O retrato como gênero da pintura ocidental ficou vinculado às elites, tornando invisíveis as populações que não faziam parte do círculo dominante. Num país de tradição escravocrata e colonizado por europeus como o Brasil, pouquíssimas pessoas negras e indígenas foram retratadas em pintura, e menos ainda identificadas com seus nomes nos retratos. Daí a importância, para a história da arte e para a história brasileira, dos retratos de Dalton Paula.
Figura 1
PAULA, D. Zeferina.
Óleo sobre tela, 59 × 44 cm.
Masp, São Paulo, 2018.
Figura 2
PAULA, D. João de Deus Nascimento.
Óleo sobre tela, 59,5 × 44 cm.
Masp, São Paulo, 2018.
Disponível em: www.masp.org.br. Acesso em: 5 maio 2024 (adaptado).
Ao dar protagonismo a Zeferina e a João de Deus Nascimento, o artista Dalton Paula evidencia que a(s)
A) arte pode promover formas de afirmação de identidade social.
B) comunidades periféricas passam a adquirir o gênero retrato.
C) personagens retratadas simbolizam a sociedade brasileira.
D) pintura funciona como instrumento de ascensão social.
E) imagens tradicionais preservam memórias afetivas.
- Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
- Interpretação de Texto e Imagem (Linguagem Mista)
- História da Arte no Brasil (Gênero Retrato)
- Relações Étnico-Raciais e Representatividade
- Tema/Objetivo Geral: Compreender a função social e política da arte como ferramenta de reparação histórica e afirmação identitária.
- Nível da Questão: Médio.
- Detalhe: A questão exige que o leitor conecte diretamente a denúncia feita no texto-base (a invisibilidade de pessoas negras na história da arte) com a ação do artista (pintar e nomear essas pessoas). A complexidade está em entender o ato de pintar não como um gesto estético, mas como um ato político de afirmação.
- Gabarito: Letra A (arte pode promover formas de afirmação de identidade social).
- Explicação Resumida: Esta alternativa está correta porque o texto denuncia um apagamento histórico, e a ação do artista (pintar e dar nome a figuras negras) funciona como um contraponto direto a esse apagamento, usando a arte para dar visibilidade e afirmar a identidade dessas pessoas na sociedade.
PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
- Decodificação do Objetivo: A questão nos pergunta: “Ao escolher pintar Zeferina e João de Deus Nascimento, o que o artista Dalton Paula está querendo nos mostrar? Qual é a ‘mensagem’ ou a ‘prova’ que ele está apresentando com sua arte?”.
- Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine que a História do Brasil é um álbum de fotografias de família. Por séculos, esse álbum só continha fotos dos membros ricos e brancos da família, enquanto os membros negros, que também construíram a casa, foram deixados de fora, como se não existissem. O verdadeiro desafio aqui é entender que Dalton Paula está agindo como um detetive e historiador que encontrou retratos perdidos, os restaurou em cores vivas e os está colando de volta no álbum da família brasileira, dizendo: ‘Eles também pertencem a esta história’.
- Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação):
- Diagnosticar o “Crime”: Vamos primeiro entender qual é o problema histórico que o texto de apoio denuncia.
- Analisar a Ação do Artista: Veremos qual é a atitude que Dalton Paula toma em resposta a esse problema.
- Conectar Crime e Reparação: Juntaremos a denúncia do texto com a obra do artista para entender a intenção.
- Construir o Retrato Falado: Com base nessa conexão, definiremos o que a alternativa correta precisa afirmar sobre o poder da arte.
PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
A lógica da questão se baseia em um problema e sua solução. A melhor ferramenta para visualizar essa dinâmica é uma Tabela de Problema-Solução.
| 🏛️ O Problema Histórico (Denunciado no Texto) | 🎨 A Solução Artística (Ação de Dalton Paula) |
| O gênero do retrato foi historicamente vinculado às elites. | Dalton Paula retrata figuras populares e negras. |
| Populações negras e indígenas foram tornadas invisíveis. | Ele dá visibilidade a essas populações, colocando-as em primeiro plano, como protagonistas. |
| Pouquíssimas pessoas negras foram retratadas. | Ele aumenta essa representação, criando novos retratos. |
| Frequentemente, não eram identificadas com seus nomes. | Ele nomeia suas obras explicitamente: “Zeferina”, “João de Deus Nascimento”, conferindo individualidade e história. |
| Resultado do Problema: Apagamento, negação da identidade. | Resultado da Solução: Visibilidade, resgate, afirmação da identidade social. |
A tabela demonstra que a obra de Dalton Paula não é apenas uma pintura, mas uma resposta direta e cirúrgica a um problema histórico.
PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
Agora, vamos aplicar nossa análise à questão.
- Execução Sequencial:
- O “Crime”: O texto de apoio é a nossa denúncia. Ele afirma que a pintura de retratos no Brasil excluiu sistematicamente as populações não-brancas, tornando-as “invisíveis” e, quando muito, anônimas. Isso é um ato de apagamento da identidade social.
- A Reparação: A ação de Dalton Paula é o oposto. Ele escolhe figuras negras, as coloca na posição de destaque tradicionalmente reservada às elites (o retrato formal) e, crucialmente, as nomeia. O ato de nomear (“Zeferina”, “João de Deus Nascimento”) é um ato de restauração da individualidade e da importância histórica.
- A Conexão Lógica: Se o problema foi o apagamento da identidade, a solução que o artista oferece é a afirmação dessa identidade. Ele usa a arte como uma ferramenta para corrigir o registro histórico.
- 🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! A armadilha aqui é pensar na função da arte de uma forma muito genérica ou romantizada. Por exemplo, a alternativa D (“pintura funciona como instrumento de ascensão social”) é uma armadilha porque confunde o efeito coletivo com o individual. A pintura não torna Zeferina (que já morreu) mais rica; ela eleva o status de sua memória e de seu grupo na história. A ascensão não é econômica para o indivíduo, mas simbólica para a comunidade. - A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: Ao usar uma forma de arte historicamente elitista (o retrato) para dar visibilidade e identidade a figuras negras que foram apagadas da história, Dalton Paula demonstra o poder da arte como uma ferramenta de reparação e afirmação identitária.
- Expectativa: A alternativa correta deve, obrigatoriamente, conectar a arte a um processo de afirmação de identidade de um grupo social.
PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
Vamos confrontar nossa “Expectativa” com os suspeitos.
- A) arte pode promover formas de afirmação de identidade social.
- Análise de Correspondência: Esta alternativa é um espelho perfeito da nossa “Bússola”. A ação do artista (pintar os retratos) promove a “afirmação de identidade social” do povo negro, que foi historicamente invisibilizado.
- Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
- B) comunidades periféricas passam a adquirir o gênero retrato.
- A “Narrativa do Erro”: O leitor pensa que, se as pessoas estão sendo pintadas, é porque agora elas podem comprar esse tipo de arte.
- O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. O texto não fala sobre o mercado de arte ou o poder de compra de comunidades. O foco é na produção do artista e seu significado, não no consumo.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
- C) personagens retratadas simbolizam a sociedade brasileira.
- A “Narrativa do Erro”: O leitor pensa que, por serem brasileiros, eles representam o todo.
- O “Diagnóstico do Erro”: Generalização Excessiva. Eles simbolizam uma parte da sociedade brasileira que foi deliberadamente excluída da representação. O objetivo do artista não é dizer que “todos são como eles”, mas sim que “eles também fazem parte do todo”.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
- D) pintura funciona como instrumento de ascensão social.
- A “Narrativa do Erro”: O leitor interpreta a importância dada aos retratados como uma forma de ascensão.
- O “Diagnóstico do Erro”: Erro Conceitual. A ascensão é simbólica e histórica, não uma ascensão social (econômica/de classe) para os indivíduos retratados, que são figuras históricas.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
- E) imagens tradicionais preservam memórias afetivas.
- A “Narrativa do Erro”: O leitor associa “retrato” a “memória” e “afeto”, como um porta-retrato de família.
- O “Diagnóstico do Erro”: Reducionismo. A função desses retratos transcende o afeto pessoal. Eles têm uma forte carga política e histórica de reparação, algo muito maior que a simples memória afetiva.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
- Frase de Fechamento: Portanto, a alternativa A é a correta. Dalton Paula evidencia que a arte não é apenas um espelho da realidade, mas uma ferramenta poderosa que pode reescrever a história, desafiar narrativas dominantes e promover a afirmação da identidade social de grupos historicamente marginalizados.
- Resumo-flash (A Imagem Mental): Se a história oficial é uma foto em preto e branco, a arte pode pegar o pincel e colorir quem foi deixado no escuro.
- Para ir Além (A Ponte para o Futuro): O mesmo princípio de usar um meio de comunicação para afirmar uma identidade marginalizada é a base do Cinema Novo no Brasil e do Neorrealismo Italiano no pós-guerra. Cineastas como Glauber Rocha ou Vittorio De Sica cansaram de ver as telas de cinema dominadas por elites e histórias glamourosas. Eles pegaram suas câmeras e foram para as favelas e para as ruas bombardeadas, dando protagonismo a pessoas comuns, “invisíveis”. Assim como Dalton Paula faz com o retrato, eles usaram o cinema para afirmar a identidade social dos esquecidos.
