Pequenino morto
Tange o sino, tange, numa voz de choro,
Numa voz de choro… tão desconsolado…
No caixão dourado, como em berço de ouro,
Pequenino, levam-te dormindo… Acorda!
Olha que te levam para o mesmo lado
De onde o sino tange numa voz de choro…
Pequenino, acorda!
Que caminho triste, e que viagem! Alas
De ciprestes negros a gemer no vento;
Tanta boca aberta de famintas valas
A pedir que as fartem, a esperar que as encham…
Pequenino, acorda! Recupera o alento,
Foge da cobiça dessas fundas valas
A pedir que as encham.
CARVALHO, V. Poemas e canções. Rio de Janeiro: Saraiva, 1962 (fragmento).
Nesse fragmento do poema, o sentimento de luto adquire contornos expressivos e é intensificado pela
A) descrição da paisagem de um cemitério.
B) recusa do eu lírico à irreversibilidade da morte.
C) sonoridade dos versos produzida pela pontuação.
D) religiosidade evocada como forma de fortalecimento.
E) impressão de sonho na construção da estrutura poética.
Resolução Em Texto
Matérias Necessárias para a Solução da Questão
- Interpretação de Texto Poético
- Análise de Figuras de Linguagem (Apóstrofe, Personificação)
- Conceito de Eu Lírico
Tema/Objetivo Geral: Identificar o recurso expressivo que intensifica o sentimento de luto em um poema.
Nível da Questão
Médio. – A questão é de nível médio porque exige mais do que a compreensão do tema (morte de uma criança). É preciso entender um conceito literário específico (o eu lírico) e perceber que a força do poema não vem apenas da descrição da cena fúnebre, mas da atitude psicologicamente complexa desse eu lírico diante do fato: sua negação ativa da morte.
Gabarito
Letra B. – A alternativa está correta pois a principal força expressiva do poema reside no apelo desesperado do eu lírico para que a criança morta acorde, o que configura uma recusa em aceitar a finalidade e a irreversibilidade da morte.
PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
Decodificação do Objetivo: A questão nos pede para encontrar o “amplificador” do sentimento de luto no poema. O que o eu lírico faz ou diz que transforma a tristeza em algo ainda mais expressivo e desesperado?
Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine alguém que acabou de perder um ente querido e, olhando para uma fotografia, começa a conversar com ela, pedindo para que a pessoa volte. Racionalmente, sabemos que a fotografia não pode responder. É exatamente esse ato, o de se dirigir ao impossível, que revela a profundidade da dor e da não aceitação. O eu lírico do poema faz isso, mas com o corpo da criança. Nossa missão é identificar e dar nome a essa atitude de negação da realidade.
Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação):
- Identificar a Voz: Primeiro, vamos entender quem está falando no poema (o eu lírico).
- Mapear a Cena: Descrever o cenário que essa voz nos apresenta.
- Analisar a Ação da Voz: Focar no que o eu lírico diz diretamente à criança morta.
- Construir o Retrato Falado: Definir o que a alternativa correta precisa afirmar sobre a atitude dessa voz.
PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
A ferramenta conceitual indispensável para esta análise é o Eu Lírico.
Dossiê Investigativo: O Eu Lírico
- Identidade: É a “voz” que fala no poema. É uma entidade ficcional, uma persona criada pelo poeta para expressar sentimentos, ideias e visões de mundo.
- Importante: O eu lírico NÃO é o autor. Vicente de Carvalho (o autor) criou uma voz sofredora (o eu lírico) para narrar essa cena.
- Função no Poema: Neste caso, o eu lírico é um observador participante do funeral. Ele descreve a cena (“Tange o sino”, “Alas de ciprestes”) e, crucialmente, interage com o “pequenino morto”.
Para entender a força do poema, vamos usar uma Tabela Comparativa que contrasta a realidade da cena com o apelo do eu lírico.
| A Realidade Inevitável (O que está acontecendo) | O Apelo Impossível (O que o eu lírico diz) |
| O sino toca em choro (sinal de morte). | “Acorda!” |
| O corpo está em um caixão dourado. | “Recupera o alento” |
| O cortejo fúnebre o leva para o cemitério. | “Foge da cobiça dessas fundas valas” |
| A criança está morta. | “Pequenino, acorda!” |
A tabela torna o conflito evidente: a realidade aponta para a morte, mas a voz do poema se recusa a aceitá-la, lutando contra ela com palavras.
PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
Vamos executar a análise. O poema constrói uma atmosfera fúnebre com imagens clássicas: o sino, os ciprestes negros, as valas abertas. Essa é a descrição do cenário.
No entanto, o que intensifica o sentimento não é apenas a descrição. É a ação do eu lírico. Ele se dirige diretamente ao “pequenino” (uma figura de linguagem chamada apóstrofe) e lhe dá ordens que não podem ser cumpridas: “Acorda!”, “Foge!”.
Esse diálogo com o impossível é a chave. Ele revela um estado de negação, de desespero tão profundo que a lógica é suspensa. A repetição do apelo “Pequenino, acorda!” funciona como um mantra de quem não pode ou não quer aceitar a perda. É essa luta contra o fato consumado que torna o luto tão expressivo.
🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
O erro mais comum é focar apenas nos elementos descritivos. A alternativa (A), “descrição da paisagem de um cemitério”, é uma armadilha tentadora porque o poema de fato descreve essa paisagem (“ciprestes negros”, “famintas valas”). CUIDADO! A descrição é o pano de fundo. O que está no centro do palco, intensificando o drama, é a reação do eu lírico a essa paisagem, sua recusa em entregar a criança a ela.
A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: O poema intensifica o sentimento de luto ao colocar em primeiro plano a atitude do eu lírico, que, por meio de apelos diretos e desesperados, nega a finalidade da morte da criança.
- Expectativa: A alternativa correta deve apontar para essa atitude de negação, recusa ou não aceitação da morte como um fato final e irreversível por parte do eu lírico.
PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
A) descrição da paisagem de um cemitério.
- A “Narrativa do Erro”: O leitor identifica corretamente os elementos do cenário fúnebre descritos no poema.
- O “Diagnóstico do Erro”: Reducionismo (Descrever o Meio, não o Fim). A paisagem é o cenário que causa a dor, mas a intensificação da dor vem da reação do eu lírico a ela. A alternativa descreve o palco, não o ator principal.
- Como estaria certa? Esta alternativa poderia ser considerada se o poema se concentrasse unicamente nos detalhes sombrios do cemitério, sem os apelos diretos à criança, criando o luto apenas pela atmosfera.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
B) recusa do eu lírico à irreversibilidade da morte.
- Análise de Correspondência: Esta alternativa é uma descrição precisa da nossa “Expectativa”. A “recusa” é manifestada nos gritos de “Acorda!”, e a “irreversibilidade da morte” é exatamente o que esses gritos tentam, em vão, negar.
- Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
C) sonoridade dos versos produzida pela pontuação.
- A “Narrativa do Erro”: O leitor percebe que as reticências e exclamações contribuem para o tom do poema.
- O “Diagnóstico do Erro”: Descrever a Ferramenta, não a Ação. A sonoridade e a pontuação são ferramentas que ajudam a expressar a recusa do eu lírico, mas não são a recusa em si. A causa da intensificação é o conteúdo do apelo, não apenas sua forma.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
D) religiosidade evocada como forma de fortalecimento.
- A “Narrativa do Erro”: O leitor associa “sino” e “morte” a um contexto religioso.
- O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema / Contradição. O poema não oferece nenhum consolo religioso. Pelo contrário, o eu lírico parece lutar contra o destino de forma muito terrena e desesperada, sem menção a Deus, anjos ou vida após a morte.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
E) impressão de sonho na construção da estrutura poética.
- A “Narrativa do Erro”: O leitor pode interpretar a irrealidade do pedido (“Acorda!”) como algo onírico.
- O “Diagnóstico do Erro”: Erro de Interpretação. O cenário descrito é brutalmente realista (caixão, valas, ciprestes). A irrealidade não está na cena, mas no estado psicológico do eu lírico, que está em negação, não sonhando.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
Frase de Fechamento: A resposta correta é a letra B, pois o poema transforma o luto em uma expressão dilacerante não ao descrever a morte, mas ao encenar a luta impossível do eu lírico contra a sua finalidade, gritando “Acorda!” para o silêncio eterno.
Resumo-flash (A Imagem Mental): A dor mais alta não é a lágrima que cai, mas o grito que tenta reverter a queda.
Para ir Além (A Ponte para o Futuro): A atitude do eu lírico é uma representação poética perfeita de um dos Cinco Estágios do Luto, modelo proposto pela psiquiatra Elisabeth Kübler-Ross. O apelo “Pequenino, acorda!” é a personificação do primeiro estágio: a Negação. Neste estágio, o indivíduo se recusa a aceitar a realidade da perda como uma forma de defesa contra o choque emocional. O poema não é apenas uma peça literária, mas também um documento preciso de uma fase fundamental da psicologia humana diante de uma perda traumática. A literatura, mais uma vez, nos dá um acesso profundo a uma verdade estudada pela ciência.
