Símbolos
Eu e tu, ante a noite e o amplo desdobramento do mar, fero, a estourar de encontro à rocha nua… Um símbolo descubro aqui, neste momento esta rocha, este mar… a minha vida e a tua.
O mar vem, o mar vai, nele há o gesto violento de quem maltrata e, após, se arrepende e recua. Como compreendo bem da rocha o sentimento! São muito iguais, por certo, a minha mágoa e a sua.
Contemplo neste quadro a nossa triste vida; tu és dúbio mar que, na sua inconsciência, tem carinhos de amor e fúrias de demência!
Eu sou a dor estanque, a dor empedernida, sou rocha a emergir de um côncavo de areia, imóvel, muda, isenta e alheia ao mar, alheia.
MACHADO, G. Poesia completa. Rio de Janeiro: Cátedra/MEC, 1978.
Nesse soneto, os traços da estética simbolista são resgatados pelo eu lírico ao
A) rejeitar as emoções de “amor” e “mágoa”.
B) expressar a dubiedade do olhar sobre o outro.
C) representar o “eu” e o “tu” como sujeitos volúveis.
D) associar a sua inconsciência a elementos da natureza.
E) metaforizar o conflito amoroso nas imagens de “mar” e “rocha”.
Resolução Em Texto
Matérias Necessárias para a Solução da Questão
- Interpretação de Texto Poético
- Figuras de Linguagem (principalmente Metáfora e Analogia)
- Características do Simbolismo (escola literária)
Tema/Objetivo Geral: Identificar como as características de uma escola literária (Simbolismo) se manifestam na construção de um poema.
Nível da Questão
Médio. – A questão é de nível médio porque não exige apenas a compreensão literal do poema. Ela demanda que o candidato realize duas conexões importantes: primeiro, entender a grande metáfora que estrutura o texto (a relação amorosa representada pelo mar e pela rocha) e, segundo, reconhecer essa técnica como uma característica central do Simbolismo, um movimento que valoriza a sugestão e o uso de símbolos para expressar emoções e ideias abstratas.
Gabarito
Letra E – A alternativa está correta porque resume perfeitamente a estratégia do eu lírico: ele usa as imagens da natureza – o “mar” violento e a “rocha” imóvel – como uma grande metáfora para representar o conflito da sua relação amorosa.
PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
Decodificação do Objetivo: A questão nos pede para identificar qual alternativa descreve a técnica principal que o eu lírico usa no poema para expressar seus sentimentos, e como essa técnica se conecta à estética do Simbolismo.
Simplificação Radical (A Analogia Central): Pense neste poema como um “código secreto”. O eu lírico não diz diretamente “nosso amor é um conflito doloroso”. Em vez disso, ele nos entrega duas senhas: “mar” e “rocha”. Nossa missão é decifrar o que essas senhas significam e, mais importante, entender que usar senhas (símbolos) para falar de sentimentos é a marca registrada do Simbolismo. O verdadeiro desafio aqui é conectar a imagem ao sentimento.
Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação):
- Reconhecer a Missão: Entender o que o Simbolismo valoriza.
- Identificar os Agentes: Analisar quem é o “mar” e quem é a “rocha” no poema.
- Mapear a Ação: Descrever a relação de conflito entre o mar e a rocha.
- Conectar os Pontos: Unir a relação “mar vs. rocha” com a relação “eu vs. tu”.
- Construir o Retrato Falado: Definir o que a alternativa correta precisa afirmar sobre essa conexão.
PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Para decifrar este caso, precisamos de dois dossiês investigativos: um sobre o movimento Simbolista e outro sobre os símbolos centrais do poema.
Dossiê : O Simbolismo
- Foco: Subjetividade, o “eu” interior, o mundo dos sonhos e do inconsciente.
- Método: Sugestão em vez de descrição. O poeta não afirma, ele evoca.
- Arma Principal: O Símbolo. Usar elementos concretos (uma flor, uma cor, um objeto) para representar ideias abstratas e emoções complexas (amor, morte, angústia).
- Não Gosta de: Objetividade, clareza excessiva, descrições realistas. Prefere o vago, o nebuloso, a musicalidade.
Dossiê : Os Símbolos do Poema (“Mar” e “Rocha”)
Vamos organizar as pistas em uma tabela para ver o padrão claramente:
| Símbolo (Elemento da Natureza) | Representa Quem? | Características no Poema | Sentimento/Ideia Abstrata |
| O Mar | O “tu” (a pessoa amada) | Violento, recua, dúbio, inconsciente, com “carinhos de amor e fúrias de demência”. | Inconstância, paixão volúvel, imprevisibilidade, agressividade e ternura. |
| A Rocha | O “eu” (o eu lírico) | Nua, sentimento de mágoa, dor estanque, empedernida, imóvel, muda, alheia. | Sofrimento constante, passividade, dor silenciosa e imutável, resiliência forçada. |
A interação entre eles — o mar que “estoura de encontro à rocha nua” — é a representação simbólica da relação amorosa.
PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
Seguindo nosso plano, vamos executar a análise.
- A Missão Simbolista: O poema não é sobre uma paisagem. Desde a primeira estrofe, o eu lírico avisa: “Um símbolo descubro aqui… a minha vida e a tua”. Ele está usando a cena para falar de algo mais profundo.
- Identificação dos Agentes:
- O “tu” é o mar: “tu és dúbio mar que… tem carinhos de amor e fúrias de demência!”.
- O “eu” é a rocha: “Eu sou a dor estanque… sou rocha”.
- A Ação (O Conflito): O mar “vem” e “vai”, com um “gesto violento”, maltratando a rocha. A rocha, por sua vez, é “imóvel, muda, isenta e alheia”, recebendo o impacto de forma passiva e dolorosa.
- A Conexão: A dinâmica da natureza espelha a dinâmica do relacionamento. O “tu” é inconstante e agressivo, alternando entre carinho e fúria. O “eu” é passivo e sofre de forma constante e silenciosa. É a descrição de um relacionamento conflituoso e doloroso.
🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! O erro mais comum aqui é ler o poema de forma literal, como se fosse apenas sobre um passeio na praia. A armadilha é focar nas palavras “amor” e “mágoa” isoladamente, sem perceber que a força do poema está na imagem que ele constrói para simbolizar esses sentimentos. A chave não está nos sentimentos em si, mas na forma como eles são representados.
A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: O eu lírico utiliza elementos da natureza (mar e rocha) como metáforas para representar os dois polos de uma relação amorosa conflituosa: a inconstância agressiva do “tu” e a dor passiva do “eu”.
- Expectativa: A alternativa correta deve, obrigatoriamente, mencionar a criação de uma metáfora ou símbolo que usa imagens da natureza (mar/rocha) para expressar o conflito amoroso.
PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
Vamos agora confrontar nosso “retrato falado” com os suspeitos (as alternativas).
A) rejeitar as emoções de “amor” e “mágoa”.
- A “Narrativa do Erro”: O leitor vê a palavra “alheia” no final e pensa que o eu lírico está se distanciando de tudo.
- O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Direta. O poema é uma imersão profunda nessas emoções. Ele não as rejeita, ele as disseca e as representa simbolicamente. A mágoa é central (“a minha mágoa e a sua”).
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
B) expressar a dubiedade do olhar sobre o outro.
- A “Narrativa do Erro”: O aluno foca na frase “tu és dúbio mar” e generaliza a “dubiedade” para o olhar do eu lírico.
- O “Diagnóstico do Erro”: Reducionismo / Erro de Atribuição. Quem é descrito como “dúbio” é o “tu” (o mar), não o olhar do eu lírico. O olhar do poeta é, na verdade, bem decidido e claro sobre a natureza conflituosa da relação.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
C) representar o “eu” e o “tu” como sujeitos volúveis.
- A “Narrativa do Erro”: O leitor percebe a inconstância do mar (“vem” e “vai”) e assume que ambos os sujeitos são assim.
- O “Diagnóstico do Erro”: Generalização Excessiva. Apenas o “tu” (o mar) é volúvel. O “eu” (a rocha) é o exato oposto: “estanque”, “empedernida”, “imóvel”. A essência do conflito está justamente nesse contraste.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
D) associar a sua inconsciência a elementos da natureza.
- A “Narrativa do Erro”: O leitor lê “na sua inconsciência” e atribui ao sujeito da frase, o eu lírico.
- O “Diagnóstico do Erro”: Erro de Atribuição. O texto é claro: “tu és dúbio mar que, na sua inconsciência…”. A inconsciência pertence ao mar (o “tu”), não ao eu lírico (o “eu”).
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
E) metaforizar o conflito amoroso nas imagens de “mar” e “rocha”.
- Análise de Correspondência: Esta alternativa é um encaixe perfeito com a nossa “Expectativa”. Ela menciona o processo (“metaforizar”), o tema (“o conflito amoroso”) e os elementos usados (“imagens de ‘mar’ e ‘rocha’”). Ela descreve com precisão a estratégia central do poema.
- Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
Frase de Fechamento: A resposta correta é a letra E, pois o brilhantismo do poema reside em sua capacidade de traduzir a complexidade de um conflito amoroso em uma imagem poderosa e universal: a luta incessante entre o mar e a rocha, uma assinatura clássica da estética simbolista.
Resumo-flash (A Imagem Mental): Neste poema, o coração não fala, a natureza encena: o amor é um oceano de fúria e carinho quebrando contra um rochedo de dor silenciosa.
Para ir Além (A Ponte para o Futuro): O mesmo princípio de usar um sistema concreto para simbolizar uma realidade abstrata e invisível é a base da Física de Partículas. Quando os físicos falam do “sabor” (up, down, strange) ou da “cor” (red, green, blue) de um quark, eles não estão dizendo que a partícula tem gosto ou cor literal. Eles criaram um sistema de metáforas, um “dicionário” de símbolos, para descrever as propriedades e interações abstratas de um mundo que não podemos ver. Assim como a poeta usa “mar” e “rocha” para falar de amor, o físico usa “cor” e “sabor” para falar da estrutura fundamental da matéria. A necessidade de simbolizar o invisível conecta a arte e a ciência.
