O toyotismo, a partir dos anos 1970, teve grande impacto no mundo ocidental, quando se mostrou para os países avançados como uma opção possível para a superação de uma crise de acumulação.
ANTUNES, R. Os sentidos do trabalho: ensaio sobre a afirmação e a negação do trabalho.
São Paulo: Boitempo, 2009 (adaptado).
A característica organizacional do modelo em questão, requerida no contexto de crise, foi o(a)
A) expansão dos grandes estoques.
B) incremento da fabricação em massa.
C) adequação da produção à demanda.
D) aumento da mecanização do trabalho.
E) centralização das etapas de planejamento.
Resolução Em Texto
- Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
- Geografia / Sociologia (Modelos de Produção Industrial: Fordismo e Toyotismo)
- História (Crise do Petróleo de 1970)
- Tema/Objetivo Geral: Analisar o contexto de crise do modelo fordista para identificar a principal característica organizacional do Toyotismo que o apresentou como uma solução.
- Nível da Questão: Médio.
- A questão exige um conhecimento prévio sobre os modelos de produção. O candidato precisa saber que a “crise de acumulação” era um problema de superprodução inerente ao Fordismo, e que a principal inovação do Toyotismo foi exatamente a de inverter essa lógica.
- Gabarito: C
- A alternativa está correta porque a “crise de acumulação” era uma crise de superprodução: o modelo antigo (Fordismo) produzia em massa e criava grandes estoques que não conseguiam mais ser vendidos. A principal inovação organizacional do Toyotismo para resolver isso foi o sistema just-in-time, que inverte a lógica: em vez de produzir para estocar, a produção é “puxada” pela necessidade do mercado. Ou seja, é uma adequação da produção à demanda.
PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
Decodificação do Objetivo: Em bom português, a missão é: “O texto diz que, nos anos 70, o mundo industrial estava em crise porque produzia coisas demais e não conseguia vender (uma ‘crise de acumulação’). Então, um novo modelo, o Toyotismo, surgiu como solução. Qual foi a principal característica organizacional desse novo modelo que ajudou a resolver o problema da produção excessiva?”
Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine uma pizzaria antiga (o Fordismo). O dono acha que vai vender muito, então passa o dia inteiro fazendo centenas de pizzas de mussarela e as empilha no balcão (produção em massa e grandes estoques). No fim da noite, ele vendeu poucas e precisa jogar dezenas de pizzas fora. Isso é a “crise de acumulação”. Agora, imagine uma pizzaria nova (o Toyotismo). O balcão está vazio. O pizzaiolo só começa a fazer a pizza depois que o cliente faz o pedido, e faz exatamente no sabor que o cliente quer. Ele não tem estoque e não tem desperdício. O que essa nova pizzaria faz? Ela adequa a produção à demanda.
Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação):
- Diagnosticar a “Doença”: O que era a “crise de acumulação”?
- Analisar o “Remédio”: Qual foi a principal inovação organizacional do Toyotismo?
- Conectar Doença e Remédio: Como o “remédio” cura a “doença”?
- Realizar a Autópsia: Vamos analisar cada alternativa para ver qual delas descreve o princípio ativo do “remédio”.
PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Para este caso, a melhor ferramenta é uma Tabela Comparativa de Modelos de Produção. Ela nos ajudará a visualizar o conflito entre o problema (Fordismo) e a solução (Toyotismo).
| Característica Organizacional | O Modelo Antigo em Crise (Fordismo) | O Novo Modelo (Toyotismo) |
| Lógica de Produção | Produção em massa e padronizada. “Empurra” o produto para o mercado. | Produção flexível e variada. É “puxada” pela demanda do mercado. |
| Estoques | GRANDES ESTOQUES. Produz-se para estocar, na esperança de vender. | ESTOQUES MÍNIMOS (ou zero). A matéria-prima chega “bem na hora” (just-in-time) de produzir o que já foi vendido. |
| Ritmo de Trabalho | Rígido, repetitivo, linha de montagem. | Flexível, equipes multifuncionais. |
| O Problema Central (A “Doença”) | Inflexibilidade e SUPERPRODUÇÃO. Quando a demanda cai, os estoques encalham, gerando a “crise de acumulação”. | – |
| A Solução (O “Remédio”) | – | ADEQUAÇÃO DA PRODUÇÃO À DEMANDA. Só se produz o que o consumidor quer, na quantidade que ele quer e na hora que ele quer. |
Conclusão Forense: A tabela mostra que o Toyotismo foi projetado como o antídoto direto para o principal veneno do Fordismo. A crise de ter coisas demais (acumulação) é resolvida ao se produzir apenas o necessário (adequação à demanda).
PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
Nossa tabela já revelou a lógica do caso. O texto, embora curto, nos dá a pista decisiva: o Toyotismo surgiu para “superação de uma crise de acumulação”.
- Acumulação (neste contexto) = Acúmulo de estoques de mercadorias não vendidas.
- Crise de Acumulação = O momento em que esses estoques se tornam tão grandes que geram prejuízo e paralisam o sistema.
Como se resolve uma crise de excesso de estoque? Parando de produzir em excesso. E como se para de produzir em excesso? Produzindo apenas o que já tem um comprador ou uma demanda certa. Esse é o coração da filosofia just-in-time e do Toyotismo.
🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! A armadilha mais sedutora é a alternativa (B), “incremento da fabricação em massa”. O candidato pode associar “indústria” e “superação de crise” com “produzir mais”. O erro é não perceber que a crise descrita era justamente causada pela fabricação em massa excessiva e inflexível. O Toyotismo não foi um “mais do mesmo”, foi uma ruptura, propondo produzir melhor e de forma mais inteligente, e não necessariamente mais.
A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: A investigação mostra que o Toyotismo resolveu a crise de superprodução do Fordismo ao inverter a lógica produtiva.
- Expectativa: A alternativa correta deve descrever essa nova lógica de produzir de acordo com a demanda.
PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
Vamos agora interrogar cada um dos suspeitos.
- A) expansão dos grandes estoques.
- A “Narrativa do Erro”: Uma leitura completamente invertida do conceito.
- O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Direta. Os grandes estoques eram o sintoma da doença (a crise de acumulação) que o Toyotismo veio curar. A principal meta do Toyotismo é a redução radical dos estoques.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
- B) incremento da fabricação em massa.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato cai na “Armadilha Clássica”.
- O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Histórica. A fabricação em massa é a marca do Fordismo, o modelo que estava em crise. O Toyotismo propõe uma produção mais flexível e em lotes menores, adaptada a um mercado mais diversificado.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
- C) adequação da produção à demanda.
- Análise de Correspondência: Esta alternativa é o retrato falado da nossa Bússola. Ela descreve perfeitamente a filosofia just-in-time, a principal inovação do Toyotismo para combater a superprodução e os estoques parados.
- Conclusão: 🟢 Alternativa correta.
- D) aumento da mecanização do trabalho.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato associa “novo modelo de produção” com “mais máquinas”.
- O “Diagnóstico do Erro”: Foco Incorreto. Embora o Toyotismo use tecnologia, sua principal inovação não é a mecanização (que já era central no Fordismo), mas a organização do fluxo de produção e a gestão da mão de obra (equipes flexíveis, multifuncionais).
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
- E) centralização das etapas de planejamento.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato pode pensar que um sistema mais eficiente precisa de mais controle central.
- O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Direta. O Toyotismo, na verdade, promove a descentralização e a autonomia das equipes de trabalho (círculos de qualidade, sistema kanban), que passam a ter mais responsabilidade no controle da produção.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
Frase de Fechamento: Confirmamos que a alternativa C é a correta. Este caso ilustra a passagem do mundo da produção em massa para o da produção flexível, uma das maiores transformações econômicas do final do século XX.
Resumo-flash (A Imagem Mental): O Fordismo era um canhão que atirava produtos para o mercado; o Toyotismo é um sniper que só atira quando o alvo (a demanda) aparece.
Para ir Além (A Ponte para o Futuro): O mesmo princípio do Toyotismo, de adequar a produção à demanda em tempo real, é a base do modelo de negócios das plataformas de streaming, como Netflix e Spotify. Antigamente (o “Fordismo” da mídia), um estúdio produzia um filme ou uma gravadora produzia um disco, em massa, e o “empurrava” para o mercado (cinemas, lojas), correndo o risco de encalhar (a “crise de acumulação”). Hoje, a Netflix não produz conteúdo no escuro. Ela usa a análise de dados massivos (Big Data) para entender exatamente o que a demanda quer assistir e, então, produz séries e filmes “sob medida” para nichos específicos. É a filosofia just-in-time aplicada à cultura.
