Chamando o repórter de “cidadão”, em 1904, o preto acapoeirado justificava a revolta: era para “não andarem dizendo que o povo é carneiro. De vez em quando é bom a negrada mostrar que sabe morrer como homem!”. Para ele, a vacinação em si não era importante — embora não admitisse de modo algum deixar os homens da higiene meter o tal ferro em suas virilhas. O mais importante era “mostrar ao governo que ele não põe o pé no pescoço do povo”.
CARVALHO, J. M. Os bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi.
São Paulo: Cia. das Letras, 1987 (adaptado).
A referida Revolta, ocorrida na cidade do Rio de Janeiro no início da República, caracterizouse por ser uma
a) agitação incentivada pelos médicos.
b) atitude de resistência dos populares.
c) estratégia elaborada pelos operários.
d) tática de sobrevivência dos imigrantes.
e) ação de insurgência dos comerciantes.
Matérias Necessárias para a Solução da Questão
História do Brasil (Primeira República, Revolta da Vacina), Sociologia (Movimentos Sociais).
Tema/Objetivo Geral:
Interpretação de uma fonte histórica (depoimento) para compreender as motivações sociais e políticas por trás da Revolta da Vacina de 1904.
Nível da Questão
Médio – A questão é considerada de nível médio pois exige uma interpretação que vá além do senso comum sobre a Revolta da Vacina. O texto-base é a chave: ele mostra que a revolta não foi apenas uma reação à vacinação, mas um ato de afirmação de dignidade e resistência contra a opressão do Estado, o que demanda uma análise mais aprofundada do que a simples memorização do fato histórico.
Gabarito
A alternativa correta é a b. O depoimento no texto deixa claro que, para além da vacina, a revolta era uma forma de o povo mostrar sua força e se opor a um governo autoritário, caracterizando-se como uma genuína atitude de resistência popular.
🔎 Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo
1.1 Transcrição Essencial
“A referida Revolta, ocorrida na cidade do Rio de Janeiro no início da República, caracterizou-se por ser uma…”
1.2 O que está sendo pedido?
O exercício pede que, com base no depoimento apresentado, se defina a natureza fundamental da Revolta da Vacina.
1.3 Objetivo Cristalino
Nosso objetivo é entender o que a revolta significou para as pessoas que participaram dela, indo além do motivo aparente (a vacina) para alcançar suas causas sociais e políticas mais profundas.
1.4 Pergunta de Atenção
Quando o participante da revolta diz que o mais importante era “mostrar ao governo que ele não põe o pé no pescoço do povo”, ele está falando sobre saúde ou sobre poder e dignidade?
📚 Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdos Necessários
2.1 Definições e Fórmulas / explicação de termos
Para entender bem a questão, vamos esclarecer o contexto histórico:
- Revolta da Vacina (1904):
- Classificação: Revolta popular urbana.
- Explicação simples: Foi uma grande rebelião popular que explodiu no Rio de Janeiro contra a lei da vacinação obrigatória contra a varíola. No entanto, a vacina foi apenas o estopim (a “gota d’água”). A população já estava muito insatisfeita com o autoritarismo do governo, com a reforma urbana (“Bota-Abaixo”) que demolia suas casas (cortiços) e com a forma violenta e desrespeitosa como os agentes sanitários invadiam suas residências.
- Exemplo histórico: Imagine equipes de saúde, acompanhadas pela polícia, forçando a entrada na sua casa para vacinar sua família à força, sem nenhuma explicação. Foi esse tratamento autoritário que gerou a revolta.
- Higienismo:
- Classificação: Ideologia social e urbana.
- Explicação simples: Era a crença, muito forte na elite da época, de que para modernizar o Brasil era preciso “limpar” as cidades, tanto no sentido literal (saneamento) quanto no social (removendo os pobres e suas moradias, vistos como focos de doenças e “atraso”). A vacinação obrigatória e a reforma urbana faziam parte desse mesmo projeto higienista.
- Populares:
- Classificação: Termo sociológico.
- Explicação simples: Refere-se às camadas mais pobres da população urbana: trabalhadores, ex-escravizados, imigrantes, vendedores ambulantes, etc. Foram eles os principais protagonistas da revolta.
Esta charge política retrata a “Revolta da Vacina”, que explodiu no Rio de Janeiro em 1904. A imagem satiriza o conflito entre a população e as brigadas sanitárias, que, com o apoio da polícia, impunham a vacinação obrigatória contra a varíola. A cena, com suas seringas gigantes e o povo em resistência, captura o espírito de um levante popular complexo, motivado pela truculência do Estado, pela desinformação e por profundas tensões sociais.
📝 Passo 3: Tradução e Interpretação do Problema
3.1 Contextualização Simplificada
O texto nos coloca dentro da cabeça de um participante da revolta, um capoeirista negro. Ele explica para um repórter que a briga era para mostrar que o povo não é gado (“carneiro”) que obedece a tudo calado. Ele diz que a vacina em si não era o mais importante, mas sim a chance de mostrar para o governo que o povo tem honra (“sabe morrer como homem!”) e que não aceitaria ser pisoteado. A questão é: que nome damos a essa atitude de se levantar contra a opressão?
3.2 Estratégia Geral
A estratégia será focar nas motivações expressas pelo participante no texto. Vamos separar o que não era o principal (a vacina) do que era o principal (a dignidade e o desafio ao governo). Isso nos dará a verdadeira natureza do movimento.
🧮 Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio e Cálculos
4.1 Passo a Passo Detalhado
Vamos analisar a fala do “preto acapoeirado”:
- A Justificativa Principal: A revolta era para “não andarem dizendo que o povo é carneiro”. Isso é uma afirmação de dignidade humana e uma negação da passividade.
- A Relativização da Vacina: “Para ele, a vacinação em si não era importante”. Isso nos mostra que o motivo sanitário era secundário para os revoltosos. O problema era o método, não o medicamento.
- A Oposição à Invasão do Corpo: Ele não admitia “deixar os homens da higiene meter o tal ferro em suas virilhas”. Isso mostra a percepção da vacinação forçada como uma violação do corpo e da privacidade.
- O Alvo Político: O mais importante era “mostrar ao governo que ele não põe o pé no pescoço do povo”. Esta frase é uma declaração de guerra contra a tirania e a opressão do Estado. É um ato de desafio e de luta por cidadania.
- Conclusão: A soma dessas atitudes – afirmar a dignidade, desafiar o poder e lutar contra a opressão – define perfeitamente uma atitude de resistência dos populares.
4.2 Verificação Intermediária
O depoimento transforma uma revolta aparentemente “ignorante” (contra a ciência) em um movimento político legítimo de uma população excluída e maltratada pelo poder público.
4.3 Possível armadilha
A principal armadilha é acreditar na visão simplista de que a Revolta da Vacina foi apenas um motim de pessoas ignorantes que não entendiam os benefícios da vacinação. O texto de Carvalho serve justamente para desmontar essa visão preconceituosa, mostrando que a revolta tinha profundas raízes sociais e políticas.
4.4 Fechamento e expectativa
Nosso raciocínio nos leva a procurar uma alternativa que caracterize a revolta não como um motim, mas como um ato político consciente de enfrentamento ao poder estabelecido.
✅ Passo 5: Análise das Alternativas
5.1 Listagem das Alternativas
a) agitação incentivada pelos médicos.
b) atitude de resistência dos populares.
c) estratégia elaborada pelos operários.
d) tática de sobrevivência dos imigrantes.
e) ação de insurgência dos comerciantes.
5.2 Justificativa Individual
(🔴) a) agitação incentivada pelos médicos: Incorreta. Os médicos, liderados por Oswaldo Cruz, eram os executores da política do governo, e não os incentivadores da revolta.
(🟢) b) atitude de resistência dos populares: Correta. O depoimento é um exemplo claro de como as camadas populares (o “povo”) se levantaram para resistir à violência e ao autoritarismo do Estado, lutando por sua dignidade e autonomia.
(🔴) c) estratégia elaborada pelos operários: Incorreta. Embora os operários tenham participado, a revolta foi um movimento amplo e espontâneo de todos os “populares”, não uma ação planejada e exclusiva de uma única classe.
(🔴) d) tática de sobrevivência dos imigrantes: Incorreta. A revolta não foi um movimento específico de imigrantes, mas de toda a população pobre do Rio de Janeiro da época, composta por diferentes grupos.
(🔴) e) ação de insurgência dos comerciantes: Incorreta. Os principais atores da revolta foram as camadas populares, não a classe comerciante.
🏆 Passo 6: Conclusão e Justificativa Final
6.1 Resumo do Raciocínio
O texto, ao dar voz a um participante da Revolta da Vacina, revela que o movimento foi muito além de uma simples recusa à vacinação. Foi a explosão de uma população humilhada pelo autoritarismo do Estado, que viu na vacinação forçada mais um ato de opressão. A revolta, portanto, caracterizou-se como uma legítima atitude de resistência dos populares em defesa de sua dignidade e contra o poder do governo.
6.2 Gabarito Reafirmado
A alternativa correta é a b) atitude de resistência dos populares.
6.3 Resumo Final para Revisão 🔍
Lembre-se: o estopim de uma revolta raramente é sua única causa. A Revolta da Vacina não foi sobre a vacina, foi sobre a seringa – ou melhor, sobre a violência e o desrespeito com que o Estado a empunhava contra o povo.
