Quem não morreu na Espanhola
quem dela pôde escapar
não dê mais tratos à bola
toca a rir, toca a brincar.
Vai o prazer aos confins
remexe-se a terra inteira
ao som vivaz dos clarins
ao ronco do Zé Pereira.
Há alegrias à ufa
e em se tocando a brincar
nem este calor de estufa
nos chega a preocupar.
Tenho por cetro um chocalho
por trono um bombo de rufo
o Deus Momo louco e bufo
vai começar a reinar.

In: CASTRO, R. O Carnaval da guerra e da gripe. Rio de Janeiro: Cia. das Letras, 2019.

A pandemia que afetou o Rio de Janeiro no início do século XX é mencionada nos versos pré-carnavalescos
de 1919 como aquela que

A) suscitou o motim de pessoas da periferia.
B) causou a destruição de praias da cidade.
C) motivou a revolta de moradores do centro.
D) provocou o passamento de habitantes da capital.
E) ocasionou o isolamento de residentes do subúrbio

✍ Resolução Em Texto

Matérias Necessárias para a Solução da Questão:

  • História do Brasil: A Gripe Espanhola de 1918 e seus impactos sociais.
  • Interpretação de Texto: Leitura de poema/canção carnavalesca.
  • Contexto Cultural: O Carnaval de 1919 como uma reação catártica à morte.

Tema/Objetivo Geral:
Identificar a referência histórica à epidemia de Gripe Espanhola em uma marcha de carnaval, compreendendo que a celebração de 1919 foi uma explosão de vida (“toca a rir”) em resposta à morte em massa (“quem dela pôde escapar”) que havia assolado a capital.

Nível da Questão: Médio.

  • Justificativa: A questão exige que o aluno infira o contexto de morte (“passamento”) a partir da frase “quem dela pôde escapar”. O termo “passamento” é um sinônimo culto para “falecimento”. A dificuldade está em conectar a alegria do texto com a tragédia implícita que a precedeu.

Gabarito: D.

  • Resumo: O poema começa com uma premissa sombria: “Quem não morreu na Espanhola, quem dela pôde escapar…”. Isso indica que muitos não escaparam, ou seja, morreram. A pandemia é lembrada como aquela que provocou o passamento (morte) de muitos habitantes, e o carnaval surge como uma celebração da sobrevivência.

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Função Pedagógica: Identificar o rastro da tragédia na festa.

Decodificação do Objetivo: A questão pergunta: “O que a gripe fez com o Rio de Janeiro, segundo o poema?”. Ela fez o povo brigar? Destruiu casas? Ou matou muita gente?

Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine uma festa de sobreviventes de um naufrágio.

Eles cantam: “Quem não se afogou, vamos beber e dançar!”.

O que o naufrágio fez? Matou os outros.

A música do carnaval de 1919 é o canto dos sobreviventes da Gripe Espanhola.

Nosso Plano de Ataque será o seguinte:

  • Ler o verso inicial (que está implícito no enunciado, mas é clássico): “Quem não morreu na Espanhola”.
  • Analisar a frase: “quem dela pôde escapar”.
  • Concluir que, se uns escaparam, outros morreram (passamento).

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para entender essa questão, precisamos ler o que não está escrito explicitamente, mas está subentendido. Vamos interrogar o texto.

🕵️‍♂️ Mentor (Detetive): Vamos analisar o primeiro verso: “quem dela pôde escapar”. De quem o poeta está falando?
🧠 Aluno (Cérebro): Da “Espanhola”, a gripe.
🕵️‍♂️ Mentor: Certo. Se o poeta destaca quem escapou, o que aconteceu com quem não escapou?
🧠 Aluno: Morreu.
🕵️‍♂️ Mentor: Exatamente. A pandemia foi letal. Agora, olhe para as alternativas. Qual delas é um sinônimo culto para “morte”?
🧠 Aluno: A alternativa D fala em “passamento”.
🕵️‍♂️ Mentor: BINGO! “Passamento” vem de “passar dessa para a melhor”. É a morte.
🧠 Aluno: Mas o resto do poema é feliz! Fala de rir e brincar.
🕵️‍♂️ Mentor: Sim! Essa é a chave histórica. O Carnaval de 1919 foi a celebração dos sobreviventes. Eles brincavam porque escaparam do passamento. A alegria é a resposta ao trauma.

Conceito Chave: Catarse Coletiva
Na psicologia social, uma catarse é uma liberação forte de emoções reprimidas. O Rio de Janeiro viveu o medo da morte em 1918 e, quando a gripe passou, a cidade “explodiu” em vida no Carnaval de 1919 para purgar esse medo.


3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Vamos analisar o texto:

  • “quem dela pôde escapar”: Isso pressupõe que houve um perigo mortal. Quem escapou, sobreviveu.
  • “não dê mais tratos à bola”: Expressão antiga para “não se preocupe mais”.
  • “toca a rir, toca a brincar”: A ordem é esquecer a dor.

Síntese:
A pandemia não causou motim (A), nem destruiu praias (B). Ela causou mortes. O poema celebra os vivos, mas reconhece implicitamente os mortos (“quem escapou”). A alternativa que traduz “morte” é a (D).

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
A alternativa (E) (“ocasionou o isolamento de residentes”) é um distrator moderno.

  • Por que seduz? Porque vivemos a pandemia de COVID-19, onde o isolamento foi a regra.
  • Por que está errada? Embora tenha havido recomendações de isolamento em 1918, o poema não fala sobre isso. Ele fala sobre a festa após a gripe. Além disso, o impacto mais marcante da Espanhola no imaginário carioca foi a mortalidade fulminante (enterros em massa), não apenas o isolamento. A palavra “passamento” na alternativa D é mais precisa historicamente e textualmente (“quem não morreu”).

A Bússola (O Perfil do Culpado):

  • Síntese do raciocínio: O poema é um hino à vida cantado por quem escapou da morte. Logo, a pandemia é caracterizada pela sua letalidade.
  • Expectativa: A alternativa correta deve falar sobre morte, falecimento, óbito ou passamento.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

  • A) suscitou o motim de pessoas da periferia.
    • Diagnóstico do Erro: Invenção Histórica (Revolta da Vacina).
    • Narrativa do Erro: O aluno pode confundir com a Revolta da Vacina (1904), que teve motins. A Gripe Espanhola (1918) gerou medo e críticas ao governo, mas não motins armados da periferia descritos no poema.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • B) causou a destruição de praias da cidade.
    • Diagnóstico do Erro: Absurdo.
    • Narrativa do Erro: Vírus não destrói areia ou mar. Não há relação lógica.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • C) motivou a revolta de moradores do centro.
    • Diagnóstico do Erro: Confusão Histórica.
    • Narrativa do Erro: Assim como na (A), pode haver confusão com a Revolta da Vacina (que ocorreu no centro). O poema fala de festa (“alegrias à ufa”), não de revolta política.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • D) provocou o passamento de habitantes da capital.
    • Análise de Correspondência: Perfeito. “Passamento” é eufemismo para morte. O verso “quem dela pôde escapar” implica que muitos não escaparam (morreram). A Espanhola matou cerca de 15 mil pessoas só no Rio. O poema é a celebração de quem não teve esse passamento.
    • Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
  • E) ocasionou o isolamento de residentes do subúrbio.
    • Diagnóstico do Erro: Anacronismo (Olhar de 2020).
    • Narrativa do Erro: O poema não menciona isolamento social ou quarentena. Ele menciona a libertação desse medo (“vai o prazer aos confins”). O foco é a mortalidade, não a medida sanitária.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Frase de Fechamento:
O carnaval mais louco da história foi um baile sobre túmulos: a marchinha de 1919 lembra que a Gripe Espanhola provocou o passamento (Alternativa D) de milhares de cariocas, transformando a folia seguinte em uma explosão de vida desesperada para esquecer a morte.

Resumo-flash (A Imagem Mental):
A morte passou, o bloco passou. Quem ficou, pulou.

🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
O escritor Ruy Castro (autor do livro citado na questão) descreve o Carnaval de 1919 como “A desforra”. Foi quando o Rio “perdeu a vergonha”. A tragédia coletiva muitas vezes é seguida por um período de liberação de costumes, como os “Anos Loucos” (década de 1920) após a 1ª Guerra Mundial e a Gripe.