Eu sentia falta do futuro. É claro que eu sabia, muito mesmo antes da recorrência dele, que nunca envelheceria. Era muito provável que eu nunca mais fosse ver o oceano de uma altura de trinta mil pés de novo, uma distância tão grande que não dá nem para distinguir as ondas, nem nenhum barco, de um jeito que faz o oceano parecer um enorme e infinito monólito. Eu poderia imaginá-lo. Eu poderia me lembrar dele. Mas não poderia vê-lo de novo, e me ocorreu que a ambição voraz dos seres humanos nunca é saciada quando os sonhos são realizados, porque há sempre a sensação de que tudo poderia ter sido feito melhor e ser feito outra vez.

GREEN, J. A culpa é das estrelas. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2012.

O texto apresenta uma reflexão da personagem acerca de um problema característico da filosofia contemporânea, que trata da(s)

A) implicações éticas.

B) finitude humana.

C) limitações da linguagem.

D) pressuposição existencial.

E) objetividade do conhecimento.

✍ “Resolução Em Texto”

Matérias Necessárias para a Solução da Questão
Filosofia (Existencialismo e Contemporaneidade).
Literatura (Interpretação de Texto).
Antropologia Filosófica (A Condição Humana).

Tema/Objetivo Geral:
Identificar o conceito filosófico de Finitude a partir de um relato literário que aborda a consciência da morte, a brevidade da vida e a impossibilidade de realizar todos os projetos humanos.

Nível da Questão
Médio.
O texto é de leitura fácil (best-seller juvenil), mas a questão exige que o aluno conecte a emoção da personagem (tristeza/saudade do futuro) a um conceito técnico da filosofia contemporânea. O desafio é traduzir “saber que vou morrer” para o termo filosófico “finitude humana”.

Gabarito
Letra B.
A personagem Hazel Grace reflete sobre o fato de que seu tempo acabou (“nunca envelheceria”). Essa consciência de que a existência tem um limite intransponível é o que a filosofia chama de Finitude.


1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Decodificação do Objetivo:
A questão pergunta: “Qual é o nome do problema filosófico que a personagem está enfrentando?”. Ela não está com dúvida sobre o que é certo ou errado (Ética), nem sobre o que é verdade (Conhecimento). Ela está angustiada porque o tempo dela acabou.

Simplificação Radical (A Analogia Central):
Imagine que a vida é um Ticket de Parque de Diversões.
A maioria das pessoas vive achando que o ticket vale para sempre. Elas brincam sem olhar para o relógio.
A personagem do texto olhou para o ticket e viu a data de validade: expira hoje.
Ela percebe que não vai dar tempo de ir em todos os brinquedos (“ambição voraz”). Esse “prazo de validade” da vida é o que chamamos de Finitude.

Nosso Plano de Ataque será o seguinte:

  1. Rastrear a Angústia: Identificar as frases que mostram o fim da linha (“nunca envelheceria”).
  2. Definir o Conceito: O que significa ser “finito” na filosofia?
  3. Eliminar o Ruído: Descartar as alternativas que falam de linguagem ou lógica, focando na existência.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Vamos usar a ferramenta da Ontologia (Estudo do Ser).

Na filosofia contemporânea (especialmente no Existencialismo de Heidegger e Sartre), o ser humano é definido pelo seu fim.

Dossiê da Condição Humana:

Característica O que o texto diz? Conceito Filosófico
Duração “Nunca envelheceria” / “Sentia falta do futuro” Finitude (Somos seres para a morte).
Desejo “Ambição voraz… nunca é saciada” Transcendência frustrada (Queremos o infinito, mas somos finitos).
Consciência “É claro que eu sabia” Angústia (A consciência do fim).

Conceito-Chave:
Finitude: Diferente dos deuses (eternos) e das pedras (que não sabem que vão acabar), o ser humano é finito e consciente. Sabemos que nosso tempo é escasso, e isso dá valor e urgência à vida.


3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Vamos ler o pensamento da personagem:

  1. O Diagnóstico: “Eu sentia falta do futuro”. Essa frase é paradoxal. Como sentir falta do que não aconteceu? Ela sente falta porque sabe que o futuro dela foi cancelado.
  2. A Certeza: “Nunca envelheceria”. Aqui a finitude deixa de ser teoria e vira fato.
  3. A Limitação: “Nunca mais fosse ver o oceano”. O espaço e as experiências dela estão se fechando.
  4. A Reflexão Filosófica: Ela percebe que o ser humano quer tudo (“ambição voraz”), mas a vida entrega pouco. Há um descompasso entre o querer infinito da alma e o tempo finito do corpo.

Síntese:
O texto é um lamento sobre os limites da existência. A personagem está “batendo no muro” da morte. Esse muro é a Finitude.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO com a alternativa D (Pressuposição Existencial).
Soa bonito e difícil, né? Muitos alunos marcam porque parece “coisa de filósofo”.
Mas cuidado: “Pressuposição Existencial” é um termo mais usado em Lógica e Linguística (pressupor que algo existe para falar sobre ele).
A questão fala de um problema da vida, uma angústia real. O problema não é “pressupor” a existência, é saber que a existência vai acabar. O termo correto para “acabar” é Finitude. Não troque o certo pelo “difícil”.

A Bússola (O Perfil do Culpado):

  • Síntese do raciocínio: O texto trata da consciência da morte iminente e da impossibilidade de realizar todos os potenciais da vida, caracterizando a condição limitada do ser humano.
  • Expectativa: A alternativa correta deve conter palavras como “morte”, “limite”, “tempo”, “fim” ou “finitude”.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

A) implicações éticas.

  • Diagnóstico do Erro: Confusão de Campo.
  • Análise: Ética trata do “dever ser”, do certo e errado, do bem e mal. A personagem não está diante de um dilema moral (ex: “devo roubar o remédio?”). Ela está diante de um fato existencial (a morte).
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

B) finitude humana.

  • Análise de Correspondência: Perfeita.
  • Finitude: Qualidade do que é finito, limitado, que tem fim.
  • No texto: “Nunca envelheceria”, “nunca mais fosse ver”, “sentia falta do futuro”. Tudo aponta para o término da existência. É o tema central do livro A Culpa é das Estrelas.
  • Conclusão: ✔️ Alternativa correta.

C) limitações da linguagem.

  • Diagnóstico do Erro: Foco na Ferramenta errada.
  • Análise: A personagem consegue se expressar muito bem (“oceano parecer um monólito”). O problema dela não é falta de palavras para descrever o mundo, é falta de tempo para viver no mundo.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

D) pressuposição existencial.

  • Diagnóstico do Erro: Termo Técnico Deslocado.
  • Análise: Como vimos na “Armadilha”, isso é um conceito lógico. Além disso, mesmo se levarmos para o lado existencialista, o texto foca no fim da existência, não na sua pressuposição lógica. É um distrator vocabular.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

E) objetividade do conhecimento.

  • Diagnóstico do Erro: Fuga para a Epistemologia.
  • Análise: O texto é subjetivo, emocional e pessoal (“Eu sentia”, “Eu sabia”). Não há uma discussão sobre a ciência, a verdade objetiva ou a neutralidade do saber.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Frase de Fechamento:
A alternativa B é a correta pois traduz o drama literário da morte prematura para o conceito filosófico que define a condição humana: somos seres limitados pelo tempo e pela mortalidade (finitude).

Resumo-flash:
O homem sonha como um deus, mas morre como uma flor: isso é finitude.

🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
O filósofo alemão Martin Heidegger dizia que o homem é um “Ser-para-a-morte”. Parece mórbido, mas para ele, só quando assumimos nossa finitude é que vivemos uma vida autêntica. Se achássemos que viveríamos para sempre, adiaríamos tudo. A morte é o que dá sentido e urgência à vida. A personagem Hazel Grace, ao encarar a finitude, vive seu amor de forma mais intensa do que a maioria das pessoas “eternas”.