Questão 77 caderno azul ENEM 2025 Dia 1


Carro elétrico, uma miragem ecológica

A mudança para a eletromobilidade de fato promove uma alteração no consumo de recursos naturais. Hoje, amplamente dependentes do petróleo, nossos modais de transporte poderiam se tornar cada vez mais dependentes de trinta metais raros. Gálio, tântalo, cobalto, platinoides, tungstênio, metais de terras-raras: uma mina contém apenas ínfimas quantidades desses metais dotados de fabulosas propriedades eletrônicas, ópticas e magnéticas.

PITRON, G. Revolução tecnológica, transformação geopolítica. Disponível em: https://diplomatique.org.br. Acesso em: 10 dez. 2018.

No que se refere ao desenvolvimento sustentável, a charge e o texto indicam uma contradição no uso da tecnologia alternativa derivada do seguinte aspecto:

A) Necessidade de fontes não renováveis.

B) Padronização dos modelos produtivos.

C) Demanda de mão de obra qualificada.

D) Precariedade da legislação industrial.

E) Utilização de materiais recicláveis.

Resolução Em Texto

  • Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
    • Interpretação de Linguagem Verbal e Não Verbal (Texto e Charge)
    • Questões Ambientais (Desenvolvimento Sustentável, Fontes de Energia, Mineração)
    • Sociologia (Sociedade de Consumo, Tecnologia)
  • Tema/Objetivo Geral: Identificar a contradição inerente ao carro elétrico, que reside na dependência de recursos não renováveis e processos poluentes em sua cadeia de produção, apesar de sua imagem “limpa” no ponto de uso.
  • Nível da Questão: Médio.
    •  A questão exige a capacidade de sintetizar informações de duas mídias diferentes (uma visual e uma textual) que, embora apontem para problemas distintos (fonte de energia vs. fonte de materiais), convergem para a mesma contradição central sobre sustentabilidade.
  • Gabarito: A
    • A alternativa está correta porque tanto a charge (que critica a fonte poluente da eletricidade) quanto o texto (que critica a extração de metais raros) apontam para o mesmo problema: a dependência de fontes de energia e matéria-prima que são finitas e/ou ambientalmente destrutivas, ou seja, não renováveis.

PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Decodificação do Objetivo: Em bom português, a missão é: “A charge e o texto concordam que o carro elétrico não é tão ecológico quanto parece. Eles mostram que existe uma contradição. Nossa tarefa é identificar qual aspecto fundamental causa essa contradição.”

Simplificação Radical (A Analogia Central): Pense no carro elétrico como um prato sofisticado servido em um restaurante de luxo. A aparência do prato (o carro na cidade limpa) é impecável. No entanto, a charge nos mostra que a cozinha dos fundos (a usina de energia) é imunda e exploradora. O texto, por sua vez, nos conta que os ingredientes (os metais raros) vêm de uma “fazenda” distante, onde a extração é predatória e os recursos são escassos. A questão nos pede para dizer: qual é o problema central tanto na cozinha quanto na fazenda?

Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação):

  • Analisar a Prova 1 (A Charge): Vamos decodificar a crítica visual da charge.
  • Analisar a Prova 2 (O Texto): Vamos extrair a crítica principal do argumento de G. Pitron.
  • Encontrar o Veredito Comum: Vamos sobrepor as duas críticas para encontrar o princípio contraditório que ambas denunciam.
  • Realizar a Autópsia: Vamos julgar cada alternativa para ver qual delas descreve com precisão esse veredito comum.

PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para este caso, a melhor ferramenta é uma Tabela Comparativa: A Miragem Ecológica. Ela nos ajudará a contrastar a imagem vendida com a realidade oculta, conforme as evidências.

Ponto de AnáliseA Aparência “Ecológica” (A Miragem)A Realidade Oculta (A Contradição)
O carro em uso na cidadeZero emissão de poluentes no escapamento. Silencioso. Promove um ambiente urbano limpo e agradável (lado esquerdo da charge).A poluição não desaparece, ela é apenas transferida para outro lugar.
A Fonte da Eletricidade (Crítica da Charge)A energia vem de uma tomada “limpa” na parede.A eletricidade é frequentemente gerada em usinas termelétricas (a carvão, por exemplo) que são altamente poluentes e dependem de combustíveis fósseis não renováveis.
A Fonte dos Materiais (Crítica do Texto)É uma tecnologia moderna e sustentável.A produção de baterias e componentes depende da mineração de “metais raros” encontrados em “ínfimas quantidades”, ou seja, recursos finitos e não renováveis.

Conclusão Forense da Tabela: Ambas as peças de evidência atacam a mesma falha no argumento “ecológico”. Elas mostram que a sustentabilidade aparente do carro elétrico é uma ilusão, pois sua cadeia produtiva (tanto de energia quanto de materiais) depende fundamentalmente de fontes não renováveis.


PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Nossa tabela já desvendou a miragem.

  • A Charge: Mostra um contraste brutal. Do lado esquerdo, um mundo limpo e feliz. Do lado direito, “atrás do muro”, a realidade: um ambiente degradado e pessoas sofrendo para gerar a eletricidade, provavelmente a partir de uma fonte suja como o carvão (um recurso não renovável).
  • O Texto: É explícito. A “eletromobilidade” nos tornaria dependentes de “metais raros” extraídos de minas com “ínfimas quantidades”. Recursos raros e finitos são, por definição, não renováveis.

A contradição é clara: promove-se uma solução “sustentável” para o futuro que é construída sobre uma base insustentável de recursos finitos.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨

CUIDADO! O erro mais comum é o “pensamento de escapamento”. A armadilha é julgar o impacto ambiental de um carro apenas pelo que sai (ou não sai) de seu escapamento. As evidências nos forçam a adotar um “pensamento de ciclo de vida”, analisando o impacto desde a extração da matéria-prima e a geração de energia até o descarte final do produto.

A Bússola (O Perfil do Culpado):

  • Síntese do raciocínio: A investigação conjunta da charge e do texto revela que a contradição do carro elétrico está em sua dependência de recursos finitos e/ou poluentes em sua cadeia de produção — seja o carvão para a eletricidade ou os metais raros para as baterias.
  • Expectativa: A alternativa correta deve apontar para essa dependência de fontes não renováveis como o cerne da contradição.

PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

Vamos agora confrontar cada alternativa com as conclusões da nossa investigação.

  • A) Necessidade de fontes não renováveis.
    • Análise de Correspondência: Esta alternativa é o retrato falado da nossa Bússola. O texto aponta para os metais raros (finitos, não renováveis) e a charge sugere usinas de energia baseadas em combustíveis fósseis (não renováveis). A dependência de fontes não renováveis é a contradição central.
    • Conclusão: 🟢 Alternativa correta.
  • B) Padronização dos modelos produtivos.
    • A “Narrativa do Erro”: O candidato pode pensar em “indústria” e associar a “padronização”, mas sem conectar ao problema central.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. A questão não é se os modelos são padronizados ou não, mas sim do que eles são feitos e com que eles são alimentados.
    • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
  • C) Demanda de mão de obra qualificada.
    • A “Narrativa do Erro”: O candidato foca em um aspecto social da produção de alta tecnologia.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Reducionismo. Embora a produção possa exigir mão de obra qualificada, essa não é a contradição ambiental apontada pelas evidências. A charge, inclusive, sugere trabalho precarizado, e não qualificado.
    • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
  • D) Precariedade da legislação industrial.
    • A “Narrativa do Erro”: O candidato infere que os problemas de poluição e extração se devem à falta de leis.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Extrapolação Indevida. As evidências não mencionam legislação. O problema apresentado é inerente à própria natureza dos recursos, mesmo que a extração fosse legalmente regulamentada.
    • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
  • E) Utilização de materiais recicláveis.
    • A “Narrativa do Erro”: O candidato associa “tecnologia nova” com “reciclagem”.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Direta. O texto aponta o problema como sendo a extração de materiais raros, o que implica que eles não são facilmente disponíveis ou recicláveis em escala suficiente para sustentar a demanda. A reciclagem de baterias, por exemplo, ainda é um enorme desafio tecnológico e econômico.
    • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Frase de Fechamento: Confirmamos que a alternativa A é a correta. O caso nos ensina que a verdadeira sustentabilidade não pode ser uma “miragem” focada apenas no produto final; ela deve ser uma realidade transparente em toda a cadeia de produção, desde a mina até a rua.

Resumo-flash (A Imagem Mental): O carro elétrico não elimina a poluição, apenas a muda de endereço: do escapamento para a mina e a chaminé.

Para ir Além (A Ponte para o Futuro): O mesmo princípio de analisar o “custo oculto” em toda a cadeia de suprimentos é crucial na Indústria Farmacêutica. Um medicamento pode ser extremamente eficaz para tratar uma doença (o “lado limpo da charge”), mas sua produção pode depender de uma substância extraída de uma planta rara em uma floresta tropical, ameaçando a biodiversidade, ou pode gerar resíduos químicos altamente tóxicos (o “lado sujo”). A ética da sustentabilidade na farmácia, assim como na eletromobilidade, exige uma análise completa do ciclo de vida do produto.


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