Questão 42 caderno azul ENEM 2025 Dia 1


TRADUZINDO O JURIDIQUÊS

“Denego a liminar pleiteada na exordial, inobstante após a oitiva da parte adversa e da dilação probatória possa lograr alcançar um outro epílogo para o deslinde da quaestio sub examine.

TRADUÇÃO

Não atendo, por ora, a liminar requerida na petição inicial, ainda que possa chegar a uma outra conclusão após ouvir a outra parte e avaliar as provas produzidas.


Proposta de emenda à Constituição 269 de 2013. Aplica-se aos Governadores e Prefeitos o Regime Geral de Previdência Social, vedada a concessão graciosa, após o término do mandato, de vantagem pecuniária, verba de representação, pensão ou subsídio.

TRADUÇÃO

Torna-se proibido pagar benefícios vitalícios para ex-prefeitos e ex-governadores.

Superinteressante, n. 322, ago. 2013 (adaptado)

Nesse texto, contribui para a construção da ironia a tradução das passagens escritas em “juridiquês” para uma variedade

A) padrão, que alcança o público em geral.

B) histórica, que registra a evolução das leis.

C) coloquial, que reproduz as relações sociais cotidianas.

D) erudita, que resgata a origem latina da língua portuguesa.

E) técnica, que facilita a circulação de informações no sistema judiciário.

Resolução Em Texto

Matérias Necessárias para a Solução da Questão

  • Variação Linguística (Jargão Profissional, Norma Padrão, Linguagem Coloquial)
  • Interpretação de Texto
  • Funções da Linguagem
  • Adequação da Linguagem ao Público-Alvo

Tema/Objetivo Geral:
Análise da adequação da linguagem e o contraste entre diferentes registros linguísticos para atingir um objetivo comunicativo.

Nível da Questão

  • Médio. – A questão é de nível médio devido à presença de um distrator muito forte (alternativa E). Ela não avalia apenas a capacidade de ler e entender os textos, mas exige do candidato um conhecimento sobre variação linguística para classificar corretamente a variedade usada na “tradução” e, crucialmente, para entender a diferença entre uma linguagem “técnica” (para especialistas) e uma linguagem “padrão” (para o público geral).

Gabarito

  • A) padrão, que alcança o público em geral. – A alternativa está correta porque a “tradução” utiliza a norma-padrão da língua, que é acessível a todos os falantes letrados, contrastando com o jargão jurídico, que é restrito a um grupo específico.

PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Decodificação do Objetivo: A questão nos pede para analisar a “tradução” do “juridiquês” e classificar que tipo de variedade linguística foi usada, explicando qual seu propósito e a quem se destina.

Simplificação Radical (A Analogia Central): Pense na situação como se um médico dissesse a um paciente: “O seu quadro clínico aponta para uma cefaleia de etiologia idiopática”. O paciente fica confuso. Então, o médico “traduz”: “Você está com uma dor de cabeça e não sabemos a causa”. A questão aqui é: que tipo de linguagem o médico usou na segunda frase e por quê? Ele usou a linguagem que todos nós entendemos, a linguagem padrão, para garantir que a comunicação fosse eficaz e a mensagem, compreendida. O desafio é classificar corretamente essa linguagem “traduzida”.

Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação):

  • Analisar o “Código Fechado”: Vamos examinar as características do “juridiquês” para entender por que ele é uma linguagem restrita.
  • Analisar a “Chave Mestra”: Vamos dissecar a linguagem da “tradução” para definir suas características e a quem ela se destina.
  • Analisar o Contraste e a Função: Vamos comparar as duas linguagens para entender o propósito central da tradução.
  • Construir o “Retrato Falado”: Descreveremos o que a alternativa correta precisa afirmar sobre a linguagem da tradução e seu público.

PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

A ferramenta ideal para este caso é uma Tabela Comparativa de Registros Linguísticos. Ela nos permitirá visualizar o abismo que separa as duas formas de comunicação.

Dossiê de Registros Linguísticos: Juridiquês vs. Tradução

Critério de AnáliseRegistro 1: “Juridiquês” (O Código)Registro 2: “Tradução” (A Chave)
Público-AlvoRestrito: Profissionais da área do Direito (juízes, advogados, promotores).Amplo: O público em geral, qualquer cidadão letrado.
VocabulárioEspecializado e Arcaico: Uso de termos técnicos e expressões em latim (“liminar”, “exordial”, “inobstante”, “quaestio sub examine”).Comum e Acessível: Uso de palavras do cotidiano (“por ora”, “petição inicial”, “ainda que”, “conclusão”).
Estrutura da Frase (Sintaxe)Complexa e Invertida: Orações longas, intercaladas e em ordem indireta (“Denego a liminar pleiteada na exordial, inobstante após a oitiva…”).Simples e Direta: Frases curtas, em ordem direta (sujeito-verbo-complemento), facilitando a compreensão.
Função PrincipalPrecisão técnica (dentro do grupo), mas também hermetismo (para fora do grupo). Funciona como um marcador de identidade profissional.Clareza e Democratização: Tornar a informação compreensível para todos, quebrando a barreira da linguagem técnica.
Análise AprofundadaO “juridiquês” é um jargão profissional. Como todo jargão, ele possui um vocabulário próprio que permite comunicação precisa e rápida entre os pares. No entanto, para quem está fora desse círculo, ele se torna uma barreira, parecendo propositalmente obscuro e excludente. A complexidade não é apenas vocabular, mas também estrutural, o que a torna de difícil decodificação.A “tradução” não utiliza gírias ou informalidades (portanto, não é coloquial). Ela simplesmente reescreve a mesma informação usando palavras e estruturas da norma-padrão da língua portuguesa, aquela que é ensinada nas escolas e usada na imprensa. Seu mérito é ser funcional e eficiente para a comunicação em massa.

PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Agora, vamos mergulhar na cena do crime linguístico, aplicando as ferramentas do nosso dossiê para desvendar o mistério.

1. A Construção do Muro (O “Juridiquês” em Ação):
O primeiro texto nos apresenta um verdadeiro muro linguístico. Ele é construído com “tijolos” de vocabulário técnico e especializado (“exordial”, “quaestio”, “dilação probatória”) e uma “argamassa” de frases com estrutura complexa e invertida. O resultado é uma barreira robusta que impede a compreensão da maioria das pessoas. A mensagem existe, mas está trancada, acessível apenas a quem possui a chave daquele código específico – os profissionais do Direito.

2. A Demolição do Muro (A “Tradução” em Ação):
A “tradução” funciona como uma equipe de demolição controlada. O objetivo não é explodir tudo com a dinamite da informalidade (gírias e coloquialismos), mas sim desmontar o muro peça por peça, de forma metódica.

  • A Troca de Tijolos: Cada “tijolo” técnico é cuidadosamente substituído por um equivalente de conhecimento geral. “Exordial” vira “petição inicial”. “Denego” vira “Não atendo”.
  • A Reforma da Argamassa: A estrutura complexa é reorganizada em uma ordem direta e mais lógica, facilitando o fluxo de leitura.
    O que sobra após essa demolição não são escombros, mas uma construção nova, limpa, gramaticalmente correta e transparente. Esta nova estrutura é a variedade padrão da língua.

3. O Propósito da Ponte (A Conexão Estabelecida):
Ao demolir o muro, o texto constrói uma ponte. O propósito dessa ponte é um só: garantir que a mensagem, antes restrita a um lado do rio (o sistema judiciário), chegue intacta e perfeitamente compreensível ao outro lado (o cidadão comum, ou seja, o público em geral). A função da tradução, portanto, é puramente comunicativa e democrática: usar a língua como uma ferramenta de inclusão, garantindo que o direito de entender seja tão importante quanto o direito em si.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! A armadilha mais sedutora aqui é a alternativa (E). O raciocínio falho é o seguinte: “A tradução tornou a informação mais fácil de circular, logo, é uma linguagem ‘técnica que facilita a circulação de informações’”. Esse raciocínio está 50% certo e 100% errado. Sim, a tradução facilita a circulação, mas o termo “técnica” se refere a uma linguagem de especialistas. A tradução faz exatamente o contrário: ela abandona a linguagem técnica para poder ser compreendida por não-técnicos. É uma tradução para fora do sistema judiciário, e não dentro dele.

A Bússola (O Perfil do Culpado):

  • Síntese do raciocínio: O texto demonstra a substituição de um jargão profissional por uma variedade linguística de amplo alcance social, a norma-padrão, com o objetivo de tornar a informação compreensível para o público não especializado.
  • Expectativa: A alternativa correta deve classificar a variedade da tradução como “padrão” e identificar seu público-alvo como o “público em geral”.

PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

Agora, vamos confrontar os suspeitos com o nosso perfil.

A) padrão, que alcança o público em geral.

  • Análise de Correspondência: Esta alternativa é um espelho da nossa “Expectativa”. A linguagem é “padrão” (não coloquial, não erudita) e seu objetivo é alcançar o “público em geral” (não um grupo técnico).
  • Diagnóstico do Erro: N/A.
  • Conclusão: ✔️ Alternativa correta.

B) histórica, que registra a evolução das leis.

  • Análise de Correspondência: O texto não mostra a evolução de uma lei ao longo do tempo, mas sim duas versões da mesma informação em registros diferentes no mesmo momento.
  • Diagnóstico do Erro: Fuga ao Tema.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

C) coloquial, que reproduz as relações sociais cotidianas.

  • Análise de Correspondência: A tradução, apesar de simples, segue a gramática formal. Não há gírias, abreviações ou marcas de oralidade que caracterizam a variedade coloquial.
  • Diagnóstico do Erro: Erro de Classificação Linguística.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

D) erudita, que resgata a origem latina da língua portuguesa.

  • Análise de Correspondência: A variedade erudita é o “juridiquês”, não a tradução. A tradução faz o movimento oposto, afastando-se do vocabulário de origem latina.
  • Diagnóstico do Erro: Contradição Direta.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

E) técnica, que facilita a circulação de informações no sistema judiciário.

  • Análise de Correspondência: Como desvendado na “Armadilha Clássica”, a tradução abandona a linguagem técnica. Sua função é facilitar a comunicação para fora do sistema judiciário, não dentro dele.
  • Diagnóstico do Erro: Inversão de Público-Alvo.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Frase de Fechamento: A resposta correta é a alternativa A, pois a eficácia comunicativa do texto reside na “tradução” do código restrito de uma elite para a linguagem padrão, acessível a todos os cidadãos.

Resumo-flash (A Imagem Mental): Para que a justiça seja para todos, sua linguagem precisa ser entendida por todos.

 Para ir Além (A Ponte para o Futuro): Este mesmo princípio da “tradução” de jargões é fundamental em Comunicação Científica. Um artigo científico sobre, por exemplo, a “mitigação da apoptose em células gliais através da inibição da caspase-3” é incompreensível para o público. Um bom jornalista científico “traduz” isso para a linguagem padrão: “Cientistas descobrem uma forma de proteger as células do cérebro, impedindo que elas se autodestruam”. Em ambos os casos, o direito e a ciência, a tradução do jargão para a variedade padrão é uma ponte essencial para a democratização do conhecimento e o exercício pleno da cidadania.


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