto de “pouco prestígio” ou gíria marginal. Ele quer apenas naturalidade (“ninguém fala dessa forma”).
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
C) defende a relação entre a fala e o estilo literário de um autor.
- Diagnóstico do Erro: Leitura pela Metade.
- Análise: Um dos personagens (o narrador) defende isso. Mas o outro (Gondim) ataca isso veementemente (“um artista não pode escrever como fala”). A alternativa diz que a discussão defende a relação, mas a discussão problematiza essa relação, apresentando os dois lados. Além disso, o personagem que “ganha” a discussão intelectual (Gondim, que explica a teoria) defende a separação.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
D) contrapõe o preciosismo linguístico a situações de coloquialidade.
- Análise de Correspondência: Perfeita.
- Preciosismo: Representado pela fala de Gondim e pelos adjetivos “pernóstico/idiota” usados para descrevê-lo.
- Situações de Coloquialidade: Representado pelo desejo do narrador de ver a escrita refletir como “a gente discute, briga, trata de negócios” (a vida real/fala).
- O verbo “contrapõe” é perfeito, pois mostra o choque entre as duas visões.
- Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
E) associa o uso da norma culta à ocorrência de desentendimentos pessoais.
- Diagnóstico do Erro: Confusão de Causa e Efeito.
- Análise: O desentendimento ocorre por causa da opinião sobre o texto, não porque Gondim usou norma culta na conversa. Eles estão brigando sobre a norma, não por causa do uso dela na discussão em si.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
Frase de Fechamento:
A alternativa D é a correta pois resume o embate estético central do Modernismo brasileiro: a luta para despir a literatura dos excessos acadêmicos (preciosismo) e vesti-la com a roupa do dia a dia (coloquialidade).
Resumo-flash:
Escrever difícil para parecer inteligente é “pernóstico”; escrever simples é genialidade.
🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
Graciliano Ramos, o autor deste livro (São Bernardo), era conhecido por cortar adjetivos desnecessários de seus textos. Ele dizia que “a palavra não foi feita para enfeitar, mas para dizer”. Esse texto é irônico porque o personagem Paulo Honório (um fazendeiro rude) critica o escritor Gondim exatamente com a filosofia que o próprio Graciliano defendia na vida real: a busca pela Linguagem Seca e direta.
