Antes do inverno chegar.
Ela tinha olhinhos brilhantes. Os mesmos de antes. Antes da fome. Antes das 17 mudanças de cidade. Dos sete filhos e dos muitos anos de trabalho dentro e fora de casa.
Ela fazia ambrosia, bolo de fubá e pedacinhos de queijo. Antes do inverno, ela plantava flores novas e diferentes para nos esperar nas próximas férias de verão.
Ela tinha o jeito de menina. Menina sapeca, correndo na grama seca do cerrado. O mesmo jeito de antes. Antes do marido (e mesmo com o marido). Antes do cansaço dos anos. Antes da dureza do trato com a terra.
Ela tinha histórias. Compridas, curtas, divertidas e verdadeiras. Mas isso foi antes. Antes das lembranças se bagunçarem feito bolas coloridas de Natal esperando para serem montadas na árvore.
Eu era sua neta. Antes do Alzheimer chegar, eu era sua neta. Mas ela é e sempre será minha avó.
PERSON, C. R. Borboletas no estômago: porque às vezes o título precisa ser adolescente e clichê, já que a vida exige sermos tão adultos. São Paulo: Ed. das Autoras, 2021.
A narradora, ao resgatar memórias da história de vida da avó, faz uso recorrente da locução “antes de”. Esse termo colabora para a progressão temática na medida em que
A) relaciona eventos ocorridos simultaneamente.
B) estabelece uma comparação entre as lembranças.
C) ressalta fatos que ressignificam o momento presente.
D) sinaliza uma sequência que denota ações consecutivas.
E) apresenta uma explicação para as memórias resgatadas.
Resolução Em Texto
- Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
- Interpretação de Texto
- Coesão e Coerência Textual
- Funções de Conectivos e Locuções Adverbiais
- Tema/Objetivo Geral: Análise da progressão temática a partir do uso recorrente de uma locução adverbial temporal.
- Nível da Questão:
- Médio. A questão não exige um conhecimento técnico profundo, mas sim uma leitura atenta e sensível. A dificuldade está em diferenciar as alternativas que descrevem funções textuais próximas (como “comparação”, “sequência” e “ressignificação”), exigindo que o candidato identifique a função principal e mais completa do recurso no contexto do texto.
- Gabarito:
- C) ressalta fatos que ressignificam o momento presente.
- Esta alternativa está correta porque a repetição de “antes de” não serve apenas para listar eventos, mas para construir um passado vibrante que, em contraste, dá um novo e mais profundo significado de perda e amor ao presente da narradora.
1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
Decodificação do Objetivo: A questão nos pergunta, em bom português: “Para que serve a repetição da expressão ‘antes de’ no texto? Como essa repetição ajuda a contar a história e a construir o sentimento que a narradora quer passar?”.
Simplificação Radical (A Analogia Central): Pense no texto como um álbum de fotografias antigo. A narradora nos mostra várias fotos felizes e cheias de vida de sua avó (com olhinhos brilhantes, plantando flores, contando histórias). A cada foto, ela sussurra: “Isso foi antes…”. O verdadeiro desafio aqui é entender o propósito desse sussurro repetido. Ele está apenas organizando as fotos em ordem, ou está tentando nos dizer algo muito mais profundo sobre a foto que não está no álbum: a foto do agora?
Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação): Nosso plano será o seguinte:
- Identificar os dois mundos: Vamos listar o que existia no mundo do “antes” e o que está implícito no mundo do “depois”.
- Analisar a fronteira: Vamos entender o que a expressão “antes de” faz ao criar essa fronteira nítida entre os dois mundos.
- Determinar o propósito: Vamos concluir qual é o efeito emocional e temático criado por essa separação.
2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Para este caso, a melhor ferramenta é uma Tabela Comparativa. Ela nos permitirá visualizar o contraste que a narradora constrói, que é a chave para o enigma.
Tabela Comparativa: Os Dois Mundos da Avó
| O Mundo do “Antes de…” (Lembrança Vibrante) | O Mundo Implícito do “Depois” (Presente Doloroso) |
| Olhinhos brilhantes | A fome, as mudanças, o cansaço |
| Plantava flores, fazia ambrosia | O inverno que chegou |
| Jeito de menina sapeca | A dureza do trato com a terra |
| Histórias verdadeiras e divertidas | Lembranças bagunçadas, confusas |
| Eu era sua neta (reconhecimento) | O Alzheimer chegou |
Esta tabela revela que a locução “antes de” não é só um marcador de tempo; é um martelo que crava uma estaca, separando um passado luminoso de um presente de perda.
3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
Seguindo nosso plano, vamos analisar a função da fronteira criada pela expressão.
- A cada parágrafo, a narradora evoca uma memória positiva e vibrante da avó: os olhos, as habilidades culinárias, o jeito de menina, a capacidade de contar histórias.
- Imediatamente após, ela usa “antes de” para introduzir o evento que marcou o fim daquela característica: “Antes da fome”, “Antes do cansaço”, “Antes das lembranças se bagunçarem”, e o golpe final, “Antes do Alzheimer chegar”.
- O efeito é poderoso. O texto não é sobre o passado, mas sobre o presente. O presente só se torna compreensível e comovente porque temos a dimensão exata do que foi perdido. O Alzheimer não é apenas uma doença; ele apagou a “menina sapeca”, a contadora de histórias, a mulher dos “olhinhos brilhantes”.
🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! A armadilha mais sedutora aqui é a alternativa (D), que fala em “sequência”. O erro é pensar de forma literal: “Ora, ‘antes de’ indica tempo, logo, indica uma sequência de eventos.” Embora isso seja gramaticalmente verdade, é uma interpretação superficial. A função da expressão no texto não é meramente organizar uma linha do tempo, como faria um historiador. A função é emocional e temática: usar o passado para intensificar a percepção do presente.
- A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: A repetição da locução “antes de” constrói uma oposição sistemática entre um passado idealizado e um presente marcado pela perda, fazendo com que o leitor entenda a profundidade da situação atual através do contraste com o que já foi.
- Expectativa: A alternativa correta deve capturar essa ideia de que o passado não é apenas lembrado, mas usado como uma ferramenta para dar um novo e mais profundo significado (ou seja, ressignificar) a dor e o amor do presente.
4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
Vamos agora confrontar nossa “Expectativa” com as alternativas.
- Análise da Alternativa (A) relaciona eventos ocorridos simultaneamente:
- A “Narrativa do Erro”: Uma leitura desatenta do conectivo.
- O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Direta. A locução “antes de” expressa anterioridade, o exato oposto de simultaneidade.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
- Análise da Alternativa (B) estabelece uma comparação entre as lembranças:
- A “Narrativa do Erro”: O aluno percebe que há uma comparação no texto.
- O “Diagnóstico do Erro”: Reducionismo (Descrever a parte, não o todo). Sim, há uma comparação, mas não é entre uma lembrança e outra. É entre o conjunto de lembranças do passado e a realidade do presente. Além disso, a comparação é o meio, não o fim. O fim é o que essa comparação causa: a ressignificação do presente.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
- Análise da Alternativa (C) ressalta fatos que ressignificam o momento presente:
- Análise de Correspondência: Esta alternativa se encaixa perfeitamente na nossa “Expectativa”. Ao descrever quem a avó era “antes”, a narradora dá um novo significado (ressignifica) à avó do “depois”. A dor da perda e a força do amor (“ela é e sempre será minha avó”) ganham uma dimensão muito maior.
- Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
- Análise da Alternativa (D) sinaliza uma sequência que denota ações consecutivas:
- A “Narrativa do Erro”: Conforme nossa “Armadilha Clássica”, o aluno faz uma leitura literal e gramatical da locução temporal.
- O “Diagnóstico do Erro”: Descrever o Meio, não o Fim. A expressão cria uma sequência, mas essa é apenas a estrutura, a ferramenta. O propósito temático dessa estrutura é o que a alternativa (C) descreve. Esta opção foca na forma, não na função.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
- Análise da Alternativa (E) apresenta uma explicação para as memórias resgatadas:
- A “Narrativa do Erro”: O aluno pode pensar que a narradora está explicando por que se lembra dessas coisas.
- O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. A locução “antes de” não explica por que as memórias são resgatadas; ela as situa no tempo, antes dos eventos trágicos, para criar um contraste.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
Frase de Fechamento: Confirmamos que a alternativa (C) é a correta, pois o uso magistral da locução “antes de” transforma o texto de um mero diário de lembranças em uma profunda meditação sobre como o passado ilumina e ressignifica a dor e a identidade no presente.
Resumo-flash (A Imagem Mental): O “antes” não é uma despedida do passado, mas um holofote que revela toda a profundidade do presente.
🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro): O mesmo princípio de usar um estado anterior para dar significado ao estado atual é fundamental na Medicina. Ao diagnosticar um paciente, um médico precisa saber o seu “estado basal” ou “baseline”. Para entender a gravidade de um sintoma (como febre ou perda de peso), o médico precisa compará-lo com o estado normal da pessoa antes da doença. O prontuário médico é, em essência, um registro do “antes” para que se possa interpretar e tratar o “depois”. Assim como a neta, o médico “lê” o passado para dar sentido e tratar o presente.
