Moradores de Berlim protestaram contra a demolição de um trecho do muro que dividiu a cidade durante quase três décadas. Tratado como patrimônio cultural e histórico da cidade, o East Side Gallery, repleto de grafites emblemáticos, está na mira de uma construtora que pretende levantar um condomínio de luxo às margens do Rio Spree, que corta a cidade.
ALMEIDA, R. Alemães impedem demolição de último trecho original do muro de Berlim. Disponível em: http://operamundi.uol.com.br. Acesso em: 2 fev. 2021 (adaptado).
A demolição do símbolo histórico mencionado representa uma
A) violação da memória coletiva.
B) alteração das fronteiras políticas.
C) adesão à arquitetura neoclássica.
D) negação das influências orientais.
E) reorganização da mobilidade urbana.
Resolução Em Texto
Matérias Necessárias para a Solução da Questão
- História (Guerra Fria, Queda do Muro de Berlim, História Contemporânea)
- Sociologia (Memória Coletiva, Patrimônio Cultural)
- Geografia (Geografia Urbana, Espaço Simbólico)
Tema/Objetivo Geral:
A questão busca avaliar a compreensão sobre o valor simbólico de um patrimônio histórico e o que a sua destruição representa para a identidade de uma comunidade.
Nível da Questão: Fácil
- A questão é considerada fácil porque o texto estabelece uma conexão muito direta entre o objeto (o Muro de Berlim), sua função (“patrimônio cultural e histórico”) e o conflito (demolição para fins comerciais). A ideia de que destruir um marco histórico afeta a memória de um povo é bastante intuitiva, e as alternativas incorretas são claramente distantes do tema central, facilitando a eliminação.
Gabarito: A
- Esta alternativa está correta porque o Muro de Berlim não é apenas uma estrutura física, mas um símbolo carregado de significados históricos e sociais para a população da cidade e do mundo. Destruí-lo para construir um condomínio significa apagar uma parte física da história compartilhada, configurando uma violação da memória coletiva.
PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
Decodificação do Objetivo: A missão é clara: temos um conflito entre preservar um símbolo histórico (o Muro de Berlim) e construir algo novo (um condomínio). A questão quer saber o que, em termos sociais e culturais, a destruição desse símbolo significa.
Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine que o álbum de fotos da sua família, com todas as memórias boas e ruins, fosse ser queimado para dar lugar a um catálogo de móveis modernos. A demolição do Muro é exatamente isso. Ele é o “álbum de fotos” de Berlim, um registro físico de um passado doloroso, mas fundamental para a identidade da cidade. A questão pergunta: qual é o nome do crime de “queimar o álbum de fotos da cidade”?
Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação): Nosso plano será o seguinte:
- Identificar o objeto central do texto: O que está em disputa?
- Identificar o valor desse objeto, segundo o texto: Por que ele é importante?
- Identificar a ameaça: O que a construtora quer fazer e por quê?
- Conectar a ameaça ao valor: Qual o impacto da destruição do objeto em seu valor simbólico?
PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Para entender o valor do Muro, vamos criar um Dossiê do Patrimônio, como se fôssemos detetives da UNESCO analisando o caso.
Dossiê da Investigação: Muro de Berlim (East Side Gallery)
- Objeto: Trecho remanescente do Muro de Berlim.
- Status Oficial (segundo o texto): “Tratado como patrimônio cultural e histórico da cidade”.
- Função Simbólica:
- Passado: Símbolo da Guerra Fria, da divisão do mundo, da opressão.
- Presente (East Side Gallery): Símbolo da reunificação, da liberdade, da arte como protesto (“repleto de grafites emblemáticos”).
- Tipo de Valor: Não é um valor funcional (o muro não “serve” mais para dividir), mas um valor de memória. Ele conta uma história.
- Ameaça: Demolição para fins de especulação imobiliária (“levantar um condomínio de luxo”).
- Conflito Central: Tensão entre o Valor de Memória (coletivo, histórico, imaterial) e o Valor de Mercado (privado, econômico, material).
Diagnóstico do Detetive: A destruição do muro para construir um condomínio representa a sobreposição do valor de mercado sobre o valor de memória. É uma ação que privatiza e apaga um espaço que carrega a história compartilhada de toda uma cidade e, por extensão, do mundo.
PASSO 3 – INTERPRETAção GUIADA (MÃO NA MASSA)
Vamos executar nosso plano.
- Objeto em Disputa: Um trecho do Muro de Berlim, o East Side Gallery.
- Valor do Objeto: É um “patrimônio cultural e histórico”. Sua importância não está nos tijolos, mas na história que eles representam.
- A Ameaça: Uma construtora quer demolir o patrimônio para construir um condomínio, ou seja, substituir um símbolo público por um empreendimento privado.
- Impacto da Ameaça: Destruir um patrimônio histórico que simboliza um período crucial da vida da cidade é como arrancar uma página do livro de história de Berlim. É apagar um registro físico que ajuda as pessoas a lembrarem, a aprenderem e a sentirem sua própria história.
🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! A armadilha aqui é pensar de forma puramente funcional ou literal. Um candidato poderia pensar: “O muro não serve mais para nada, então qual o problema em derrubá-lo para construir moradias?”. Esse raciocínio ignora completamente a dimensão simbólica do espaço. A questão não é sobre a função prática do muro, mas sobre seu significado como um monumento.
- A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: O texto descreve um conflito onde um interesse econômico privado ameaça destruir um objeto que serve como um repositório físico da história e da identidade compartilhada de uma comunidade.
- Expectativa: A alternativa correta deve descrever essa destruição como um ataque à história, à identidade ou à memória compartilhada do povo.
PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
Agora, vamos analisar cada uma das alternativas.
- A) violação da memória coletiva.
- Análise de Correspondência: Esta alternativa é um alvo perfeito. O “patrimônio cultural e histórico” é exatamente o suporte físico da “memória coletiva” de uma sociedade. Demoli-lo é, portanto, uma “violação”, um ataque a essa memória compartilhada. É “queimar o álbum de fotos” da cidade.
- Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
- B) alteração das fronteiras políticas.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato associa “muro” a “fronteira” de forma literal.
- O “Diagnóstico do Erro”: Anacronismo / Interpretação Literal. O Muro de Berlim foi uma fronteira política no passado. Hoje, ele é um monumento histórico. Sua demolição não alteraria nenhuma fronteira política atual, pois a Alemanha já está unificada.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
- C) adesão à arquitetura neoclássica.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato pode pensar que o novo condomínio seguirá um estilo arquitetônico específico.
- O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. O texto não faz nenhuma menção ao estilo arquitetônico do condomínio a ser construído. O foco do conflito não é estético, mas sim a disputa entre memória e mercado.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
- D) negação das influências orientais.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato lembra que o muro separava Berlim Oriental (comunista, sob influência soviética) e Ocidental.
- O “Diagnóstico do Erro”: Imprecisão Conceitual. Preservar o muro como patrimônio histórico não é celebrar a influência oriental, mas sim lembrar do período da divisão. A demolição não seria uma “negação das influências orientais”, mas sim um apagamento da memória da própria divisão, que afetou ambos os lados.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
- E) reorganização da mobilidade urbana.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato pensa na função prática: demolir um muro pode abrir espaço para ruas e melhorar o trânsito.
- O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema (Foco no Funcional, não no Simbólico). Conforme a “Armadilha Clássica”, o conflito descrito não é sobre planejamento urbano ou trânsito. O texto deixa claro que a questão é o valor do muro como “patrimônio cultural e histórico”. Embora a demolição pudesse ter um efeito na mobilidade, essa não é a representação central do ato.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
- Frase de Fechamento: Confirmamos que a alternativa (A) é a correta, pois a demolição de um patrimônio como o Muro de Berlim é um ataque direto aos referenciais físicos que sustentam a memória coletiva de uma sociedade, trocando um significado histórico compartilhado por um interesse econômico privado.
- Resumo-flash (A Imagem Mental): Lembre-se disto: “Derrubar um monumento não é limpar o terreno, é apagar a memória.”
- 🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro): O mesmo princípio se aplica à preservação digital. Hoje, grande parte da nossa “memória coletiva” não está em muros de concreto, mas em servidores, sites e redes sociais. Pense em um grande arquivo online de jornais antigos ou um fórum de internet que existiu por décadas. Se a empresa que o mantém decide, por razões financeiras, “demolir” esse servidor e apagar todo o conteúdo, ela está cometendo uma forma de “violação da memória coletiva” digital. O conflito entre o valor de mercado (custo de manutenção do servidor) e o valor de memória (as discussões, fotos e histórias ali contidas) é exatamente o mesmo do Muro de Berlim, apenas em uma nova mídia.
