Questão 81 caderno azul ENEM 2020 Digital 1° Dia


Na primeira bica abasteciam os negros, forros e cativos, os mulatos e os índios; na segunda, os moiros das galés, e os da primeira bica, quando fosse necessário; a terceira e quarta estavam reservadas aos homens e moços brancos; na quinta enchiam as mulheres pretas e na sexta, as mulheres e moças brancas. A quem infringisse esta ordem eram aplicados severos castigos — açoitamento com baraço e pregão, ao redor do Chafariz, sendo de cor; 2 000 réis de multa e três dias de cadeia, sendo branco o prevaricador.

CAETANO, J. O. Chafarizes de Lisboa. Lisboa: Distri, 1991.

A organização dos consumidores nos chafarizes públicos de Lisboa no século XVI, descrita no texto, expressava a

a) escassez de recursos hídricos. 

b) reprodução de distinções sociais. 

c) prevenção da transmissão de doenças. 

d) obsolescência das técnicas de fornecimento. 

e) ineficiência da cobertura de serviços estatais.

Resolução em texto

Matérias Necessárias para a Solução da Questão
História (Idade Moderna, Expansão Marítima Portuguesa), Sociologia (Estratificação Social, Relações Raciais).

Tema/Objetivo Geral:
Interpretação de um texto histórico para compreender como as hierarquias e as desigualdades sociais de uma época se manifestam e são reforçadas em espaços e atividades do cotidiano.

Nível da Questão
Fácil – A questão é considerada de nível fácil porque o texto é extremamente explícito e detalhado ao descrever a segregação. Ele literalmente lista os diferentes grupos sociais e raciais e suas respectivas bicas, tornando a conclusão de que o sistema reproduzia as distinções sociais uma interpretação direta, sem a necessidade de conhecimentos prévios complexos.

Gabarito
A alternativa correta é a b. A organização do acesso à água nos chafarizes, com bicas separadas por raça, status (livre ou cativo) and gênero, e com punições diferentes para brancos e não brancos, era um espelho e um reforço da rígida hierarquia social da época.


🔎 Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo

1.1 Transcrição Essencial
“A organização dos consumidores nos chafarizes públicos de Lisboa no século XVI, descrita no texto, expressava a…”

1.2 O que está sendo pedido?
O exercício pede que você identifique o que o sistema de regras para usar os chafarizes em Lisboa revelava sobre a sociedade daquele tempo.

1.3 Objetivo Cristalino
Nosso objetivo é analisar as regras de segregação descritas e entender qual princípio social ou valor da época elas estavam colocando em prática.

1.4 Pergunta de Atenção
Você já parou para pensar por que um ato tão simples como pegar água precisaria de um manual de instruções tão complexo, separando homens de mulheres e brancos de negros? O que isso nos diz sobre quem era considerado “mais importante” naquela sociedade?


📚 Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdos Necessários

2.1 Definições e Fórmulas / explicação de termos
Para entender o contexto da questão, precisamos conhecer a estrutura social da época:

  • Sociedade de Ordens (ou Estamental):
    • Classificação: Modelo de estratificação social.
    • Explicação simples: Era a forma como a sociedade europeia do Antigo Regime (incluindo Portugal no século XVI) era dividida. As pessoas pertenciam a diferentes “ordens” ou “estados” (Clero, Nobreza, Povo) com base em seu nascimento, e havia pouquíssima mobilidade entre eles. Além dessa divisão, havia outras hierarquias baseadas em religião, raça (com a expansão do tráfico de escravizados) e gênero.
  • Distinções Sociais:
    • Classificação: Conceito sociológico.
    • Explicação simples: São as diferenças de status, prestígio, direitos e poder que existem entre os diferentes grupos de uma sociedade. No texto, as distinções são baseadas em critérios como raça (“negros”, “brancos”, “mulatos”, “índios”), status legal (“forros”, “cativos”) e gênero (“homens”, “mulheres”).
  • Espaço Público Segregado:
    • Classificação: Conceito socioespacial.
    • Explicação simples: É um espaço que, embora seja teoricamente “público” (de todos), possui regras que separam as pessoas com base em critérios sociais, impedindo a livre interação e reforçando hierarquias. O chafariz de Lisboa é um exemplo perfeito.

Esta gravura ilustra a rígida hierarquia social de Lisboa no século XVI através da cena em um chafariz público. O acesso à água, um recurso essencial, era organizado por filas distintas que separavam a população por classe, etnia e gênero: escravos, comerciantes, mulheres brancas e negras. A imagem revela como o espaço urbano refletia e reforçava as profundas desigualdades da sociedade do Império Português.


📝 Passo 3: Tradução e Interpretação do Problema

3.1 Contextualização Simplificada
O texto é como um regulamento de um condomínio muito rígido, mas para usar uma fonte de água pública em Lisboa, 500 anos atrás. Ele diz: “Pessoas negras, indígenas e mulatas usam esta bica. Homens brancos usam aquelas. Mulheres pretas usam aquela outra, e mulheres brancas, a última”. E mais: se uma pessoa “de cor” quebrar a regra, a punição é o açoitamento. Se um branco quebrar a regra, a punição é uma multa e alguns dias na cadeia. A questão é: o que esse regulamento superdetalhado e desigual nos mostra sobre a sociedade daquela época?

3.2 Estratégia Geral
A estratégia é analisar os critérios usados para separar as pessoas nas filas do chafariz. Vamos listar esses critérios (raça, gênero, status) e perceber que eles não são aleatórios, mas sim os mesmos critérios que organizavam toda a sociedade portuguesa daquele tempo, de forma hierárquica.


🧮 Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio e Cálculos

4.1 Passo a Passo Detalhado

  • Análise dos Critérios de Separação: O texto organiza o acesso às bicas com base em:
    • Raça/Etnia: “negros”, “mulatos”, “índios”, “moiros” são separados dos “brancos”.
    • Status Jurídico: “forros” (livres) e “cativos” (escravizados) são colocados no mesmo grupo de baixo status.
    • Gênero: “homens e moços” são separados de “mulheres e moças”. E as mulheres ainda são separadas entre si por raça (“pretas” e “brancas”).
  • Análise da Hierarquia: A ordem das bicas e a separação revelam uma clara hierarquia. Os não brancos e os escravizados ficam na primeira bica. Os brancos têm bicas exclusivas.
  • Análise das Punições: A desigualdade é reforçada pela punição. A punição para não brancos (“sendo de cor”) é física e humilhante (“açoitamento com baraço e pregão”). A punição para brancos é financeira e legal (“multa” e “cadeia”). Isso mostra que o corpo do não branco era visto como passível de violência pública, enquanto o do branco era protegido por uma penalidade diferente.
  • Conclusão: O chafariz não era apenas uma fonte de água. Ele era um palco onde a complexa e desigual estrutura social de Lisboa era encenada e reforçada todos os dias. Cada pessoa era lembrada de seu “lugar” na sociedade. Portanto, a organização expressava a reprodução de distinções sociais.

4.2 Verificação Intermediária
O sistema é tão detalhado que não deixa dúvidas de que seu propósito era manter a ordem social vigente, separando os grupos e deixando claro quem tinha mais privilégios.

4.3 Possível armadilha
A armadilha mais óbvia é a alternativa (a) escassez de recursos hídricos. Alguém poderia pensar que as regras existiam para organizar a fila e evitar conflitos por causa da falta de água. No entanto, se o objetivo fosse apenas logístico, as regras poderiam ser “um por vez” ou “limite de vasilhas”. A natureza das regras (separação por raça e gênero) mostra que o objetivo era social, não a gestão de um recurso escasso.

4.4 Fechamento e expectativa
Nosso raciocínio nos leva a procurar a alternativa que resuma a ideia de que o chafariz era um microcosmo da sociedade hierárquica e desigual da época.


✅ Passo 5: Análise das Alternativas

5.1 Listagem das Alternativas
a) escassez de recursos hídricos.
b) reprodução de distinções sociais.
c) prevenção da transmissão de doenças.
d) obsolescência das técnicas de fornecimento.
e) ineficiência da cobertura de serviços estatais.

5.2 Justificativa Individual

(🔴) a) escassez de recursos hídricos: Incorreta. O texto não fornece nenhuma informação sobre falta de água. As regras descritas são de natureza social e hierárquica, não de racionamento.

(🟢) b) reprodução de distinções sociais: Correta. A separação rigorosa dos consumidores com base em critérios de raça, status legal e gênero é uma manifestação clara da aplicação da hierarquia social da época a um espaço público cotidiano, reforçando essas diferenças.

(🔴) c) prevenção da transmissão de doenças: Incorreta. Esta é uma preocupação sanitária moderna. Os critérios de separação (raça, gênero) não têm nenhuma base científica para a prevenção de doenças e não eram assim entendidos no século XVI.

(🔴) d) obsolescência das técnicas de fornecimento: Incorreta. O texto descreve a organização social em torno do chafariz, não a tecnologia do chafariz em si.

(🔴) e) ineficiência da cobertura de serviços estatais: Incorreta. Pelo contrário, a existência de regras tão detalhadas e de punições para quem as infringisse sugere um Estado bastante presente e atuante na regulação da vida urbana, ainda que de forma autoritária e desigual.


🏆 Passo 6: Conclusão e Justificativa Final

6.1 Resumo do Raciocínio
A minuciosa regulamentação para o uso dos chafarizes em Lisboa no século XVI, que segregava os usuários por raça, gênero e condição jurídica, e aplicava punições desiguais, não era uma medida de gestão de recursos, mas sim um poderoso mecanismo de controle social. Ela transformava um ato cotidiano em uma lição diária sobre a rígida hierarquia da sociedade, reproduzindo e reforçando as distinções sociais existentes.

6.2 Gabarito Reafirmado
A alternativa correta é a b) reprodução de distinções sociais.

6.3 Resumo Final para Revisão 🔍
Lembre-se: as regras de uso de um espaço público, por mais banais que pareçam, são sempre um reflexo dos valores e das estruturas de poder da sociedade. Onde há uma regra de separação, há uma distinção social sendo afirmada.


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