A Inglaterra não só os produzia em condições técnicas mais avançadas do que o resto dos países, como os transportava e distribuía. Tinha, pois, necessidades de mercados, e foi por isso que se esforçou, naquela etapa de sua história, para criá-los e desenvolvê-los. O Tratado de Methuen em 1703 estabelecia a compra dos tecidos ingleses por parte de Portugal, enquanto a Inglaterra se comprometia a adquirir a produção vinícola dos lusitanos.
SODRÉ, N. W. As razões da independência. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1969 (adaptado).
No contexto político-econômico da época, esse tratado teve como consequência para os britânicos a
A) aplicação de práticas liberais.
B) estagnação de superávit mercantil.
C) obtenção de privilégios comerciais.
D) promoção de equidade alfandegária.
E) equiparação de reservas monetárias.
Resolução Em Texto
Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
História Geral (Mercantilismo e Revolução Industrial), História de Portugal e do Brasil (Ciclo do Ouro e Tratados).
Tema/Objetivo Geral:
Compreender a dinâmica do Tratado de Methuen (1703) e como ele consolidou a hegemonia econômica da Inglaterra sobre Portugal, favorecendo a acumulação de capital britânica.
Nível da Questão:
Fácil/Médio.
Por que está neste nível? Exige conhecimento específico sobre o “Tratado de Panos e Vinhos”. O aluno precisa entender que, no Mercantilismo, tratados comerciais raramente eram “justos” ou “equitativos”, geralmente favorecendo a nação mais industrializada.
Gabarito:
(C) obtenção de privilégios comerciais.
Resumo: O tratado abriu o mercado português (e brasileiro) para os tecidos ingleses. Como Portugal comprava muito mais tecidos do que a Inglaterra comprava vinho, gerou-se uma balança comercial favorável aos ingleses, garantindo-lhes um mercado cativo e lucro garantido.
Resolução Passo a Passo
1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
Decodificação do Objetivo:
O texto descreve o Tratado de Methuen (1703), onde Portugal venderia vinho para a Inglaterra e a Inglaterra venderia tecidos para Portugal. A questão pergunta: O que a Inglaterra ganhou com esse acordo?
Simplificação Radical (A Analogia Central):
Imagine uma troca entre dois vizinhos:
- Vizinho Rico (Inglaterra): Vende computadores (Tecnologia/Indústria).
- Vizinho Agricultor (Portugal): Vende limonada (Agricultura).
Eles assinam um papel dizendo: “Eu só compro sua limonada e você só compra meu computador”.
Parece justo? No papel, sim. Na prática, o Vizinho Rico vai ganhar muito mais dinheiro, pois computadores são caros e todo mundo precisa, enquanto limonada é barata. O Vizinho Rico garantiu um privilégio: um cliente fiel para seus produtos caros.
Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação):
- Analisar o contexto de produção descrito (Inglaterra avançada tecnicamente).
- Comparar os produtos trocados (Tecidos manufaturados vs. Vinho agrícola).
- Concluir quem saiu ganhando na balança comercial e como isso se chama (Privilégio/Vantagem).
2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Vamos abrir o Dossiê do Mercantilismo.
📂 TRATADO DE METHUEN (1703) – vulgo “Panos e Vinhos”
- O Acordo: Portugal reduzia tarifas para tecidos ingleses; Inglaterra reduzia tarifas para vinhos portugueses.
- A “Pegadinha” Econômica:
- A Inglaterra estava se industrializando (Revolução Industrial a caminho). Ela produzia tecidos em massa e precisava desesperadamente de mercados consumidores (como diz o texto: “Tinha necessidades de mercados”).
- Portugal estagnou na agricultura.
- O Resultado Financeiro: Portugal importava muito mais (em valor) do que exportava. Isso gerava um Déficit.
- Quem pagava a conta? O Ouro do Brasil. O ouro saía de Minas Gerais, ia para Portugal e repassava direto para Londres para pagar os tecidos.
- Para a Inglaterra: Isso significou Mercado Cativo (Privilégio) e Acumulação de Capital.
3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
Vamos seguir a lógica do texto de Sodré.
“A Inglaterra não só os produzia [tecidos] em condições técnicas mais avançadas… Tinha, pois, necessidades de mercados… esforçou-se para criá-los.”
A Análise do Detetive:
O texto diz que a Inglaterra era tecnicamente superior. Ela não queria “competir” de igual para igual; ela queria um lugar garantido para desovar seus produtos.
Ao assinar o Tratado, a Inglaterra conseguiu que Portugal (e seu império colonial, o Brasil) se tornasse consumidor preferencial dos seus tecidos.
Isso não é livre comércio (onde vence o melhor); isso é reserva de mercado ou privilégio comercial. A Inglaterra garantiu que seus tecidos entrassem em Portugal com vantagem sobre os de outros países.
🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
Muitos alunos pensam em (A) práticas liberais ou (D) equidade.
Por que caem? Porque “tratado comercial” soa como livre mercado ou troca justa.
Onde está o erro? Estamos em 1703! O Liberalismo (Adam Smith) só surgiria em 1776. A época era o Mercantilismo, onde o objetivo era acumular ouro e ter balança favorável. Não havia equidade (igualdade); havia exploração da vantagem manufatureira inglesa sobre a agrária portuguesa.
A Bússola (O Perfil do Culpado):
Síntese do raciocínio: A Inglaterra usou sua superioridade técnica para firmar um acordo que lhe garantia o mercado português.
Expectativa: Palavras como Vantagem, Hegemonia, Superávit ou Privilégio.
4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
Vamos examinar os suspeitos.
- A) aplicação de práticas liberais.
- Análise: O Liberalismo Econômico (livre concorrência, não intervenção do Estado, fim dos monopólios) é uma teoria do final do século XVIII. Em 1703, vigorava o Mercantilismo (protecionismo e monopólios). O tratado visava proteger a indústria inglesa, não “liberalizar” geral.
- Diagnóstico do Erro: Anacronismo (Erro de data histórica).
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
- B) estagnação de superávit mercantil.
- Análise: “Estagnação” significa parar de crescer. Para a Inglaterra, o tratado gerou o oposto: um aumento gigantesco do superávit (lucro). Quem estagnou (e teve déficit) foi Portugal.
- Diagnóstico do Erro: Inversão da consequência econômica.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
- C) obtenção de privilégios comerciais.
- Análise: Perfeito. O tratado deu aos tecidos ingleses um tratamento privilegiado (tarifas baixas) em Portugal, esmagando qualquer tentativa de industrialização portuguesa e garantindo o monopólio de venda para a Inglaterra. Foi um “negócio da China” para os britânicos.
- Conclusão: 🟢 Alternativa correta.
- D) promoção de equidade alfandegária.
- Análise: “Equidade” significa justiça/igualdade. Não houve igualdade real. Embora as taxas tenham baixado dos dois lados, o valor agregado dos produtos era muito desigual (Tecido > Vinho), gerando uma dependência econômica de Portugal em relação à Inglaterra.
- Diagnóstico do Erro: Interpretação ingênua (Olhar a regra, não o resultado).
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
- E) equiparação de reservas monetárias.
- Análise: Isso significaria que Portugal e Inglaterra ficariam com a mesma quantidade de dinheiro (reservas). Aconteceu o contrário: o ouro saiu de Portugal e se acumulou na Inglaterra. Houve um desequilíbrio das reservas a favor dos britânicos.
- Diagnóstico do Erro: Contradição com o fato histórico (Ouro Brasileiro ➡️ Cofres Ingleses).
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
Frase de Fechamento:
O Tratado de Methuen foi a jogada de mestre do Mercantilismo Inglês: trocou vinhos perecíveis por tecidos manufaturados, garantindo privilégios comerciais que drenaram o ouro brasileiro para financiar a Revolução Industrial britânica.
Resumo-flash (A Imagem Mental):
🍷 Portugal: Embriagado de vinho e dívidas.
🏭 Inglaterra: Vestida de tecidos e cheia de Ouro.
🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
Essa relação desigual (Indústria x Agricultura) estabelecida em 1703 é o avô do conceito de DIT (Divisão Internacional do Trabalho) clássica: países ricos vendem tecnologia cara, países pobres vendem matéria-prima barata. Isso explica o subdesenvolvimento de muitas nações até hoje.
