O meu medo é entrar na faculdade e tirar zero eu que nunca fui bom de matemática fraco no inglês eu que nunca gostei de química geografia e português o que é que eu faço agora hein mãe não sei. […]
O meu medo é a vida piorar e eu não conseguir arranjar emprego nem de faxineiro nem de porteiro nem de de pedreiro e o pessoal dizer que o governo já fez o que pôde já pôde o que que fez já deu a sua cota de participação hein mãe não sei.
O meu medo é que mesmo com diploma debaixo do braço andando por aí desiludido e desempregado o policial me olhe de cara feia e eu acabe fazendo uma burrice sei lá uma besteira será que eu vou ter direito a uma cela especial hein mãe não sei.
FREIRE, M. Contos negreiros. Rio de Janeiro: Record, 2005.
Nesse texto, a reiteração dos medos e das angústias do narrador exprime
A) inseguranças sobre o futuro familiar.
B) dilemas resultantes de seu fracasso escolar.
C) incertezas centradas em sua condição social.
D) hesitações em relação à sua formação profissional.
E) preocupações com as políticas públicas assistenciais.
Resolução Em Texto
Matérias Necessárias para a Solução da Questão
- Interpretação de Texto Narrativo
- Literatura e Crítica Social
- Análise de Voz Narrativa (Eu-lírico)
Tema/Objetivo Geral: Identificar a raiz comum de uma série de angústias expressas por um narrador-personagem.
Nível da Questão
Fácil. – O texto constrói uma progressão de medos muito clara e direta. A alternativa correta funciona como uma síntese que abarca todos os cenários descritos, enquanto as incorretas focam em apenas uma parte do problema, sendo facilmente identificadas como incompletas.
Gabarito
Letra C. – A alternativa está correta porque todos os medos do narrador — do fracasso escolar ao desemprego e à violência policial — derivam de sua percepção de vulnerabilidade e preconceito inerentes à sua posição na sociedade.
PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
Decodificação do Objetivo: A questão nos pede para encontrar o “tronco” da árvore de medos do narrador. Ele nos mostra vários galhos (medo da faculdade, medo do desemprego, medo da polícia), mas a questão quer saber qual é a raiz, a causa fundamental que alimenta todas essas angústias.
Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine os medos do narrador como uma série de dominós caindo em sequência. O primeiro dominó é o medo de falhar na faculdade. Ele derruba o segundo, o medo de não conseguir nem um subemprego. Este, por sua vez, derruba o último e mais assustador dominó: o medo da violência do Estado, mesmo sendo inocente e qualificado. Nossa missão não é descrever uma peça de dominó isolada, mas identificar a força que empurrou a primeira peça e que garante que todas as outras cairão: a sua vulnerável condição social.
Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação):
- Mapear os Medos: Listar, em ordem, cada um dos temores que o narrador expressa.
- Analisar a Progressão: Observar como os medos escalam, partindo do individual para o sistêmico.
- Identificar a Causa Raiz: Encontrar o elemento comum que conecta todos os medos.
- Construir o Retrato Falado: Definir o que a alternativa correta precisa afirmar sobre essa causa raiz.
PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Para entender a escalada da angústia, vamos usar um Fluxograma de Raciocínio (em Texto). Ele mostra como um medo leva ao outro, revelando a lógica por trás do desespero.
- Ponto de Partida: Medo do Fracasso Individual
- Cenário: “tirar zero”, “fraco no inglês”, “não gostei de química”.
- Análise: Angústia focada na capacidade pessoal e no ambiente acadêmico. ⬇️ Isso leva a…
- Estágio Intermediário: Medo do Fracasso Econômico
- Cenário: “não conseguir arranjar emprego nem de faxineiro”.Análise: A angústia se expande. Não é mais sobre notas, é sobre sobrevivência. Ele já se vê excluído até das posições mais básicas do mercado de trabalho. ⬇️ Isso leva ao…
- Clímax: Medo da Violência Sistêmica
- Cenário: “mesmo com diploma […] o policial me olhe de cara feia”.
- Análise: Este é o ponto-chave. O medo transcende o fracasso. Ele teme que, mesmo obtendo sucesso (o diploma), sua identidade social o torna um alvo. O problema não é o que ele faz, mas o que ele é.
O fluxo deixa claro: os medos saem da esfera pessoal e entram na esfera social e sistêmica.
PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
A progressão do texto é a chave.
No primeiro parágrafo, o medo é quase universal: a insegurança diante dos desafios da faculdade.
No segundo, o medo se torna mais social: a exclusão do mercado de trabalho, já com uma menção ao sistema (“o governo já fez o que pôde”).
No terceiro parágrafo, o golpe final. O narrador imagina o cenário de superação – ele conseguiu o diploma! – mas o medo mais profundo permanece. A figura do policial que o olha “de cara feia” simboliza um sistema que o julga não por suas conquistas, mas por sua aparência, por sua classe, por sua cor. É a prova de que o problema nunca foi apenas a matemática ou o inglês.
🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
O erro mais comum é pegar uma parte pelo todo. O leitor pode focar apenas no primeiro parágrafo e escolher a alternativa sobre “fracasso escolar” (B). Ou focar na menção ao governo e escolher a de “políticas públicas” (E). A armadilha é analisar um sintoma isolado, quando o texto apresenta um diagnóstico completo da doença. A pergunta é sobre a reiteração dos medos, o que nos obriga a encontrar o elo comum entre eles.
A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: A sequência de medos do narrador revela uma consciência de que as barreiras que ele enfrenta não são apenas pessoais ou acadêmicas, mas estruturais, ligadas à forma como a sociedade o enxerga e o trata.
- Expectativa: A alternativa correta deve apontar para essa vulnerabilidade estrutural, usando um termo amplo como “condição social”, que abrange os âmbitos educacional, profissional e de segurança pública.
PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
A) inseguranças sobre o futuro familiar.
- A “Narrativa do Erro”: O leitor nota que o narrador se dirige à mãe (“hein mãe não sei”).
- O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. A mãe é a interlocutora, o ponto de apoio, mas as angústias descritas são sobre a vida pública e profissional do narrador, não sobre a dinâmica ou o futuro de sua família.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
B) dilemas resultantes de seu fracasso escolar.
- A “Narrativa do Erro”: O leitor se fixa no primeiro parágrafo, que trata exclusivamente do medo da faculdade.
- O “Diagnóstico do Erro”: Reducionismo. Esta alternativa descreve apenas a primeira etapa do problema, ignorando a escalada para o desemprego e a violência policial, que são medos que persistem mesmo com o sucesso escolar (o diploma).
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
C) incertezas centradas em sua condição social.
- Análise de Correspondência: Encaixe perfeito com nossa “Expectativa”. “Condição social” é o termo exato que engloba as dificuldades na educação, no mercado de trabalho e na abordagem policial. É a causa raiz de todas as incertezas.
- Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
D) hesitações em relação à sua formação profissional.
- A “Narrativa do Erro”: O leitor conecta “faculdade” e “emprego” com a ideia de formação profissional.
- O “Diagnóstico do Erro”: Reducionismo. Similar à alternativa B, esta é apenas uma parte do problema. O medo mais profundo, o do policial, mostra que a angústia vai além da carreira e entra no campo da própria sobrevivência e cidadania.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
E) preocupações com as políticas públicas assistenciais.
- A “Narrativa do Erro”: O leitor foca no trecho “o governo já fez o que pôde”.
- O “Diagnóstico do Erro”: Reducionismo. A menção ao governo é um detalhe dentro de uma angústia maior sobre a exclusão econômica. Não é o tema central, especialmente porque o texto não discute políticas assistenciais, mas sim a falta de oportunidades e a violência.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
Frase de Fechamento: A resposta correta é a letra C, pois o texto constrói um retrato contundente de como a condição social de um indivíduo pode transformar cada etapa da vida — da sala de aula à procura por emprego e ao simples ato de andar na rua — em uma fonte de medo e incerteza.
Resumo-flash (A Imagem Mental): Para o narrador, o medo não é do fracasso pessoal, mas de um jogo social cujas regras parecem já tê-lo condenado antes mesmo de ele começar a jogar.
Para ir Além (A Ponte para o Futuro): O sentimento expresso pelo narrador é um exemplo literário de um conceito estudado pela Economia Comportamental chamado “desamparo aprendido”. Este fenômeno ocorre quando um indivíduo, exposto repetidamente a situações adversas e incontroláveis (como o preconceito sistêmico), começa a se comportar como se seus esforços fossem inúteis, mesmo quando oportunidades de sucesso (como o diploma) aparecem. A escalada de medos do narrador, que culmina na crença de que nem o diploma o salvará, reflete a internalização dessa impotência diante de um sistema que ele percebe como imutável e hostil. A literatura, aqui, dá voz a um complexo mecanismo psicológico e social.
