Questão 36 caderno azul ENEM 2025 Dia 1


I: o nome do filme é roupa suja … eu assisti na minha casa … com minha mãe … tinha um … o filme era sobre um homem que colocaram … trocaram as bolsas … daí o homem levou uma bolsa cheia de dinheiro sem ele saber que na mala dele … pensando que era dele mas era errada … quando ele chegou onde ele ia trabalhar … tinha uma moça tentando abrir a porta pra fazer entrevista com uns cantores lá que tinham … daí ele perguntou … “você tá tentando abrir a porta?”… daí ele … “não … não” … daí ele disse … “ah … tá … sim” … daí ela … “é … e quero fazer uma entrevista” … daí ele disse … “você quer entrar … então pode entrar” … daí entraram … daí ficaram lá … quando ela entrou e queria fazer a entrevista um homem num deixou … daí a mulher pegou … subiu onde o homem tava trabalhando … rapaz né … onde ele tava trabalhando e ficou lá e dando o show …

CUNHA, M. A. F. Corpus discurso & gramática: a língua falada e escrita na cidade de Natal. Disponível em: https://deg.uff.br. Acesso em: 4 dez. 2024 (adaptado).

Nesse texto, a repetição da forma “daí” revela

A) a necessidade de adequação ao interlocutor.

B) a origem regional do locutor.

C) a escolaridade do falante.

D) uma estratégia presente na linguagem oral.

E) uma ênfase em determinadas partes do discurso.

 Resolução Em Texto

Matérias Necessárias para a Solução da Questão:

  • Variação Linguística (modalidades oral e escrita)
  • Coesão e Coerência Textual
  • Marcadores Conversacionais (ou Marcadores Discursivos)

Tema/Objetivo Geral: Análise da função de elementos coesivos na construção de um texto oral.

Nível da Questão: Fácil.

  • Detalhe: A questão é classificada como fácil porque aborda um fenômeno linguístico extremamente comum e de reconhecimento imediato: o uso de expressões como “daí” em conversas cotidianas. A alternativa correta descreve essa realidade de forma direta, enquanto as incorretas apresentam desvios (regionalismo, escolaridade) que são facilmente descartados com base na experiência comum de qualquer falante da língua.

Gabarito: D – uma estratégia presente na linguagem oral.

  • Explicação: A alternativa está correta porque a repetição de “daí” é um recurso típico da fala para conectar ideias e sequenciar eventos de forma fluida e espontânea, funcionando como um elo na narração.

PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Decodificação do Objetivo: A questão nos entrega uma transcrição de uma fala e nos pergunta: qual é a função da repetição insistente da palavra “daí”? Em outras palavras, por que o falante usa tanto essa expressão?

Simplificação Radical (A Analogia Central): Pense em um contador de histórias que está montando um colar de pérolas na frente de uma plateia. Cada pérola é um evento da história (“o homem levou a bolsa”, “a moça tentou abrir a porta”, “ele perguntou…”). A palavra “daí” é o fio invisível que ele usa para passar rapidamente de uma pérola para a outra, mantendo o colar unido e a história fluindo sem pausas longas. O verdadeiro desafio aqui é entender a função desse “fio” no contexto da “montagem ao vivo” da história, que é a fala.

Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação): Nosso plano será o seguinte:

  • Analisar a Natureza do Texto: Primeiro, vamos examinar o texto e confirmar que se trata da transcrição de uma fala, não de um texto escrito formal.
  • Isolar o Elemento Repetido: Vamos observar cada uso da palavra “daí” e entender o que ela está conectando em cada momento da narrativa.
  • Consultar a Teoria: Vamos definir o que são “marcadores conversacionais” e contrastar as estratégias da língua falada com as da língua escrita.
  • Formular um Veredito: Com base na análise, concluiremos qual a função exata dessa repetição e criaremos um “retrato falado” da alternativa correta.

PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para decifrar este enigma, precisamos de uma ferramenta crucial: o entendimento sobre as diferenças entre a língua oral e a língua escrita, especificamente no uso dos Marcadores Conversacionais. Vamos organizar as pistas em um dossiê.

DOSSIÊ: MODALIDADES DA LÍNGUA E SEUS CONECTORES

Assunto: A forma como conectamos ideias.

Divisão 1: A Língua Oral (A Conversa Espontânea)

  • Descrição: É a modalidade da língua que usamos no dia a dia. Ela é produzida em tempo real, é dinâmica, espontânea e frequentemente interativa. O planejamento é mínimo e acontece simultaneamente à fala.
  • Estratégias de Conexão (Os Marcadores Conversacionais): Como o cérebro precisa de tempo para formular a próxima ideia, a língua oral utiliza “muletas” ou “peças de ligação” multifuncionais. Essas peças são os marcadores conversacionais.
    • Função Principal: Manter o fluxo da comunicação, conectar eventos, preencher pausas, sequenciar ações e organizar o pensamento em tempo real. Eles são como o “cimento fresco” da construção de uma frase falada.
    • Exemplos Comuns e Suas Funções:
      • “Daí”, “Aí”, “Então”: Usados massivamente para indicar sequência temporal ou consequência. Funcionam como um “e depois…” ou “por causa disso…”. No texto da questão, o “daí” é o protagonista.
      • “Tipo”, “Tipo assim”: Usados para introduzir uma explicação, um exemplo ou para hesitar, ganhando tempo para pensar. Ex: “Ele ficou, tipo, muito bravo”.
      • “Né?”, “Sabe?”, “Entende?”: Usados para buscar a confirmação ou a atenção do interlocutor, garantindo que a comunicação está funcionando.
  • Característica Chave: A repetição desses marcadores não é um “erro” ou uma “pobreza de vocabulário”. É uma característica intrínseca e funcional da produção do discurso oral.

Divisão 2: A Língua Escrita (O Texto Planejado)

  • Descrição: É a modalidade da língua que geralmente envolve planejamento, revisão e edição. Ela é mais estável, menos interativa e permite a construção de raciocínios mais complexos e estruturados.
  • Estratégias de Conexão (Os Conectivos Formais): A escrita formal preza pela variedade e pela precisão vocabular. A repetição excessiva de um mesmo conector é vista como uma falha de estilo.
    • Função Principal: Estabelecer relações lógicas precisas entre orações e parágrafos. Cada conectivo tem um “endereço semântico” muito específico.
    • Exemplos Comuns e Suas Funções:
      • Para Sequência/Consequência (em vez de “daí”): Posteriormente, consequentemente, em virtude disso, dessarte.
      • Para Adição (em vez de “e… e…”): Ademais, outrossim, além disso.
      • Para Contraste (em vez de “mas”): Entretanto, porém, contudo, todavia.
  • Característica Chave: Busca pela precisão, variedade lexical e estrutura lógica explícita, evitando as repetições e hesitações típicas da oralidade.

Este dossiê nos mostra que “daí” não é uma peça solta, mas parte de um sistema operacional completo – o sistema da língua falada.


PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Agora, vamos aplicar nossas ferramentas ao texto, seguindo o Plano de Ataque.

1. Análise da Natureza do Texto: O texto é claramente a transcrição de uma fala. A estrutura simples, as frases curtas e a repetição são marcas registradas de uma narrativa oral e espontânea. A fonte (“Corpus discurso & gramática: a língua falada e escrita…”) confirma nossa suspeita.

2. Isolando o Elemento Repetido: Vamos seguir o “fio” do “daí” pela história:

  • “…trocaram as bolsas … daí o homem levou uma bolsa cheia de dinheiro…” (Função: Consequência da troca).
  • “…tinha uma moça tentando abrir a porta […] daí ele perguntou…” (Função: Sequência de eventos, “naquele momento”).
  • “…’você tá tentando abrir a porta?’… daí ele … ‘não … não’…” (Função: Conectando pergunta e resposta na sequência do diálogo).
  • “…’ah … tá … sim’ … daí ela … ‘é … e quero fazer uma entrevista’…” (Função: Continuação do diálogo).
  • “…’você quer entrar … então pode entrar’ … daí entraram…” (Função: Consequência da permissão).

Em todos os casos, “daí” atua como um conector sequencial de baixa especificidade, perfeito para a agilidade da fala. Ele simplesmente diz “e a próxima coisa que aconteceu foi…”.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! O erro mais comum aqui é julgar o texto com a régua da gramática normativa e da escrita formal. Ao ver a repetição de “daí”, um impulso primário é pensar: “Que vocabulário pobre!” ou “Essa pessoa não estudou”. Essa é a armadilha do preconceito linguístico. A linguística moderna nos ensina que a oralidade não é uma versão “errada” da escrita; é um sistema diferente, com suas próprias regras e estratégias de eficiência. A repetição, na fala, é uma dessas estratégias, não um defeito.

3. e 4. Consultando a Teoria e Formulando o Veredito:
Conforme nosso dossiê (Passo 2), a repetição de marcadores como “daí” é uma característica fundamental da construção do discurso oral. Ele serve para dar fluidez e encadear os fatos da narrativa de forma ágil, sem a necessidade de buscar conectivos mais complexos que poderiam travar o fluxo do pensamento.

  • A Bússola (O Perfil do Culpado):
    • Síntese do raciocínio: A análise revela que “daí” funciona como um marcador conversacional, cuja função principal é garantir a coesão sequencial em uma narrativa produzida em tempo real, característica típica da modalidade oral da língua.
    • Expectativa: A alternativa correta deve, obrigatoriamente, conectar a repetição de “daí” ao universo da oralidade ou da fala, tratando-a como uma estratégia funcional e não como um erro ou uma característica particular do falante (como região ou escolaridade).

PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

Vamos agora confrontar nossa “Expectativa” com as alternativas.

  • A) a necessidade de adequação ao interlocutor.
    • Análise de Correspondência: Não há no texto nenhuma evidência de que o falante está se “adequando” a alguém. Ele está simplesmente narrando uma história em seu modo natural de falar. A adequação (ou “acondicionamento”) ocorreria se ele mudasse sua forma de falar por causa do ouvinte (por exemplo, falando de modo mais simples para uma criança).
    • A “Narrativa do Erro”: O candidato pode pensar que, por ser uma conversa, há sempre uma adequação ao outro.
    • Diagnóstico do Erro: Fuga ao Tema. A questão central é a estrutura da narrativa oral, não a interação social com o ouvinte.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • B) a origem regional do locutor.
    • Análise de Correspondência: Embora existam expressões marcadamente regionais (o “bah” gaúcho, o “oxe” nordestino), o uso sequencial de “daí” é extremamente comum e difundido em praticamente todo o Brasil. Não é um indicador confiável de uma região específica.
    • A “Narrativa do Erro”: O candidato associa qualquer traço de informalidade a um dialeto ou sotaque regional.
    • Diagnóstico do Erro: Generalização Excessiva. Atribui a uma vasta área geográfica um fenômeno que é, na verdade, uma característica da modalidade oral em geral.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • C) a escolaridade do falante.
    • Análise de Correspondência: Esta é a armadilha do preconceito linguístico. Pessoas de todos os níveis de escolaridade utilizam marcadores conversacionais na fala espontânea. Associar o uso de “daí” a uma baixa escolaridade é uma inferência sem fundamento e cientificamente incorreta.
    • A “Narrativa do Erro”: O candidato julga a fala com as regras da escrita formal e conclui que o desvio da norma culta escrita indica falta de educação formal.
    • Diagnóstico do Erro: Inferência Indevida (baseada em preconceito linguístico).
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • D) uma estratégia presente na linguagem oral.
    • Análise de Correspondência: Esta alternativa se encaixa perfeitamente na “Expectativa” da nossa Bússola. Ela reconhece que o fenômeno pertence ao domínio da linguagem oral e o classifica corretamente como uma estratégia – ou seja, um recurso funcional e intencional para construir o discurso falado.
    • Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
  • E) uma ênfase em determinadas partes do discurso.
    • Análise de Correspondência: “Daí” não está dando ênfase ou destaque a nenhuma informação; pelo contrário, está atuando como uma ponte discreta entre as informações. Para dar ênfase, o falante usaria outros recursos, como aumentar o volume da voz, ou usar palavras como “justamente”, “principalmente”, “incrivelmente”.
    • A “Narrativa do Erro”: O candidato confunde repetição com ênfase. Embora a repetição possa ser um recurso de ênfase (ex: “Ele estava muito, muito cansado”), neste contexto específico, a função é conectiva.
    • Diagnóstico do Erro: Descrição Incorreta da Função. O marcador é de coesão, não de ênfase.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Frase de Fechamento: Confirmamos que a alternativa D é a correta, pois a repetição de “daí” é uma estratégia coesiva fundamental e eficiente para sequenciar eventos na linguagem oral.

Resumo-flash (A Imagem Mental): O “daí” da língua falada é como o ponto de costura em um tecido: não é a parte mais bonita, mas é o que impede que a história se desfaça.

Para ir Além (A Ponte para o Futuro): O mesmo princípio funcional dos marcadores conversacionais pode ser visto na interface de usuário (UI) de softwares e aplicativos. Pense nos botões “Avançar” ou “Próximo” em um instalador ou formulário online. Eles não adicionam conteúdo novo, mas, assim como o “daí”, sua função é puramente sequencial e procedimental: eles nos guiam para o próximo passo de forma clara e sem ambiguidade. Em ambos os casos – na fala e no software – temos um mecanismo simples e repetitivo cuja principal função é garantir que o processo (seja uma história ou uma instalação) flua de forma contínua e sem quebras. É a linguística da usabilidade.


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