Entre esses preconceitos estava o Canibalismo. A prática não era, porém, uma mentira, uma invenção europeia, mas um ritual controlado por regras. Entre os tupis, por exemplo, os guerreiros se sentiam honrados quando morriam em um banquete canibal. Para os europeus, no entanto, comer carne humana era abominável, pois nem mesmo os leões ingeriam seus semelhantes. Portanto, para os conquistadores, o canibalismo era sinônimo de barbarismo e da incapacidade de se autogovernar.
RAMINELLI, R. Canibalismo para alemão ver. In: FIGUEIREDO, L. (Org.) História do Brasil para ocupados. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2013 (adaptado).
No texto, europeus e ameríndios atribuíram à prática relatada, respectivamente, o significado de
A) selvageria – empoderamento.
B) impetuosidade – resistência.
C) fanatismo – humilhação.
D) intolerância – violência.
E) repressão – justiça.
Resolução Em Texto
Matérias Necessárias para a Solução da Questão
- História do Brasil (Período Colonial, Contato entre Europeus e Indígenas)
- Antropologia (Relativismo Cultural, Etnocentrismo)
- Sociologia (Rituais Sociais)
- Interpretação de Texto
Tema/Objetivo Geral:
A questão avalia a capacidade de interpretar as diferentes visões de mundo (europeia e ameríndia) sobre a prática do canibalismo ritual, distinguindo a perspectiva etnocêntrica da perspectiva cultural interna.
Nível da Questão: Fácil
- A questão é considerada fácil porque o texto é extremamente explícito ao definir o significado da prática para cada grupo. Ele afirma que para os europeus o canibalismo era “sinônimo de barbarismo”, e para os ameríndios, morrer no ritual era motivo de “honra”. A conexão entre “barbarismo” e “selvageria”, e entre “honra” e “empoderamento” é direta, exigindo pouca inferência do candidato.
Gabarito: A
- Esta alternativa está correta porque sintetiza perfeitamente as duas visões: para os europeus, a prática era um ato de selvageria (sinônimo de barbarismo); para os ameríndios, participar do ritual (seja como devorador ou devorado) era um ato de empoderamento e honra, ligado à aquisição da força do inimigo.
PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
Decodificação do Objetivo: A missão é atuar como um antropólogo. Temos uma única prática (o canibalismo) e dois grupos diferentes (europeus e ameríndios). A questão pede para identificarmos o “rótulo” ou o “significado” que cada grupo colocava nessa mesma prática.
Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine uma tatuagem facial tribal. Para um turista ocidental, a tatuagem pode parecer apenas uma decoração exótica ou até “selvagem”. Para o membro da tribo, cada traço pode significar sua linhagem, suas conquistas como guerreiro, seu status na comunidade – um símbolo de “empoderamento” e identidade. A prática é a mesma; o significado é radicalmente diferente. O verdadeiro desafio aqui é simplesmente extrair do texto qual era o significado para cada um dos grupos.
Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação): Nosso plano será o seguinte:
- Isolar a Perspectiva Europeia: O que o texto diz que os europeus pensavam sobre o canibalismo?
- Isolar a Perspectiva Ameríndia: O que o texto diz que os ameríndios (tupis) pensavam sobre o ritual?
- Estruturar a Resposta: Montar um par de palavras que corresponda a (Europeus – Ameríndios).
- Confrontar com as Alternativas: Encontrar a opção que se encaixa perfeitamente nesse par.
PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Para organizar as duas visões de mundo conflitantes, a ferramenta ideal é uma Tabela Comparativa de Perspectivas.
| Aspecto da Análise | Visão Europeia (Etnocêntrica) | Visão Ameríndia (Cultural/Ritualística) |
| Natureza do Ato | “Abominável”, “barbarismo”. | “Ritual controlado por regras”. |
| Significado do Ato | Incapacidade de se autogovernar, animalidade (“nem mesmo os leões…”). | Atribuição de honra ao guerreiro sacrificado. |
| Atitude | Julgamento moral, repulsa. | Aceitação, orgulho, aquisição de poder simbólico. |
| Palavra-Chave | Selvageria / Barbárie. | Honra / Força / Empoderamento. |
A tabela deixa claro que se trata de um choque cultural clássico, onde um grupo julga o outro com base em seus próprios valores (etnocentrismo), enquanto o outro opera dentro de uma lógica simbólica e ritualística própria.
PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
Vamos executar nosso plano, seguindo as pistas do texto.
- Perspectiva Europeia: O texto é direto: “para os conquistadores, o canibalismo era sinônimo de barbarismo“. Barbarismo é sinônimo de selvageria.
- Perspectiva Ameríndia: O texto nos conta que o ritual era “controlado por regras” e que “os guerreiros se sentiam honrados quando morriam em um banquete canibal”. Sentir honra em um ritual que, para o seu povo, significa absorver a coragem do inimigo, é uma forma de empoderamento simbólico.
- Montando o Par: A resposta deve ter a seguinte estrutura: (Selvageria / Barbárie) – (Honra / Empoderamento).
🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! A armadilha é aplicar o seu próprio juízo de valor (que provavelmente é o mesmo dos europeus do texto) a ambas as colunas. É natural sentir repulsa pela ideia, mas a questão não pede a sua opinião. Ela pede para você identificar a visão dos ameríndios, conforme descrita no texto. O erro é não conseguir se distanciar do próprio preconceito e não reconhecer a lógica interna da outra cultura.
- A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: Nossa investigação revelou duas visões antagônicas: a europeia, que via o ato como prova de inferioridade e barbárie, e a ameríndia, que o via como um ritual complexo, gerador de honra e poder.
- Expectativa: A alternativa correta deve apresentar um par de palavras que capture essa oposição: um termo negativo para a visão europeia e um termo positivo ou de poder para a visão ameríndia.
PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
Agora, vamos confrontar cada alternativa com a nossa expectativa.
- A) selvageria – empoderamento.
- Análise de Correspondência: Esta alternativa é o alvo perfeito. “Selvageria” corresponde diretamente a “barbarismo” (visão europeia). “Empoderamento” captura a ideia de um ritual que confere honra e poder ao indivíduo e ao grupo (visão ameríndia).
- Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
- B) impetuosidade – resistência.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato pode associar a guerra e o canibalismo à “impetuosidade” dos ameríndios e interpretar o ato como uma forma de “resistência” cultural.
- O “Diagnóstico do Erro”: Imprecisão Conceitual. O texto não descreve o canibalismo como um ato de “resistência” contra os europeus, mas como um ritual interno entre diferentes grupos tupis. Além disso, “impetuosidade” não captura a essência do julgamento moral europeu, que era de “barbarismo”, não de simples impulsividade.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
- C) fanatismo – humilhação.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato foca na ideia de ritual e o chama de “fanatismo”, e pode pensar que ser comido é uma “humilhação”.
- O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Direta (para a segunda parte). Primeiramente, o texto não toca no assunto fanatismo” como uma visão europeia acerca do canibalismo, mas uma visão de barbárie. Ademais, o texto diz explicitamente que os guerreiros se sentiam “honrados” ao morrer no banquete, o exato oposto de “humilhação”.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
- D) intolerância – violência.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato usa termos genéricos que parecem se aplicar à situação.
- O “Diagnóstico do Erro”: Generalização Excessiva. Embora a visão europeia fosse de “intolerância” e o ato envolvesse “violência”, esses termos são muito amplos e não capturam os significados específicos que cada cultura atribuía ao ritual. A visão europeia era mais do que intolerância, era um juízo de barbárie. E para os ameríndios, era mais do que simples violência, era um ritual de honra.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
- E) repressão – justiça.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato pode pensar que a visão europeia era de “reprimir” a prática e que, para os ameríndios, o ritual era uma forma de “justiça” ou vingança.
- O “Diagnóstico do Erro”: Imprecisão Conceitual. “Repressão” é a ação que os europeus tomaram, não o significado que eles davam ao ato. E embora o ritual tivesse uma dimensão de vingança, chamá-lo de “justiça” é aplicar um conceito ocidental. O termo mais adequado para o que o guerreiro ganhava era honra e poder, ou seja, “empoderamento”.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
- Frase de Fechamento: Confirmamos que a alternativa (A) é a correta, pois ela captura com precisão o choque de visões: o etnocentrismo europeu, que rotulou a prática como selvageria, e a lógica ritualística tupi, para a qual o canibalismo era uma fonte de empoderamento e honra.
- Resumo-flash (A Imagem Mental): Lembre-se disto: “Para o europeu, era um crime; para o tupi, era uma cerimônia.”
- 🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro): O mesmo choque de perspectivas acontece hoje em debates sobre práticas culturais e econômicas. Pense na relação de alguns povos indígenas da Amazônia com a floresta. Para a visão ocidental capitalista, a floresta é um conjunto de “recursos” a serem explorados (madeira, minério) – uma visão de utilidade. Para os povos que vivem lá, a floresta é uma entidade viva, um lar sagrado, com a qual se tem uma relação de parentesco e respeito – uma visão de integração. A mesma “coisa” (a floresta) tem significados radicalmente diferentes. O conflito entre “selvageria” (visão europeia sobre o canibalismo) e “empoderamento” (visão tupi) é o mesmo conflito entre “recurso a ser extraído” (visão capitalista sobre a floresta) e “lar a ser respeitado” (visão indígena). É o eterno embate entre visões de mundo.
