Questão 45 caderno azul ENEM 2025 Dia 1


A artista Marija Tiurina criou uma série chamada Palavras intraduzíveis, com diversas ilustrações detalhadas que transmitem o sentido desses vocábulos, que nenhuma palavra única em outras línguas pode descrever.

ROMANZOTI, N. 9 desenhos que ilustram palavras sem tradução para o português. Disponível em: https://hypescience.com. Acesso em: 10 jun. 2019 (adaptado).

O uso do texto verbal nesse desenho assume a função de

A) descrever de forma técnica a ilustração.

B) destacar os múltiplos sentidos do verbete.

C) explicar o significado da expressão ilustrada.

D) apresentar termos equivalentes em outras línguas.

E) apontar para a dificuldade de compreensão do termo.

Resolução Em Texto

Matérias Necessárias para a Solução da Questão

  • Interpretação de Textos Verbais e Não Verbais (Linguagem Mista)
  • Semiótica (Relação entre Signo, Significado e Significante)
  • Funções da Linguagem

Tema/Objetivo Geral:
Análise da relação de interdependência e complementaridade entre texto e imagem para a construção de um significado complexo.

Nível da Questão

  • Médio. – A questão é de nível médio porque exige uma habilidade de interpretação sutil. Não basta ler a imagem e o texto isoladamente; é preciso compreender a função simbiótica entre eles. O distrator principal (alternativa A) é muito forte, pois testa a capacidade do candidato de diferenciar entre “descrever uma imagem” e “explicar o conceito que a imagem representa”.

Gabarito

  • C) explicar o significado da expressão illustrada. – A alternativa está correta porque o texto verbal não descreve a arte visual, mas sim define o conceito abstrato (“Gufra”) que a imagem se esforça para tornar concreto e sensível.

PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Decodificação do Objetivo: A questão nos pede para definir qual é o “trabalho” específico que as palavras escritas (“Gufra” e sua definição) estão realizando para ajudar a imagem a fazer sentido.

Simplificação Radical (A Analogia Central): Pense nisso como um dicionário visual. A imagem é a fotografia que aparece ao lado de uma palavra. O texto é a definição escrita logo abaixo. Se a palavra for “Saudade”, a imagem pode ser uma pessoa olhando uma foto antiga com um olhar melancólico. O texto abaixo não dirá “desenho de uma pessoa triste”, mas sim “sentimento de nostalgia e falta de algo ou alguém”. A função do texto é explicar o conceito, enquanto a função da imagem é ilustrar o sentimento. Nossa missão é aplicar essa mesma lógica aqui.

Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação):

  • Isolar e Analisar a Evidência Visual: O que a imagem nos mostra e nos faz sentir, por si só?
  • Isolar e Analisar a Evidência Textual: O que as palavras nos informam de maneira objetiva?
  • Investigar a Simbiose: Como a imagem e o texto trabalham juntos? Quem explica e quem ilustra?
  • Construir o “Retrato Falado”: Descreveremos exatamente o que a alternativa correta precisa afirmar sobre o papel do texto verbal.

PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para um caso complexo de linguagem mista, precisamos de uma ferramenta que desmembre a relação entre as partes. Usaremos um Dossiê de Interdependência Semiótica.

Dossiê de Interdependência Semiótica

Evidência #1: A Linguagem Visual (A Ilustração)

  • Elementos Visuais Concretos: Duas mãos grandes em concha; água dentro das mãos; uma pequena figura feminina sentada na água; uma gota de água escapando por entre os dedos.
  • Análise Sensorial e Emocional: A imagem transmite uma sensação de delicadeza, preciosidade e finitude. As mãos são protetoras, mas a água é escassa e pode escapar a qualquer momento. A pequena figura reforça a ideia de fragilidade e cuidado.
  • Função Principal: Ilustrar um conceito abstrato. A imagem não é sobre mãos ou sobre uma menina, mas sobre a sensação de segurar algo valioso, mas efêmero. Ela transforma um conceito em uma cena visual.

Evidência #2: A Linguagem Verbal (O Texto)

  • Elemento 1 (O Termo): “Gufra (Árabe)”. Esta é a etiqueta, o nome do conceito.
  • Elemento 2 (A Definição): “A quantidade de água que pode ser segurada com as mãos”. Este é o significado literal e denotativo.
  • Função Principal: Explicar e nomear o conceito. O texto não descreve a cena (“mãos segurando uma menina”). Ele fornece a definição precisa e o nome da ideia que a cena está representando artisticamente.

Análise da Conexão (A Parceria Investigativa):

  • A imagem e o texto formam uma parceria perfeita. Sozinha, a imagem é uma bela e poética cena aberta a múltiplas interpretações. Sozinho, o texto é uma definição interessante, mas abstrata.
  • Juntos, eles criam um significado completo: A imagem mostra o sentimento de “Gufra”, enquanto o texto explica o significado de “Gufra”. A relação é de complementaridade, não de redundância. Um visualiza, o outro verbaliza.

PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Agora, vamos mergulhar fundo na cena do crime, executando nosso plano com o máximo de detalhamento.

1. A Experiência da Imagem Solitária (A Pista Muda):
Vamos primeiro isolar a pista visual. Imagine que cobrimos o texto com a mão. O que vemos? Uma obra de arte poética. Sentimos cuidado, fragilidade, talvez a efemeridade da vida, a proteção ou a preciosidade de um recurso. É belo, mas é vago. A imagem nos entrega uma emoção, um sentimento, mas não uma ideia precisa. Ela abre um leque de possíveis interpretações. Ela nos faz a pergunta, mas não nos dá a resposta.

2. A Chegada da Chave Decodificadora (O Texto como Legenda Racional):
Agora, revelamos a pista textual. O texto chega não para descrever o que já estamos vendo, mas para decodificar o enigma que a imagem propõe. Ele age em duas etapas:

  • Etapa 1: Nomeação. Ao dizer “Gufra (Árabe)”, o texto dá um nome ao sentimento. Ele nos informa que essa sensação visualmente representada é um conceito tão relevante em outra cultura que possui uma palavra específica.
  • Etapa 2: Definição. Ao afirmar “A quantidade de água que pode ser segurada com as mãos”, o texto ancora o significado. Ele pega todas as emoções vagas de fragilidade e preciosidade e as canaliza para uma ideia concreta e universal. O texto funciona como a legenda de um museu: não descreve as pinceladas, mas explica a intenção do artista e o conceito por trás da obra.

3. A Simbiose Perfeita (Onde a Magia Acontece):
A força da peça está na união das duas linguagens. Uma não repete a outra; elas se completam. A imagem nos faz sentir “Gufra”. O texto nos faz entender “Gufra”. Se o texto descrevesse a imagem, seria redundante e pobre. Se a imagem tentasse ser literal, perderia sua poesia. A função do texto, portanto, é ser o parceiro racional da imagem poética. É explicar o que a imagem se esforça para ilustrar.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! A armadilha aqui é a alternativa (A). É extremamente sedutora porque o texto está, de fato, ao lado de uma ilustração. O cérebro preguiçoso pode concluir: “texto ao lado de ilustração = descrição da ilustração”. Mas este é um erro de categoria. O texto não descreve os elementos da pintura (mãos, menina, cores), mas sim o conceito abstrato que a pintura como um todo simboliza. É a diferença entre descrever o dedo e explicar para onde ele aponta.

A Bússola (O Perfil do Culpado):

  • Síntese do raciocínio: A imagem traduz um conceito abstrato em uma cena visual e emocional. O texto verbal, por sua vez, atua como a chave decodificadora, fornecendo o nome e a definição exata desse mesmo conceito. A função do texto é, portanto, explicativa.
  • Expectativa: A alternativa correta deve afirmar que o texto serve para explicar, definir ou dar o significado da ideia/expressão que foi ilustrada pela imagem.

PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

Vamos confrontar os suspeitos com nosso “retrato falado”.

A) descrever de forma técnica a ilustração.

  • Análise de Correspondência: Esta é a grande armadilha. O texto não descreve a ilustração em seus aspectos técnicos ou visuais. Ele não fala da “menina sentada” ou das “mãos em concha”. Ele explica o conceito que a imagem representa.
  • Diagnóstico do Erro: Confundir Descrição da Obra com Explicação do Conceito.
  • Como esta alternativa estaria certa? Para que esta fosse a resposta, o texto verbal teria que ser algo como: “Ilustração feita em aquarela digital, com paleta de cores frias, retratando duas mãos em formato de concha. A composição utiliza uma figura diminuta para criar uma escala de grandeza e fragilidade.”
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

B) destacar os múltiplos sentidos do verbete.

  • Análise de Correspondência: O texto faz o oposto: ele apresenta um único e preciso significado para a palavra “Gufra”, limitando sua polissemia.
  • Diagnóstico do Erro: Contradição Direta.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

C) explicar o significado da expressão illustrada.

  • Análise de Correspondência: Perfeito. O texto “explica o significado” (“a quantidade de água…”) da “expressão” (“Gufra”) que foi “ilustrada” pela imagem das mãos com água. Encaixe perfeito com a nossa Bússola.
  • Diagnóstico do Erro: N/A.
  • Conclusão: ✔️ Alternativa correta.

D) apresentar termos equivalentes em outras línguas.

  • Análise de Correspondência: O texto apresenta um termo em uma língua (árabe) e sua explicação em outra (português), mas não apresenta “termos equivalentes”. A própria fonte da questão menciona que são palavras “sem tradução”.
  • Diagnóstico do Erro: Fuga ao Tema.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

E) apontar para a dificuldade de compreensão do termo.

  • Análise de Correspondência: O texto faz o exato oposto. Ele foi criado justamente para facilitar a compreensão do termo, fornecendo uma explicação clara e uma imagem correspondente.
  • Diagnóstico do Erro: Contradição Direta.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Frase de Fechamento: A resposta correta é a alternativa C, pois em uma comunicação verbo-visual eficaz, o texto e a imagem dividem o trabalho: a imagem evoca o sentimento e a cena, enquanto o texto ancora a interpretação, explicando o significado preciso do conceito ilustrado.

Resumo-flash (A Imagem Mental): A imagem pinta a emoção; o texto entrega o nome da tinta.

 Para ir Além (A Ponte para o Futuro): Este mesmo princípio de simbiose verbo-visual é a base da publicidade e do design de logos. Pense no logo da Apple (a maçã mordida). É uma imagem poderosa, mas o que ela significa? Ao longo dos anos, textos verbais em campanhas (“Think Different.”) ajudaram a explicar o significado associado àquela imagem: inovação, criatividade, quebra de paradigmas. A imagem (logo) e o texto (slogan) não descrevem um ao outro; eles trabalham juntos para construir um conceito complexo na mente do consumidor. A imagem atrai, o texto explica.


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