Adam Smith via o açougueiro e o padeiro não só como indivíduos buscando seus interesses financeiros, mas como pessoas moralmente motivadas dentro de uma sociedade. A base da moral era a empatia e o julgamento, instaurando uma distinção entre o que queremos fazer e o que sentimos que devemos fazer.
COLLIER, P. O futuro do capitalismo. Porto Alegre: LP&M, 2019.
O texto defende uma motivação capitalista para o campo dos negócios, na qual o lucro se mostra associado à
A) consolidação do poder político.
B) procura de satisfação subjetiva.
C) estruturação do monopólio comercial.
D) percepção de responsabilidade ética.
E) conquista do reconhecimento público.
Resolução Em Texto
Matérias Necessárias para a Solução da Questão
- Filosofia (Ética, Filosofia Moral)
- Economia (História do Pensamento Econômico, Capitalismo)
- Sociologia (Ação Social, Relações Econômicas)
- Interpretação de Texto Filosófico
Tema/Objetivo Geral:
A questão exige a interpretação da visão de Adam Smith, conforme apresentada no texto, que complexifica a motivação capitalista ao integrar o autointeresse com uma dimensão moral e ética.
Nível da Questão: Médio
- A questão é considerada de nível médio. Embora o texto forneça as pistas necessárias, ele desafia a visão caricata e popular de Adam Smith como um defensor do egoísmo puro. O candidato precisa interpretar um conceito filosófico com nuances — a ideia de que a busca pelo lucro não é desvinculada de um senso de dever e empatia — e traduzir essa ideia para os termos das alternativas, o que exige um raciocínio mais abstrato do que uma simples localização de informação.
Gabarito: D
- Esta alternativa está correta porque o texto argumenta que, para Adam Smith, a motivação dos agentes econômicos (como o açougueiro e o padeiro) vai além do lucro, incorporando uma base moral de “empatia e o julgamento” que gera um senso do que “devemos fazer”, ou seja, uma responsabilidade ética.
PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
Decodificação do Objetivo: A missão é entender a versão de “motivação capitalista” que o texto atribui a Adam Smith. A questão pergunta: nessa visão, o lucro está ligado a qual outro elemento, além do simples interesse financeiro?
Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine o capitalismo como uma receita de bolo. A visão mais comum diz que o único ingrediente é o “açúcar” do autointeresse. O texto nos diz que a receita original de Adam Smith tinha um segundo ingrediente secreto e fundamental, que equilibra o sabor. Nossa tarefa de detetive é descobrir qual, entre as alternativas, é o nome desse “ingrediente secreto”.
Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação): Nosso plano será o seguinte:
- Identificar a visão comum sobre a motivação do padeiro e do açougueiro.
- Identificar o elemento adicional que Adam Smith, segundo o texto, insere nessa motivação.
- Definir esse elemento adicional com base nas palavras-chave do texto (“empatia”, “julgamento”, “devemos fazer”).
- Encontrar a alternativa que melhor descreve esse conceito.
PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Para desvendar as duas forças que atuam no indivíduo, segundo Smith, vamos usar uma Tabela Comparativa. Ela vai nos ajudar a contrastar a motivação puramente egoísta com a motivação moralmente informada que o texto descreve.
| Característica da Ação | “O que queremos fazer” (Autointeresse Puro) | “O que sentimos que devemos fazer” (Visão de Smith) |
| Força Motriz | O egoísmo, a busca pelo lucro pessoal a qualquer custo. | O autointeresse, mas moderado pela empatia e pelo senso de dever. |
| Mecanismo Interno | Cálculo de ganhos e perdas financeiras. | Empatia (colocar-se no lugar do outro) e julgamento (avaliar a ação moralmente). |
| Resultado | Ação puramente econômica. | Uma ação que equilibra o ganho pessoal com a consideração pelo outro. |
| Em uma palavra | Ganância. | Responsabilidade. |
A tabela mostra que a visão de Smith não nega o autointeresse, mas o insere dentro de uma estrutura moral, onde a responsabilidade pelo impacto de nossas ações é fundamental.
PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
Vamos executar nosso plano, seguindo as pistas do texto.
- A Visão Comum: O texto começa reconhecendo o óbvio: o açougueiro e o padeiro buscam “seus interesses financeiros”. Essa é a base.
- O Elemento Adicional: O “mas” na frase é a chave. Eles são também “pessoas moralmente motivadas”. O texto explica que a “base da moral era a empatia e o julgamento”.
- Definindo o Elemento: Essa moralidade cria uma tensão interna, uma “distinção entre o que queremos fazer” (lucrar) “e o que sentimos que devemos fazer” (agir corretamente). Esse “dever” não nasce do nada; ele vem da capacidade de julgar nossas ações de um ponto de vista ético, considerando os outros.
🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! A armadilha mais sedutora é ouvir “Adam Smith” e “capitalismo” e pular para a conclusão de que tudo se resume a egoísmo e lucro. Essa é a caricatura de Smith. O texto nos oferece uma visão mais profunda e nos pede para interpretá-la fielmente. Ignorar a segunda parte da explicação sobre a moralidade é o erro mais comum.
- A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: O texto descreve um modelo de capitalismo no qual as ações econômicas não são puramente instrumentais (para obter lucro), mas também são avaliadas por um compasso moral interno, fundamentado na empatia.
- Expectativa: A alternativa correta deve conectar a ideia de lucro a um conceito de moral, dever, ética ou responsabilidade para com os outros.
PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
Agora, vamos analisar cada suspeito com base na nossa “Expectativa”.
- A) consolidação do poder político.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato pode confundir poder econômico com poder político.
- O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. O texto discute a motivação individual e moral dos agentes econômicos, não a sua influência na estrutura política do Estado.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
- B) procura de satisfação subjetiva.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato pensa que “sentir que devemos fazer” é uma forma de satisfação pessoal.
- O “Diagnóstico do Erro”: Imprecisão Conceitual. “Satisfação subjetiva” é um termo muito vago. Poderia significar a satisfação egoísta de enriquecer. O texto é mais específico: a motivação vem da empatia e de um senso de dever, o que implica uma relação com o outro, não apenas um sentimento interno e isolado.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
- C) estruturação do monopólio comercial.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato associa capitalismo a grandes corporações e monopólios.
- O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. O texto foca na microeconomia da motivação do padeiro e do açougueiro, indivíduos em um mercado, e não em estruturas de mercado como o monopólio.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
- D) percepção de responsabilidade ética.
- Análise de Correspondência: Esta alternativa é o alvo perfeito. A “responsabilidade ética” é a melhor tradução para o conceito de “sentir que devemos fazer” algo, com base na “empatia e no julgamento”. Ela captura a essência da dimensão moral que Smith, segundo o texto, associa à busca por lucro.
- Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
- E) conquista do reconhecimento público.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato pensa que agir moralmente é uma forma de buscar uma boa reputação.
- O “Diagnóstico do Erro”: Confundir Motivação Intrínseca com Extrínseca. Embora uma boa reputação possa ser uma consequência, o texto descreve o mecanismo moral como interno (“o que sentimos que devemos fazer”). A motivação é a própria consciência ética, não a busca por aplausos.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
- Frase de Fechamento: Confirmamos que a alternativa (D) é a correta, pois, na visão complexa de Adam Smith, o motor do capitalismo não é apenas a busca pelo lucro, mas uma busca pelo lucro guiada pela percepção de responsabilidade ética.
- Resumo-flash (A Imagem Mental): Lembre-se disto: “Para Smith, a mão invisível do mercado usa uma luva de ética.”
- 🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro): Este conceito é a base do debate moderno sobre ESG (Environmental, Social, and Governance) no mundo corporativo. Empresas hoje são cada vez mais pressionadas a provar que não buscam apenas o lucro para seus acionistas (“o que queremos fazer”), mas que também consideram seu impacto no meio ambiente, na sociedade e em sua própria governança (“o que sentimos que devemos fazer”). A discussão que Adam Smith iniciou no século XVIII sobre a moralidade nos negócios é, hoje, o centro da definição do que é ser uma empresa de sucesso no século XXI
