Sob a perspectiva em que o artista deve trabalhar com as coisas que o tocam profundamente, a singularidade da obra Bastidores, produzida com objetos do cotidiano e de pouco valor material, mostra a boca, que expressa uma
A) situação religiosa afro-brasileira que envolve grande parte da população.
B) condição particular da artista, deslocada de um contexto sociocultural.
C) situação histórica em que as mulheres ainda bordavam em bastidores
D) condição vivida por parte das mulheres afro-brasileiras trabalhadoras.
E) situação que se sugere, mas que não se aplica, a parcelas da população.
✍ Resolução Em Texto
Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
- História da Arte Brasileira Contemporânea: Rosana Paulino (Arte Afro-Brasileira).
- Sociologia/História: Condição da mulher negra no Brasil.
- Semiótica: Leitura de imagem e simbolismo.
Tema/Objetivo Geral:
Analisar a obra Bastidores da artista Rosana Paulino, compreendendo como ela usa a técnica do bordado sobre fotografia para denunciar o silenciamento e a violência sofrida pelas mulheres negras brasileiras, resignificando um objeto doméstico (o bastidor) em ferramenta política.
Nível da Questão: Médio.
- Justificativa: A questão exige a interpretação da intervenção artística. A imagem mostra uma mulher negra com a boca costurada de forma grosseira. O aluno precisa conectar essa violência visual (silenciamento) ao contexto social da mulher negra (trabalhadora, subalternizada).
Gabarito: D.
- Resumo: A obra mostra o rosto de uma mulher negra impresso em tecido e preso num bastidor de bordar. A boca da mulher está “costurada” com linha preta, num gesto violento de silenciamento. Isso simboliza a condição histórica das mulheres afro-brasileiras, muitas vezes restritas ao trabalho doméstico (bastidor) e impedidas de falar ou ter voz ativa na sociedade.
1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
Função Pedagógica: Identificar a denúncia social na arte.
Decodificação do Objetivo: A questão pergunta: “O que significa essa boca costurada nessa mulher negra?”. É algo religioso? É só sobre a artista? Ou é sobre a dor de um grupo social inteiro?
Simplificação Radical (A Analogia Central):
O Bastidor: Símbolo do lar, do trabalho feminino silencioso (“coisa de mulher”).
A Costura na Boca: Símbolo de “cale a boca”, “não reclame”.
A Mulher: Negra.
Soma: A mulher negra foi forçada a trabalhar calada historicamente.
Nosso Plano de Ataque será o seguinte:
- Analisar a imagem: Rosto de mulher negra + Boca costurada.
- Analisar o suporte: Bastidor de bordado (universo doméstico).
- Concluir que a obra denuncia a condição de silenciamento das mulheres negras trabalhadoras.
2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Em questões de Artes Visuais, não basta olhar; é preciso “ler” os símbolos. Vamos simular uma investigação para decodificar o que a artista quis dizer ao misturar costura com violência.
🕵️♂️ Mentor (Detetive): Olhe para o suporte da obra (o objeto circular). O que é isso?
🧠 Aluno (Cérebro): É um bastidor. Aquele aro de madeira usado para fazer bordado.
🕵️♂️ Mentor: Exato. E culturalmente, o bordado nos lembra o quê?
🧠 Aluno: Coisa de casa, de avó, de mulher “do lar”. É algo delicado, doméstico e feminino.
🕵️♂️ Mentor: Perfeito. Agora olhe para a intervenção da artista. O que ela fez com a linha de bordar? Ela fez uma flor?
🧠 Aluno: Não! Ela costurou a boca da mulher na foto. Parece grosseiro, agressivo.
🕵️♂️ Mentor: Então temos um choque: o objeto é delicado (bastidor), mas a ação é violenta (silenciamento). E quem é a mulher na foto?
🧠 Aluno: É uma mulher negra.
🕵️♂️ Mentor: Vamos somar tudo.
- Bastidor = Trabalho doméstico / Lugar escondido.
- Mulher Negra = A pessoa que historicamente faz esse trabalho.
- Boca Costurada = A proibição de falar / O sofrimento mudo.
Conceito Chave: Subversão do Suporte
A artista usa um objeto que deveria representar “o belo lar” para mostrar que, para a mulher negra, esse lar muitas vezes foi um lugar de silenciamento e trabalho forçado. Ela subverte a delicadeza para denunciar a dureza da realidade.
3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
Vamos analisar a imagem:
- É uma foto antiga (parece um retrato de família ou documento).
- A boca está borrada/preta. Olhando de perto (detalhe citado na legenda), vê-se que são pontos de costura grosseiros.
- A mulher é negra.
Conclusão:
A obra não é sobre religião (A) nem apenas sobre o passado do bordado (C). Ela usa o bordado para falar de uma condição social. A boca costurada é o símbolo da opressão vivida por essas mulheres.
🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
A alternativa (B) (“condição particular da artista”) é um distrator comum em arte contemporânea.
- Por que seduz? Porque a arte contemporânea é muitas vezes autobiográfica (Rosana Paulino usa fotos de suas familiares).
- Por que está errada? A questão pede o que a obra expressa (o significado social), não apenas a origem da foto. A arte de Rosana Paulino transcende o individual para falar do coletivo. Ela usa a foto da família dela para falar da “mãe preta”, da empregada, da escrava. A obra ganha força justamente por representar um grupo (mulheres afro-brasileiras), e não apenas uma pessoa “deslocada de um contexto”.
A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: A boca costurada simboliza o silenciamento imposto às mulheres negras, historicamente relegadas aos bastidores da sociedade.
- Expectativa: A alternativa correta deve falar sobre mulheres negras, afro-brasileiras, silenciamento, trabalho ou condição social.
4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
- A) situação religiosa afro-brasileira que envolve grande parte da população.
- Diagnóstico do Erro: Invenção Temática.
- Narrativa do Erro: Não há elementos religiosos (orixás, contas, altar) na imagem. A costura na boca é violência/silenciamento, não ritual.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
- B) condição particular da artista, deslocada de um contexto sociocultural.
- Diagnóstico do Erro: Reducionismo Individualista.
- Narrativa do Erro: Como explicado na armadilha, a obra é profundamente inserida no contexto sociocultural (racismo/gênero). Dizer que ela é “deslocada” ou apenas “particular” ignora a dimensão política da arte de Rosana Paulino.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
- C) situação histórica em que as mulheres ainda bordavam em bastidores
- Diagnóstico do Erro: Leitura Literal (Superficial).
- Narrativa do Erro: O bastidor é o suporte, mas a mensagem não é “olha como elas bordavam”. A mensagem é o que foi feito com o bordado (a costura da boca). A alternativa ignora a violência da imagem.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
- D) condição vivida por parte das mulheres afro-brasileiras trabalhadoras.
- Análise de Correspondência: Perfeito.
- “Mulheres afro-brasileiras”: O sujeito da foto.
- “Trabalhadoras”: A referência aos “bastidores” (trabalho doméstico/invisível).
- “Condição vivida”: O silenciamento (boca costurada) e a violência simbólica.
- Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
- Análise de Correspondência: Perfeito.
- E) situação que se sugere, mas que não se aplica, a parcelas da população.
- Diagnóstico do Erro: Negação da Realidade Social.
- Narrativa do Erro: A obra denuncia algo que se aplica e muito à população negra feminina (o racismo e o machismo). Dizer que “não se aplica” é negar a crítica social da obra.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
Frase de Fechamento:
A linha que borda também pode ser a linha que cala: em Bastidores, Rosana Paulino subverte a delicadeza do bordado feminino para denunciar a brutalidade do silenciamento imposto à mulher afro-brasileira (Alternativa D), transformando a costura em um grito político visual.
Resumo-flash (A Imagem Mental):
Bordado = Coisa de Vó. Boca Costurada = Tortura. A obra une o lar à dor.
🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
Esta obra dialoga com o conceito de Invisibilidade Pública da mulher negra, abordado por intelectuais como Lélia Gonzalez e Sueli Carneiro. A mulher negra é a base da pirâmide social brasileira, sustentando a economia (nos bastidores), mas tendo sua voz e humanidade frequentemente negadas.
