Não há consenso em torno do nome dado à pandemia, tendo, desde o seu início, sido chamada de gripe espanhola provavelmente por causa da desinformação em torno da notícia sobre sua origem. Uma das hipóteses deriva da neutralidade espanhola na Primeira Guerra Mundial e a consequente liberdade de imprensa naquele país, maior do que nos demais países envolvidos no conflito. Hoje existe o consenso entre virologistas e epidemiologistas de que o vírus da gripe não se originou na Espanha. Entretanto, dificilmente essa pandemia deixará de ser conhecida como gripe espanhola.
KLAJMAN, C. A gripe sob a ótica da história ecológica.
História Revista, n. 3, set.-dez. 2015 (adaptado).
De acordo com o texto, a denominação recebida pela pandemia do começo do século XX foi determinada pelo(a)
A) precariedade dos conhecimentos pela medicina militar.
B) retaliação da tríplice aliança aos soldados desertores.
C) controle dos relatos oriundos de campos de batalha.
D) emprego de armas biológicas em confrontos transnacionais.
E) circulação de refugiados contaminados em áreas conflagradas.
Resolução Em Texto
Matérias Necessárias para a Solução da Questão
- História Contemporânea (Primeira Guerra Mundial)
- História da Imprensa (Censura e Propaganda de Guerra)
- Interpretação de Texto Historiográfico
Tema/Objetivo Geral:
Compreender como o contexto geopolítico e o controle da informação durante a Primeira Guerra Mundial determinaram o nome equivocado da pandemia de gripe de 1918.
Nível da Questão
- Difícil. A questão é difícil porque o texto, embora forneça as pistas essenciais (“neutralidade espanhola”, “liberdade de imprensa”), não explicita o mecanismo completo. Ele exige que o candidato realize um raciocínio dedutivo complexo: inferir que a “liberdade de imprensa” na Espanha contrastava com uma falta de liberdade (ou seja, censura e controle) nos países em guerra. Sem essa inferência, que depende de conhecimento prévio sobre o funcionamento da propaganda de guerra, a conexão com a alternativa correta não é óbvia.
Gabarito
- C) controle dos relatos oriundos de campos de batalha. Esta alternativa está correta porque os países envolvidos na guerra censuravam drasticamente as notícias sobre a gripe para não abalar o moral das tropas e da população. Esse “controle dos relatos” fez com que a Espanha, neutra e com imprensa livre, parecesse ser o epicentro da doença, pois era o único lugar que noticiava abertamente a epidemia.
PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
Decodificação do Objetivo:
Em bom português, a questão quer que a gente explique o fator decisivo que levou a pandemia a ser batizada de “gripe espanhola”, mesmo que ela não tenha começado na Espanha.
Simplificação Radical (A Analogia Central):
Imagine um palco de teatro escuro, onde estão acontecendo vários pequenos incêndios (surtos da gripe) em diferentes pontos. Todos os diretores dos países em guerra ordenam aos seus funcionários que não acendam nenhuma luz sobre seus próprios focos de incêndio, para não causar pânico na plateia. No entanto, o diretor do teatro espanhol, que não está participando da peça principal (guerra), não tem essa preocupação e deixa seus refletores ligados, mostrando claramente o fogo em seu canto do palco. Para a plateia mundial, que só vê aquela luz, qual é o único incêndio que parece existir? O espanhol. A nossa missão é entender que o problema não foi o fogo na Espanha, mas a escuridão forçada em todos os outros lugares.
Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação):
Nosso plano de ataque será o seguinte:
- Construção do Dossiê do Contexto: No Passo 2, vamos montar um fluxograma detalhado sobre como a informação funcionava (ou não funcionava) durante a Primeira Guerra Mundial.
- Análise Forense das Pistas: No Passo 3, vamos dissecar o texto, palavra por palavra, usando nosso conhecimento do contexto para extrair o significado oculto por trás de termos como “neutralidade” e “liberdade de imprensa”.
- Elaboração da Bússola: Com base na nossa análise, traçaremos o “retrato falado” do fator que determinou o nome da pandemia.
- Interrogatório dos Suspeitos: Usaremos a Bússola para confrontar cada uma das alternativas e identificar a única que corresponde à nossa dedução.
PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Para um caso difícil como este, precisamos de uma ferramenta que mostre a cadeia de causa e efeito de forma impecável. Um fluxograma de raciocínio em texto nos permitirá seguir a trilha lógica sem nos perdermos.
Fluxograma de Raciocínio (em Texto): O Nascimento de um Nome Falso
Etapa 1: O Cenário Global → A Primeira Guerra Mundial (1914-1918)
- FATO: As principais potências mundiais (Alemanha, França, Reino Unido, EUA, etc.) estão em um conflito total.
- IMPLICAÇÃO: A informação se torna uma arma de guerra. Manter o moral das tropas e da população civil é tão importante quanto vencer no campo de batalha. Notícias ruins são vistas como munição para o inimigo.
Etapa 2: A Crise Sanitária → A Pandemia Emerge (1918)
- FATO: Um vírus de gripe altamente letal começa a se espalhar globalmente, inclusive entre os soldados nas trincheiras e nas cidades dos países em guerra.
- IMPLICAÇÃO: Para os governos em guerra, esta é uma notícia catastrófica. Admitir que uma doença está dizimando seus soldados e trabalhadores poderia causar pânico, greves e enfraquecer o esforço de guerra.
Etapa 3: A Reação dos Beligerantes → O “Controle dos Relatos”
- FATO: Os governos da Tríplice Entente e das Potências Centrais impõem uma censura militar rigorosa sobre a imprensa.
- IMPLICAÇÃO: Jornais na França, Alemanha, Reino Unido e EUA são proibidos de publicar notícias sobre a gravidade da epidemia em seus próprios países. Falar sobre a gripe era considerado um ato antipatriótico. O silêncio é imposto.
Etapa 4: A Peça Fora do Jogo → A Neutralidade da Espanha
- FATO: A Espanha não participou da Primeira Guerra Mundial.
- IMPLICAÇÃO: Por ser neutra, a Espanha não tinha os mesmos motivos militares para suprimir informações. Seu governo não impôs o mesmo nível de censura sobre a imprensa.
Etapa 5: A Consequência da Liberdade → A Imprensa Espanhola Noticia
- FATO: Jornais em Madri e em outras cidades espanholas começam a reportar abertamente sobre a misteriosa doença que estava se espalhando, chegando a infectar o rei Afonso XIII.
- IMPLICAÇÃO: Para o resto do mundo, cujos jornais estavam silenciados, as notícias sobre a gripe vinham majoritariamente de uma fonte: a Espanha.
Etapa 6: A Conclusão Lógica (e Equivocada) → O Batismo da Pandemia
- FATO: A cobertura da imprensa internacional, ao repercutir as notícias que podiam ser publicadas, cria uma associação direta entre a gripe e a Espanha.
- IMPLICAÇÃO FINAL: A pandemia, que provavelmente começou em outro lugar (talvez nos EUA), ganha o apelido de “gripe espanhola”, não por sua origem, mas pela origem da notícia sobre ela. O nome é um monumento à censura de guerra.
PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
Agora, vamos mergulhar fundo no texto. Em uma questão difícil, cada palavra é uma pista potencial e a lógica muitas vezes está escondida entre as linhas. Precisamos agir como criptógrafos, decifrando o que o autor nos diz e, mais importante, o que ele nos leva a deduzir.
Execução Sequencial: A Análise Forense do Texto
- Pista 1 (A Chave da Investigação): “…por causa da desinformação em torno da notícia sobre sua origem.”
- Análise Ultra-Didática: O autor nos entrega a chave do cofre logo no início. Ele está dizendo: “Detetive, o mistério do nome ‘gripe espanhola’ não é um caso para um médico, é um caso para um jornalista investigativo”. A arma do crime não é um vírus, é a notícia. O problema não foi biológico, foi informacional. Isso imediatamente elimina qualquer alternativa que fale sobre a doença em si e nos força a focar em como a informação sobre a doença foi manipulada.
- Pista 2 (A Pista Mestra e a Dedução Oculta): “Uma das hipóteses deriva da neutralidade espanhola na Primeira Guerra Mundial e a consequente liberdade de imprensa naquele país, maior do que nos demais países envolvidos no conflito.”
- Análise Ultra-Didática: Esta é a frase mais importante do texto, um verdadeiro quebra-cabeça lógico. Vamos desmontá-la peça por peça:
- A Condição Inicial: “neutralidade espanhola”. A Espanha era a “Suíça” daquele conflito. Não estava em guerra. Isso a coloca em uma posição única. Ela não tem exércitos para proteger com segredos, nem um esforço de guerra para sustentar com propaganda.
- A Consequência Direta: “e a consequente liberdade de imprensa”. A palavra “consequente” é crucial. A liberdade de imprensa não era um acaso; era um resultado da neutralidade. Jornais podiam noticiar o que viam sem o medo de serem acusados de traição.
- O Ponto de Virada (A Dedução Forçada): “maior do que nos demais países envolvidos no conflito”. Aqui está a genialidade da questão e o motivo de sua dificuldade. O texto não nos diz o que estava acontecendo nos outros países, ele nos dá uma comparação e nos obriga a fazer a dedução. É um teste de raciocínio lógico. Se a liberdade na Espanha era maior, então, por uma lógica irrefutável, a liberdade na França, na Alemanha, na Inglaterra e nos EUA era menor. O detetive deve se perguntar: “Por que a liberdade de imprensa seria menor em um país em guerra total?”. A única resposta possível é: CENSURA. Os governos estavam ativamente suprimindo, controlando e silenciando qualquer relato que pudesse prejudicar o moral e o esforço de guerra. A gripe matando soldados aos milhares era, talvez, a pior notícia possível.
- Conclusão da Pista: O texto nos descreve a luz na Espanha para nos forçar a imaginar a escuridão no resto do palco. A história do nome “gripe espanhola” é a história desse contraste: o barulho de uma imprensa livre contra o silêncio imposto de dezenas de imprensas censuradas.
- Análise Ultra-Didática: Esta é a frase mais importante do texto, um verdadeiro quebra-cabeça lógico. Vamos desmontá-la peça por peça:
🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! A armadilha mais sedutora aqui é ler a frase “liberdade de imprensa naquele país” e focar apenas no que aconteceu na Espanha. O verdadeiro segredo da questão é entender que a importância da liberdade espanhola só existe em contraste com a repressão à informação que acontecia secretamente nos países em guerra. A chave não é a Espanha em si, mas a Espanha como um “furo” no bloqueio informativo global.
A Bússola (O Perfil do Culpado)
- Síntese do raciocínio: O nome “gripe espanhola” não foi determinado por um fator biológico ou médico, mas por um fator informacional. Especificamente, pela censura generalizada (o “controle dos relatos”) imposta pelos países na Primeira Guerra Mundial, que silenciou as notícias sobre a doença em seus territórios e, por contraste, deu visibilidade desproporcional às notícias publicadas pela imprensa livre da Espanha neutra.
- Expectativa: A alternativa correta deve apontar para este mecanismo de censura, silenciamento ou controle da informação como o fator determinante.
PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
A) precariedade dos conhecimentos pela medicina militar.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato pode pensar que, como os médicos não entendiam a doença, deram um nome qualquer.
- O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. Embora o conhecimento médico fosse precário, o texto explica a origem do nome por uma razão geopolítica e de imprensa, não por uma razão científica ou médica.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
B) retaliação da tríplice aliança aos soldados desertores.
- A “Narrativa do Erro”: Uma associação vaga com o contexto de guerra.
- O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. O texto não faz qualquer menção a desertores ou retaliações. É uma informação externa e irrelevante para a lógica do argumento.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
C) controle dos relatos oriundos de campos de batalha.
- Análise de Correspondência: Esta alternativa é a correspondência perfeita da nossa Bússola. O “controle dos relatos” é a expressão técnica e precisa para a censura de guerra que os países impuseram à sua imprensa, proibindo-a de noticiar o que acontecia nos campos de batalha e nas cidades. Foi esse controle que criou o vácuo de informação preenchido pelas notícias da Espanha.
- Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
D) emprego de armas biológicas em confrontos transnacionais.
- A “Narrativa do Erro”: Uma confusão sobre pandemias e guerra biológica.
- O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema e Anacronismo. O texto trata de uma pandemia natural e não há qualquer menção ao uso de armas biológicas, que não era uma realidade da Primeira Guerra Mundial.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
E) circulação de refugiados contaminados em áreas conflagradas.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato pensa em como uma doença se espalha durante uma guerra.
- O “Diagnóstico do Erro”: Descrever o Meio, não a Causa do Nome. A circulação de pessoas (soldados, refugiados) certamente ajudou a espalhar o vírus. No entanto, o texto e a questão são sobre o motivo do nome “gripe espanhola”, que se deve à forma como a notícia foi gerenciada, e não à forma como o vírus se propagou.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
Frase de Fechamento: A resposta correta é a (C), pois o nome “gripe espanhola” é um dos maiores exemplos históricos de como o controle da informação e a censura em tempos de guerra podem distorcer a realidade e criar uma narrativa falsa que perdura por mais de um século.
Resumo-flash (A Imagem Mental): A gripe não foi chamada de ‘espanhola’ por nascer na Espanha, mas por ser a única que podia ‘gritar’ seu nome em um mundo silenciado pela guerra.
Para ir Além (A Ponte para o Futuro): O mesmo princípio fundamental – de que a percepção pública é moldada não pelo que acontece, mas pelo que é noticiado – é um pilar da Guerra Híbrida e da Guerra de Informação no século XXI. Quando nações hoje utilizam “fazendas de bots” para inundar as redes sociais com uma narrativa específica ou quando bloqueiam o acesso a sites de notícias estrangeiros durante um conflito, estão empregando a mesma tática de 1918 em uma escala digital: controlar o fluxo de relatos para moldar a percepção global do que está acontecendo. A história da “gripe espanhola” é a lição zero sobre como a guerra pela narrativa é tão crucial quanto a guerra no terreno.
