Questão 27, caderno azul do ENEM 2022 – LINGUAGENS


Disponível em: https://viva-porto.pt. Acesso em: 24 nov. 2021 (adaptado).

A articulação entre os elementos verbais e os não verbais do texto tem como propósito desencadear a

A) identificação de distinções entre mulheres e homens.
B) revisão de representações estereotipadas de gênero.
C) adoção de medidas preventivas de combate ao sexismo.
D) ratificação de comportamentos femininos e masculinos.
E) retomada de opiniões a respeito da diversidade dos papéis sociais.

Resolução Em Texto

Matérias Necessárias para a Solução da Questão:

  • Interpretação de Texto Multimodal: Relação entre verbal (texto) e não-verbal (imagem).
  • Sociologia: Estereótipos de gênero e construção social.

Tema/Objetivo Geral:
Analisar como a sobreposição gráfica (o risco sobre o texto) altera o sentido original de frases do senso comum, promovendo uma crítica aos papéis tradicionais de gênero.

Nível da Questão: Fácil.

  • Justificativa: A questão é visualmente intuitiva. O “risco” sobre as palavras “perigo constante” e “não” funciona como um sinal de negação universalmente compreendido. O aluno precisa apenas traduzir esse “risco” para o conceito de “revisão” ou “crítica”.

Gabarito: B.

  • Resumo: As imagens mostram frases machistas populares (“Mulher no volante…”, “Homem não chora”) sendo literalmente riscadas e reescritas. Esse recurso visual serve para negar o estereótipo antigo e propor uma nova visão (mulher tem estrada para andar; homem chora). Isso é uma revisão cultural.

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Função Pedagógica: Decifrar a intervenção gráfica.

Decodificação do Objetivo: A questão quer saber o efeito de sentido provocado pelo ato de riscar parte da frase original. O que significa pegar um ditado popular e passar um traço em cima dele?

Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine uma placa dizendo “Proibido Pisar na Grama”.

Alguém vai lá, risca o “Proibido” e escreve “Permitido”.

O que essa pessoa fez? Ela reviu a regra. Ela mudou o sentido original para o oposto.

Nosso Plano de Ataque será o seguinte:

  • Ler a frase original (o estereótipo).
  • Ler a frase modificada (a nova visão).
  • Concluir que o objetivo é destruir a velha visão e construir uma nova.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para entender a lógica por trás dessas imagens, vamos simular uma conversa investigativa sobre o elemento visual mais importante: o risco.

🕵️‍♂️ Mentor (Detetive): Olhe bem para as frases. Elas não estão limpas. O que há de estranho nelas?
🧠 Aluno (Cérebro): Tem um traço preto riscando algumas palavras, como “perigo constante” e “não”.
🕵️‍♂️ Mentor: Exato. E quando você está escrevendo uma redação e passa um traço em cima de uma palavra, o que você quer dizer com isso?
🧠 Aluno: Que eu errei. Que aquilo não deve ser lido ou considerado.
🕵️‍♂️ Mentor: Perfeito! A campanha usa esse “código escolar”. Ela apresenta o Estereótipo (a frase famosa) e passa um traço para dizer: “Isso está errado”.
🧠 Aluno: Entendi. E depois ela escreve a frase certa do lado?
🕵️‍♂️ Mentor: Isso mesmo. Ela corrige a visão antiga.

  • Onde diziam que mulher dirige mal ➔ Ela corrige: Mulher tem estrada.
  • Onde diziam que homem não chora ➔ Ela corrige: Homem chora (e põe até uma lágrima).

Conceito Chave: O Palimpsesto Cultural
Visualmente, a campanha cria uma sobreposição. Ela não esconde o preconceito antigo (ele ainda dá para ler), mas coloca a Revisão (a correção) por cima dele, mostrando que a sociedade está mudando de ideia.


3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Vamos analisar a intencionalidade da campanha:

  1. O Alvo: Frases feitas que ouvimos desde criança. São “verdades” que a sociedade repete sem pensar.
  2. A Ação: O risco funciona como uma censura ao preconceito. É como dizer “Isso está errado”.
  3. O Resultado: Ao corrigir a frase, a campanha propõe que mulheres podem ocupar espaços masculinos (estrada/carro) e homens podem ocupar espaços femininos (emoção/choro).

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
Cuidado com a alternativa (C) (“medidas preventivas de combate ao sexismo”).

  • O erro: É tentador marcar “combate ao sexismo”, pois a campanha faz isso. Mas a alternativa fala em “adoção de medidas preventivas”. Uma campanha publicitária é uma peça de comunicação, não uma medida preventiva (como uma lei ou uma vacina). Além disso, a alternativa (B) descreve exatamente o processo que ocorre na imagem (revisar a representação), sendo tecnicamente mais precisa sobre a articulação entre imagem e texto.

A Bússola (O Perfil do Culpado):

  • Síntese do raciocínio: A campanha pega velhos clichês de gênero e os corrige visualmente.
  • Expectativa: A alternativa correta deve conter verbos como “rever”, “questionar”, “desconstruir” ou “ressignificar” estereótipos.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

  • A) identificação de distinções entre mulheres e homens.
    • Diagnóstico do Erro: Oposto da Intenção.
    • Narrativa do Erro: A campanha quer diminuir as distinções rígidas (quer que a mulher dirija e o homem chore), não criar ou identificar distinções biológicas. Ela luta pela igualdade de direitos e emoções.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • B) revisão de representações estereotipadas de gênero.
    • Análise de Correspondência: Bingo!
      • “Representações estereotipadas”: As frases originais (“perigo constante”, “não choram”).
      • “Revisão”: O ato de riscar e corrigir, propondo um novo olhar.
    • Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
  • C) adoção de medidas preventivas de combate ao sexismo.
    • Diagnóstico do Erro: Imprecisão de Gênero Textual.
    • Narrativa do Erro: O texto é uma peça de conscientização/reflexão, não um manual de “medidas” (ações práticas ou leis). Além disso, “medidas preventivas” sugere evitar que algo aconteça, enquanto a campanha combate algo que já existe (o estereótipo).
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • D) ratificação de comportamentos femininos e masculinos.
    • Diagnóstico do Erro: Contradição de Vocabulário.
    • Narrativa do Erro: “Ratificar” significa confirmar, validar. A campanha faz o oposto: ela retifica (corrige) os comportamentos esperados. Ela nega que o homem não chore.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • E) retomada de opiniões a respeito da diversidade dos papéis sociais.
    • Diagnóstico do Erro: Vagueza.
    • Narrativa do Erro: Embora toque em papéis sociais, o foco não é a “diversidade” geral (múltiplos papéis), mas a desconstrução específica de preconceitos de gênero. “Retomada” sugere apenas trazer o assunto de volta, sem necessariamente criticá-lo ou mudá-lo, o que a campanha faz ativamente.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Frase de Fechamento:
Um simples traço sobre uma palavra pode mudar o mundo: ao riscar o preconceito, a campanha não apenas apaga o erro, mas reescreve a realidade, operando uma revisão crítica dos papéis que a sociedade impôs a homens e mulheres.

Resumo-flash (A Imagem Mental):
O risco preto é o “Corretivo Líquido” da sociedade. Apaga a mentira (estereótipo) para escrever a verdade (liberdade).

🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
Esta questão ilustra o conceito de Toxicidade Masculina (a ideia de que homem não pode mostrar fraqueza) e de Machismo Estrutural (a ideia de que mulher é incapaz no volante). Campanhas assim são vitais para a Saúde Mental masculina (permitir o choro) e para a Autonomia feminina (permitir a direção).


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