Questão 34 caderno azul ENEM 2025 Dia 1


Disponível em: https://revistagalileu.globo.com.
Acesso em: 18 jun. 2024 [adaptado].

Com base na relação dos elementos não verbais com a frase “VOCÊ (NÃO) ESTÁ SOZINHO”, nessa capa de revista, a função poética fica evidente, pois

A) essa frase informa sobre os riscos de um determinado comportamento social.

B) o conteúdo da mensagem expressa a atitude do enunciador sobre o tema.

C) a construção dessa frase possibilita mais de uma interpretação.

D) essa frase estabelece um diálogo direto com o leitor.

E) a linguagem utilizada volta-se para si mesma.

 Resolução Em Texto

Matérias Necessárias para a Solução da Questão

  • Funções da Linguagem (com foco na Função Poética)
  • Interpretação de Linguagem Mista (Verbal e Não Verbal)
  • Análise de Gêneros Textuais (Capa de Revista)

Tema/Objetivo Geral: Identificar a manifestação da função poética da linguagem em uma construção frasal ambígua.

Nível da Questão
Médio. – A dificuldade aqui é puramente teórica. A análise da imagem e do tema da solidão é relativamente simples, mas a questão exige que o candidato conheça e saiba diferenciar as seis Funções da Linguagem para identificar qual delas é descrita em cada alternativa e por que a construção da frase se encaixa na definição de Função Poética.

Gabarito
Letra C. – A alternativa está correta porque a essência da função poética é o trabalho com a forma da mensagem para gerar novos efeitos de sentido. A construção “VOCÊ (NÃO) ESTÁ SOZINHO” cria deliberadamente uma ambiguidade que possibilita mais de uma interpretação, sendo este o principal recurso poético da frase.


PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Decodificação do Objetivo: A questão não nos pede para interpretar a mensagem da capa. Ela já nos dá uma informação (“a função poética fica evidente”) e nos pede para explicar o porquê. Nossa missão é identificar qual das alternativas descreve corretamente o mecanismo da função poética que está em ação na frase “VOCÊ (NÃO) ESTÁ SOZINHO”.

Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine que a frase é um letreiro de neon onde a palavra “(NÃO)” fica piscando. Às vezes você lê “VOCÊ ESTÁ SOZINHO”, outras vezes lê “VOCÊ NÃO ESTÁ SOZINHO”. A genialidade do letreiro não está em nenhuma das duas mensagens isoladas, mas no efeito que essa instabilidade, essa ambiguidade criada pela forma (o piscar) causa em quem lê. A função poética é o estudo desse “piscar”.

Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação):

  1. Construir a Caixa de Ferramentas: Faremos uma revisão intensiva das Funções da Linguagem, com foco na Poética.
  2. Analisar a Cena do Crime: Vamos observar a imagem e o texto da capa para entender o contexto.
  3. Analisar a Arma do Crime: Vamos dissecar a estrutura da frase “VOCÊ (NÃO) ESTÁ SOZINHO” e entender como ela funciona.
  4. Conectar a Arma à Função: Vamos provar por que essa estrutura é um exemplo de Função Poética.
  5. Construir o Retrato Falado: Definiremos o que a alternativa correta precisa afirmar sobre essa conexão.

PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para decifrar este caso, é indispensável o Dossiê das 6 Funções da Linguagem. Cada função foca em um dos elementos da comunicação.

  • Função Referencial (ou Denotativa): Foco no contexto. Visa informar de maneira objetiva, como em uma notícia de jornal.
  • Função Emotiva (ou Expressiva): Foco no emissor. Visa expressar os sentimentos e opiniões de quem fala, como em um diário.
  • Função Conativa (ou Apelativa): Foco no receptor. Visa convencer ou dar uma ordem ao ouvinte, como em uma propaganda (“Compre já!”).
  • Função Fática: Foco no canal. Visa testar ou manter a comunicação, como quando dizemos “Alô?” ao telefone.
  • Função Metalinguística: Foco no código. É a linguagem falando sobre si mesma, como este dossiê ou um dicionário.
  • 🕵️‍♂️ FOCO DA INVESTIGAÇÃO: Função Poética
    • Foco na MENSAGEM: Esta é a chave. A função poética se concentra na forma da mensagem, no jeito como ela é construída. O “como se diz” é tão ou mais importante que “o que se diz”.
    • Recursos: Usa figuras de linguagem, sonoridade, ritmo e, crucialmente para esta questão, a ambiguidade e a plurissignificação (a capacidade de uma palavra ou frase ter múltiplos sentidos).
    • Objetivo: Não é apenas transmitir uma informação, mas criar um efeito estético, uma surpresa, uma reflexão que nasce da própria estrutura da linguagem.

PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

  1. A Cena (Imagem): Pessoas isoladas em buracos, mas todas juntas no mesmo espaço. Uma imagem que representa o paradoxo da “solidão coletiva”. Elas estão fisicamente próximas, mas psicologicamente distantes, cada uma em sua “bolha”.
  2. A Arma (A Frase): “VOCÊ (NÃO) ESTÁ SOZINHO”. O uso dos parênteses é uma escolha estilística não convencional. É um trabalho com a forma da mensagem.
  3. O Efeito: Essa forma nos obriga a duas leituras simultâneas:
    • Leitura 1 (sem o “NÃO”): “Você está sozinho.” -> Corresponde ao sentimento de solidão e à imagem da pessoa em seu buraco.
    • Leitura 2 (com o “NÃO”): “Você não está sozinho.” -> Corresponde ao fato de que “metade da população” sente o mesmo, criando uma ironia: você não está sozinho em sua solidão.

Essa duplicidade de sentido, essa ambiguidade criada pela forma, é a marca registrada da Função Poética.

A Bússola (O Perfil do Culpado):

  • Síntese do raciocínio: A capa da revista emprega a função poética ao manipular a estrutura da frase (“(NÃO)”) para gerar uma duplicidade de sentidos que reflete o paradoxo do tema da solidão.
  • Expectativa: A alternativa correta deve descrever esse mecanismo de criação de múltiplos sentidos ou interpretações a partir da construção da frase.

PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

A) essa frase informa sobre os riscos de um determinado comportamento social.

  • A “Narrativa do Erro”: O leitor interpreta a mensagem geral da capa, que é sobre o problema da solidão.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Erro de Função. Descreve a Função Referencial, que se preocupa em informar objetivamente. A frase, no entanto, é tudo menos objetiva; sua força está na sua construção engenhosa.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

B) o conteúdo da mensagem expressa a atitude do enunciador sobre o tema.

  • A “Narrativa do Erro”: O leitor percebe que a capa tem uma opinião, um ponto de vista sobre a solidão.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Erro de Função. Descreve a Função Emotiva, que foca nos sentimentos do emissor. Embora haja uma atitude, a evidência da função poética não está nisso, mas na forma da frase.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

C) a construção dessa frase possibilita mais de uma interpretação.

  • Análise de Correspondência: Esta alternativa descreve perfeitamente o mecanismo da Função Poética que identificamos em nossa análise. A “construção” (o “(NÃO)”) leva a “mais de uma interpretação” (estar sozinho / não estar sozinho). É a descrição exata do que acontece.
  • Conclusão: ✔️ Alternativa correta.

D) essa frase estabelece um diálogo direto com o leitor.

  • A “Narrativa do Erro”: O leitor foca no uso do pronome “VOCÊ”.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Erro de Função. Descreve a Função Conativa (ou Apelativa), que busca interagir com o receptor. O uso de “você” de fato estabelece esse diálogo, mas a evidência da função poética não está no uso do pronome, e sim na ambiguidade do “(NÃO)”.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

E) a linguagem utilizada volta-se para si mesma.

  • A “Narrativa do Erro”: O leitor pode pensar que, ao brincar com a estrutura, a frase está falando de si mesma.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Erro de Função. Descreve a Função Metalinguística. A frase não está explicando o que é um parêntese ou o que é uma negação. Ela está usando esses recursos para falar sobre a solidão (um tema externo).
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Frase de Fechamento: A resposta correta é a letra C, pois a genialidade poética da capa reside em sua capacidade de, com um simples parêntese, encapsular o paradoxo central da solidão moderna, forçando-nos a ler duas verdades opostas ao mesmo tempo.

Resumo-flash (A Imagem Mental): A função poética não está no que a frase diz, mas no que ela faz a frase dizer em segredo.

Para ir Além (A Ponte para o Futuro): A ambiguidade criada pelo “(NÃO)” é um análogo linguístico do conceito de superposição quântica da Física. Na mecânica quântica, antes de ser medido, um elétron pode existir em múltiplos estados ao mesmo tempo (por exemplo, em dois lugares de uma vez). Da mesma forma, a frase “VOCÊ (NÃO) ESTÁ SOZINHO”, antes de ser “medida” (interpretada) pelo leitor, existe em dois estados simultâneos: o da afirmação e o da negação. A construção poética da frase a coloca em um estado de superposição de significados, e é o ato da leitura que “colapsa a função de onda”, fazendo-nos perceber uma ou outra possibilidade, ou a tensão entre ambas.


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