Fonte: USDA, 2020. Elaboração CNA.
*Fatia de participação na produção mundial.
Disponível em: www.cnabrasil.org.br. Acesso em: 15 out. 2021.
Qual condição favoreceu o cenário produtivo exposto na figura?
A) Redução do poder de compra da população brasileira.
B) Ampliação da entrada do capital agroindustrial no campo.
C) Diminuição do uso de trabalho especializado na agropecuária.
D) Valorização da moeda nacional em relação ao dólar americano.
E) Inclusão de pequenas propriedades em cultivos de subsistência.
Resolução Em Texto
Matérias Necessárias para a Solução da Questão
- Geografia (Geografia Agrária, Agronegócio, Commodities)
- Economia (Balança Comercial, Capitalismo Agrário)
- Interpretação de Gráficos e Dados Visuais
Tema/Objetivo Geral:
A questão exige a interpretação de um infográfico sobre a produção agrícola brasileira para identificar a condição socioeconômica fundamental que sustenta o modelo de agronegócio de exportação representado.
Nível da Questão: Médio
- A questão é de nível médio porque não se limita à simples leitura dos dados do gráfico. Ela exige que o candidato faça uma inferência, conectando o cenário produtivo (alta produção e altíssima taxa de exportação) com seu motor causal. É preciso um conhecimento prévio sobre a estrutura do agronegócio brasileiro – que é intensivo em capital e tecnologia e voltado para o mercado global – para escolher a alternativa correta com segurança.
Gabarito: B
- Esta alternativa está correta porque o modelo produtivo de larga escala, mecanizado e focado em commodities para exportação, como o ilustrado, só é possível com investimentos massivos de grandes empresas e do sistema financeiro no campo, caracterizando a entrada do capital agroindustrial.
PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
Decodificação do Objetivo: A missão é olhar para o infográfico, entender o “filme” que ele está mostrando sobre a agricultura brasileira e, então, descobrir qual foi o “patrocinador” que tornou essa superprodução possível. A questão pede a causa, a condição que criou o cenário que vemos nos números.
Simplificação Radical (A Analogia Central): Pense em uma família que tem uma cozinha gigantesca e ultramoderna. Eles produzem centenas de pratos sofisticados todos os dias. No entanto, a família quase não come essa comida; eles a vendem quase toda para restaurantes de luxo no exterior. O infográfico é o cardápio dessa cozinha. A questão não é sobre os pratos, mas sim: “Como eles conseguiram montar essa cozinha industrial em casa?”. A resposta óbvia é que eles receberam um grande investimento de uma rede de restaurantes (o “capital agroindustrial”) que queria exatamente aqueles pratos para o mercado global. O verdadeiro desafio aqui é identificar esse investimento como a causa de tudo.
Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação): Nosso plano será o seguinte:
- Analisar o Infográfico: O que os dados de “Produz”, “Exporta” e “Share” nos dizem? Qual é o padrão?
- Definir o “Cenário Produtivo”: Com base no padrão, que tipo de agricultura é essa? É para consumo local ou para o mercado externo?
- Investigar a Causa: O que é necessário para sustentar esse tipo de agricultura? Dinheiro? Tecnologia? Mão de obra?
- Formular a Expectativa: Com base na investigação, o que esperamos encontrar na alternativa correta?
PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Para entender o que está por trás dos números do gráfico, vamos usar uma Tabela Comparativa que contrasta os dois principais modelos de agricultura. Isso nos ajudará a localizar exatamente onde o cenário do infográfico se encaixa.
| Característica | Modelo 1: Agricultura Familiar / Subsistência | Modelo 2: Agronegócio de Exportação (o do gráfico) |
| Foco Principal | Mercado interno, segurança alimentar da população. | Mercado externo, geração de divisas (dólares). |
| Escala de Produção | Pequenas e médias propriedades (minifúndios). | Grandes propriedades (latifúndios), monocultura. |
| Tecnologia | Uso intensivo de mão de obra, baixa mecanização. | Uso intensivo de tecnologia, máquinas, insumos. |
| Capital | Baixo investimento, capital familiar. | Altíssimo investimento, capital de empresas e bancos. |
| Produtos Típicos | Arroz, feijão, mandioca, hortaliças. | Soja, açúcar, café, suco de laranja, carnes. |
A tabela mostra, sem sombra de dúvida, que o infográfico descreve o Modelo 2, cuja característica definidora é a necessidade de altíssimo investimento de capital.
PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
Vamos executar nosso plano de ataque.
- Análise do Infográfico: O padrão é cristalino. Para produtos como açúcar, café, soja, carne de frango e carne bovina, o Brasil é o 1º ou 2º maior produtor mundial, mas é quase sempre o 1º maior exportador. A linha “Share” é reveladora: 76% do suco de laranja e 51% da soja produzidos são enviados para fora.
- Definição do Cenário: Este é um cenário de uma agricultura extremamente produtiva, mas voltada para a exportação. Não é uma agricultura que tem como prioridade alimentar a própria população, mas sim vender commodities no mercado global.
- A Causa Necessária: Para produzir 117 milhões de toneladas de soja ou 101 milhões de toneladas de milho, não basta ter terra. É preciso um investimento colossal em máquinas (tratores, colheitadeiras), tecnologia (sementes transgênicas, fertilizantes, agrotóxicos) e logística (silos, portos). Esse dinheiro vem de grandes empresas, bancos e fundos de investimento – o chamado capital agroindustrial.
🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! O erro mais comum aqui é o “Raciocínio da Abundância”. Ao ver números tão grandes de produção, é fácil pensar: “Que ótimo, o Brasil produz comida para todo mundo!”. A armadilha é ignorar que a maior parte dessa produção não fica no prato do brasileiro. O modelo de exportação pode, paradoxalmente, levar ao aumento do preço dos alimentos no mercado interno e à insegurança alimentar, pois as terras e os investimentos são direcionados para produtos que dão mais lucro em dólar.
- A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: O infográfico exibe um modelo agrícola de larga escala, tecnificado e focado na exportação. Esse modelo é, por definição, capital-intensivo.
- Expectativa: A alternativa correta deve mencionar a entrada de capital, investimento, modernização industrial ou a expansão do agronegócio como a causa do cenário.
PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
Agora, vamos confrontar cada alternativa com o perfil do nosso culpado.
- A) Redução do poder de compra da população brasileira.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato pensa na consequência do modelo, e não na causa.
- O “Diagnóstico do Erro”: Confundir Causa com Consequência. Como vimos na armadilha, a priorização da exportação pode levar à inflação dos alimentos internamente, o que reduz o poder de compra. Isso é um efeito, não a condição que favoreceu o cenário.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
- B) Ampliação da entrada do capital agroindustrial no campo.
- Análise de Correspondência: Esta alternativa é um alvo perfeito. É exatamente a “ampliação da entrada do capital” que financia a tecnologia, a escala e a logística necessárias para transformar o campo brasileiro nesta potência exportadora. É a causa fundamental do Modelo 2 que identificamos.
- Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
- C) Diminuição do uso de trabalho especializado na agropecuária.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato pode pensar que máquinas substituem todos os trabalhadores.
- O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Direta. Este modelo aumenta a necessidade de trabalho especializado: agrônomos, engenheiros, operadores de máquinas complexas, especialistas em logística e mercado financeiro.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
- D) Valorização da moeda nacional em relação ao dólar americano.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato tem uma noção inversa de como a taxa de câmbio afeta o comércio.
- O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Direta. Uma moeda nacional valorizada (Real forte) torna os produtos brasileiros mais caros no exterior, prejudicando as exportações. O que favorece a exportação é o contrário: a desvalorização da moeda (Real fraco).
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
- E) Inclusão de pequenas propriedades em cultivos de subsistência.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato idealiza o campo como um lugar de pequenas fazendas.
- O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Direta. O cenário do gráfico é o oposto do cultivo de subsistência em pequenas propriedades. É o modelo da monocultura em latifúndios que, historicamente, muitas vezes avança sobre as pequenas propriedades.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
- Frase de Fechamento: Confirmamos que a alternativa (B) é a correta, pois a impressionante capacidade de produção e exportação do Brasil, mostrada no gráfico, é um reflexo direto da ampliação da entrada do capital agroindustrial no campo, que modernizou e reorientou a agricultura para o mercado global.
- Resumo-flash (A Imagem Mental): Lembre-se disto: “O campo virou empresa, e o cliente é o mundo.”
- 🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro): O mesmo princípio de “capital que reorienta a produção para o mercado externo” pode ser visto na indústria do futebol. Um time local (agricultura familiar) revela jovens talentos para a alegria da torcida local (mercado interno). De repente, o clube é comprado por um fundo de investimento bilionário (capital agroindustrial). O time passa a contratar estrelas internacionais e a focar em torneios globais e venda de direitos de transmissão para o exterior (exportação). A “produção” de vitórias e o “share” de receita internacional disparam, como no gráfico. No entanto, o preço dos ingressos sobe, e o time perde a conexão com a comunidade local, que já não consegue mais pagar para assistir aos jogos (redução do poder de compra interno). A lógica do capital é a mesma, seja no campo ou no estádio.
