Com a retração do binômio taylorismo/fordismo, vem ocorrendo uma redução do proletariado industrial, fabril, tradicional, manual, estável e especializado, herdeiro da era da indústria verticalizada do tipo taylorista e fordista. Esse proletariado vem diminuindo com a reestruturação produtiva do capital, dando lugar a formas mais desregulamentadas de trabalho, reduzindo fortemente o conjunto de trabalhadores estáveis por meio de empregos formais.
ANTUNES, R. O caracol e sua concha: ensaio sobre a nova morfologia do trabalho. São Paulo: Boitempo, 2005.
Uma nova característica dos trabalhadores requerida pelas mudanças apresentadas no texto é o(a)
A) formação em nível superior.
B) registro em organização sindical.
C) experiência profissional comprovada.
D) flexibilidade no exercício da ocupação.
E) obediência às normas de segurança laboral.
Resolução Em Texto
Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
Sociologia do Trabalho, Geografia Econômica (Modelos Produtivos), Atualidades.
Tema/Objetivo Geral:
Analisar a transição do modelo Fordista/Taylorista (rígido) para o modelo de Acumulação Flexível (Toyotismo), identificando como essa mudança impacta o perfil exigido do trabalhador contemporâneo.
Nível da Questão:
Médio.
Por que está neste nível? Exige domínio de conceitos sociológicos específicos (“reestruturação produtiva”, “desregulamentação”) e a capacidade de deduzir a consequência prática desses conceitos na vida do trabalhador, sem cair no senso comum.
Gabarito:
(D) flexibilidade no exercício da ocupação.
Resumo: Se o mercado agora é volátil, sem estoques fixos e sem estabilidade, o trabalhador não pode mais ser “especialista em apertar um único parafuso”. Ele precisa ser “polivalente” e aceitar contratos precários e mudanças constantes de função.
Resolução Passo a Passo
1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
Decodificação do Objetivo:
O texto descreve a morte do “velho emprego”: aquele operário de fábrica que fazia a mesma coisa por 30 anos e se aposentava na mesma empresa. O texto diz que hoje o trabalho é “desregulamentado” e instável. A questão quer saber: Qual é a qualidade pessoal que esse novo trabalhador precisa ter para sobreviver nesse caos instável?
Simplificação Radical (A Analogia Central):
Imagine dois tipos de ferramentas:
- O Martelo (O Trabalhador Fordista): Ele é pesado, robusto, dura a vida toda, mas só serve para uma coisa: bater.
- O Canivete Suíço (O Trabalhador Atual): Ele faz de tudo um pouco, adapta-se a qualquer situação, mas é facilmente trocado ou descartado.
A questão pergunta: Qual é a característica principal do Canivete Suíço? Resposta: Ele é flexível/adaptável.
Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação):
- Comparar o perfil do trabalhador antigo (citado como “especializado/estável”) com o novo cenário.
- Entender o conceito de “Reestruturação Produtiva”.
- Identificar a palavra que resume a adaptação a mudanças constantes.
2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Vamos abrir o Dossiê dos Modelos Produtivos.
🏭 FORDISMO/TAYLORISMO (O Passado)
- A Palavra-Chave: RIGIDEZ.
- O Trabalhador: Especialista em uma única tarefa repetitiva (ex: apertar a roda).
- O Emprego: Longa duração, carteira assinada, sindicatos fortes.
📱 TOYOTISMO/ACUMULAÇÃO FLEXÍVEL (O Presente)
- A Palavra-Chave: FLEXIBILIDADE.
- O Trabalhador: Polivalente ou Multifuncional. Ele precisa operar a máquina, consertar a máquina e fazer o controle de qualidade.
- O Emprego: Terceirizado, temporário, PJ, “Uberizado”.
- O Contexto: O texto de Ricardo Antunes critica essa mudança, chamando-a de precarização. O mercado chama de “modernização”.
3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
Vamos analisar as “pistas” do texto de Ricardo Antunes.
- “retração do binômio taylorismo/fordismo” -> O modelo rígido acabou.
- “redução do proletariado… estável e especializado” -> Não precisamos mais de gente que só sabe fazer uma coisa e quer ficar para sempre.
- “formas mais desregulamentadas” -> Sem regras fixas, horários mudam, funções mudam.
A Análise do Detetive:
Se o emprego não é mais estável e se as regras mudam o tempo todo, o trabalhador que disser “ah, isso não é minha função” será demitido.
Para se manter empregado nesse cenário, o indivíduo precisa dançar conforme a música. Se a empresa precisa dele na montagem hoje e no estoque amanhã, ele vai. Se o contrato é por hora ou por projeto, ele aceita.
Essa capacidade de se moldar ao que a empresa precisa chama-se Flexibilidade.
🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
Muitos alunos marcam (A) formação em nível superior.
Por que caem? Porque ouvimos que “estudar é importante”.
Onde está o erro? O texto fala de uma mudança estrutural na forma de trabalhar, não apenas na escolaridade. A “nova morfologia” atinge desde o engenheiro até o entregador de aplicativo. Um entregador precisa ser flexível (aceitar corridas, horários), mas não precisa de curso superior. A flexibilidade é a regra geral, o diploma é específico.
A Evolução do Operário: Da Peça Fixa ao Malabarista
🏭 Esquerda (Fordismo): O trabalhador era especialista. Sua função era fixa, repetitiva e estável. Ele era uma peça rígida na engrenagem.
🤹 Direita (Acumulação Flexível): O novo trabalhador precisa ser polivalente. Ele opera, conserta, controla e negocia. A Flexibilidade (D) é a capacidade de mudar de função e se adaptar a um mercado que não para de mudar.
4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
Vamos examinar os suspeitos.
- A) formação em nível superior.
- Análise: Embora a qualificação seja desejável, a reestruturação produtiva também criou milhões de empregos precários que não exigem diploma (telemarketing, aplicativos). A característica universal da mudança não é o diploma, mas a instabilidade/adaptação.
- Diagnóstico do Erro: Generalização indevida (Confundir qualificação com a lógica do sistema).
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
- B) registro em organização sindical.
- Análise: O texto diz que o proletariado tradicional (base dos sindicatos) está diminuindo. A tendência atual é a desmobilização sindical (trabalhadores isolados, terceirizados, PJs), e não o aumento do registro.
- Diagnóstico do Erro: Contradição histórica (O novo modelo enfraquece sindicatos).
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
- C) experiência profissional comprovada.
- Análise: Em um mercado que muda rápido, muitas vezes a “experiência antiga” (vício de trabalho) é mal vista. As empresas buscam “soft skills” (capacidade de aprender) mais do que apenas tempo de casa.
- Diagnóstico do Erro: Visão tradicionalista.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
- D) flexibilidade no exercício da ocupação.
- Análise: Perfeito. Isso se manifesta de duas formas:
- Funcional: O trabalhador faz várias tarefas (polivalência).
- Contratual: O trabalhador aceita horários móveis, banco de horas e contratos temporários.
É a resposta exata à “desregulamentação” citada no texto.
- Conclusão: 🟢 Alternativa correta.
- Análise: Perfeito. Isso se manifesta de duas formas:
- E) obediência às normas de segurança laboral.
- Análise: Obedecer normas é requisito em qualquer época (Fordismo ou Toyotismo). Não é uma nova característica trazida pela mudança descrita.
- Diagnóstico do Erro: Característica atemporal (Não específica da mudança).
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
Frase de Fechamento:
A morte do emprego estável e especializado do Fordismo deu lugar à Acumulação Flexível, onde o trabalhador deve ser uma peça móvel e adaptável, exercendo a flexibilidade tanto nas funções que desempenha quanto nos contratos que aceita.
Resumo-flash (A Imagem Mental):
🤸 O Novo Trabalhador: Um contorcionista que precisa se encaixar em qualquer caixa que a empresa oferecer.
🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
Conecte isso com a Uberização. O motorista de Uber é o exemplo máximo dessa “flexibilidade”: ele não tem horário fixo, não tem salário fixo, não tem chefe fixo e, se o carro quebrar, o problema é dele. É a flexibilidade levada ao extremo, onde o risco do negócio é transferido da empresa para o trabalhador.
