Os frutos da pupunha têm cerca de 1g em populações silvestres no Acre, mas chegam a 70 g em plantas domesticadas por populações indígenas. No princípio, porém, a domesticação não era intencional. Os grupos humanos apenas identificavam vegetais mais saborosos ou úteis, e sua propagação se dava pelo descarte de sementes para perto dos sítios habitados.
DÓRIA, C. A.; VIEIRA, I. C. G. Iguarias da floresta. Ciência Hoje, n. 310, dez. 2013.
A mudança de fenótipo (tamanho dos frutos) nas populações domesticadas de pupunha deu-se porque houve
A) introdução de novos genes.
B) redução da pressão de mutação.
C) diminuição da uniformidade genética.
D) aumento da frequência de alelos de interesse.
E) expressão de genes de resistência a patógenos.
Resolução Em Texto
- Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
- Genética de Populações: Frequência Alélica.
- Biologia Evolutiva: Seleção Artificial (Domesticação).
- Tema/Objetivo Geral:
- Identificar o princípio genético que explica a mudança de características em uma população de plantas devido à ação humana.
- Nível da Questão:
- Médio. A questão exige a aplicação de conceitos de genética evolutiva (alelos, frequência, fenótipo) a um cenário prático. O candidato precisa traduzir a ação descrita no texto (“descarte de sementes de vegetais mais saborosos”) para seu correspondente técnico no jargão da genética de populações, o que demanda um raciocínio mais abstrato.
- Gabarito:
- D) aumento da frequência de alelos de interesse. A alternativa está correta porque, ao escolher e propagar (mesmo que por descarte) as sementes das melhores frutas, os humanos garantiram que os genes (alelos) responsáveis por essas características se tornassem cada vez mais comuns na população de plantas.
Resolução Passo a Passo
1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
- Decodificação do Objetivo: A questão descreve como a pupunha selvagem (pequena) se tornou a pupunha doméstica (grande) porque os humanos pegavam as melhores frutas e jogavam as sementes perto de casa. A nossa missão é dar o nome técnico, em linguagem de genética, para o que aconteceu com os genes da pupunha nesse processo.
- Simplificação Radical (A Analogia Central): Pense em um abrigo com centenas de cães de rua de todos os tipos (a população “selvagem”). Agora, imagine que as pessoas que adotam só escolhem levar para casa os cães mais dóceis. Esses cães dóceis vão ter filhotes, que provavelmente também serão dóceis. Se esse processo se repetir por gerações, o que vai acontecer com a “população de cães adotados”? O “gene da docilidade” (alelo) vai se tornar absurdamente comum, enquanto o “gene da agressividade” vai ficar raro. O verdadeiro desafio aqui é entender que os indígenas fizeram exatamente isso com as pupunhas: eles “adotaram” as melhores frutas, e a “característica boa” se espalhou.
- Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação): Nosso plano será o seguinte:
- Analisar o Cenário: Vamos criar uma tabela comparando a população de pupunhas “antes” (selvagem) e “depois” (domesticada).
- Identificar o Agente de Mudança: Vamos destacar a ação humana como a força seletiva principal.
- Deduzir a Consequência Genética: Com base na ação seletiva, vamos prever o que deve acontecer com os genes da população de plantas.
2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Para entender a transformação, vamos comparar os dois cenários. A ferramenta ideal aqui é uma Tabela Comparativa de Investigação.
| 🕵️♂️ Característica Analisada | Cenário 1: População Silvestre (Antes) | Cenário 2: População Domesticada (Depois) |
| Agente de Seleção | Seleção Natural: Sobrevivência do mais apto a resistir a pragas, secas, etc. | Seleção Artificial: Preferência humana. |
| Critério de “Sucesso” | Qualquer característica que ajude a planta a sobreviver e espalhar sementes. | Ser “saboroso ou útil” para os humanos. |
| Alelos (Versões dos Genes) | Grande variedade de alelos misturados na população. Alelos para “fruto grande” são raros. | Alelos para “fruto grande e saboroso” são favorecidos e se tornam muito mais comuns. |
| Fenótipo (Aparência) | Frutos pequenos (1 g). | Frutos grandes (70 g). |
A tabela deixa claro que a ação humana não criou nada novo, mas funcionou como um filtro, permitindo que apenas certos alelos (os de interesse) passassem para a próxima geração com mais frequência.
3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
Do Selvagem ao Doméstico: A Genética da Escolha. A imagem ilustra como a seleção artificial mudou a pupunha. Ao favorecer o fenótipo (fruto grande), os humanos causaram o “aumento da frequência dos alelos de interesse” na população, explicando a mudança drástica de tamanho.
🚨 ARMADILHA CLÁssICA! 🚨
CUIDADO! O erro mais comum aqui é pensar que os humanos “criaram” ou “introduziram” novos genes (Alternativa A). A domesticação não é um ato de engenharia genética que inventa um gene do zero. É um processo de seleção e filtragem. A variabilidade genética (alelos para frutos um pouco maiores, um pouco mais doces) já existia na população selvagem, provavelmente de forma rara. A ação humana apenas pegou essa variabilidade e a amplificou drasticamente. É como garimpar: você não cria o ouro, você o encontra e o concentra.
- A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: A ação humana seletiva deu uma vantagem reprodutiva imensa às plantas com características desejáveis. Isso levou a uma mudança na composição genética da população ao longo do tempo.
- Expectativa: A alternativa correta deve descrever um aumento na proporção (frequência) das versões de genes (alelos) que eram de interesse para os humanos.
4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
Vamos dissecar cada alternativa para confirmar nossa investigação.
- A) introdução de novos genes.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato pensa que uma mudança tão drástica (de 1g para 70g) só pode ter acontecido se algo totalmente novo foi adicionado.
- O “Diagnóstico do Erro”: Confundir Seleção com Mutagênese. Conforme a armadilha clássica, o processo descrito é de seleção sobre a variação existente, não de criação ou introdução de genes novos.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
- B) redução da pressão de mutação.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato pode pensar que, ao serem “cuidadas”, as plantas sofreram menos mutações.
- O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. A mutação é a fonte primária de variação, mas a mudança descrita foi direcionada pela seleção, não por uma alteração na taxa com que as mutações ocorrem.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
- C) diminuição da uniformidade genética.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato pensa que, como os frutos ficaram diferentes (maiores), a genética ficou menos uniforme.
- O “Diagnóstico do Erro”: Inversão de Conceito. O processo causa o oposto. Ao selecionar repetidamente as mesmas características, a população se torna mais uniforme em relação a esses traços, o que na verdade diminui a diversidade genética geral.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
- D) aumento da frequência de alelos de interesse.
- Análise de Correspondência: Esta alternativa é uma descrição técnica perfeita do que deduzimos. Os alelos (versões dos genes) de “interesse” (frutos grandes/saborosos) tiveram sua frequência (quão comuns eles são) aumentada na população.
- Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
- E) expressão de genes de resistência a patógenos.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato especula que talvez as plantas maiores fossem também mais resistentes.
- O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. O texto é explícito sobre o critério de seleção: “saborosos ou úteis”. A resistência a doenças não foi o fator de seleção descrito como causa da mudança no tamanho do fruto.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
- Frase de Fechamento: Fica provado que a resposta correta é a (D) aumento da frequência de alelos de interesse, um exemplo claro de como a seleção, seja ela natural ou artificial, age como uma escultora, moldando as populações ao favorecer a reprodução de certos genes em detrimento de outros.
- Resumo-flash (A Imagem Mental): Humano escolheu, o alelo de interesse “bombou”.
- 🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro): O mesmo princípio de “aumentar a frequência de alelos de interesse” governa o funcionamento dos algoritmos de recomendação (Netflix, Spotify, TikTok). Pense em todas as músicas e filmes do mundo como a “população selvagem de genes”. Quando você dá “like” em uma música (um ato de seleção), você está dizendo ao algoritmo que aquele é um “alelo de interesse”. O algoritmo, então, aumenta a frequência com que músicas com características similares (mesmo gênero, ritmo, artista) aparecem na sua playlist. Com o tempo, sua experiência na plataforma se torna uma “população domesticada” de conteúdo, perfeitamente adaptada ao seu gosto. Da domesticação de plantas na Amazônia à curadoria do seu feed digital, a seleção artificial está moldando o mundo ao nosso redor.
