QUESTÃO 03 (ESPANHOL) caderno azul ENEM 2025 Dia 1


Cuando yo era chiquito
todo quedaba cerca, cerquita.
Para llegar al cielo
no más bastaba una subidita.
El sueño me alcanzaba
para ir tan lejos como quería.
Cuando yo era chiquito
yo sí podía, yo sí podía.
Libertad, libertad,
libertad para mi niño.
[…]
Cuando yo era vejigo
me iba pa’l río porque era hermoso,
aunque estaba prohibido
por peligroso, por peligroso.
Como jagüey y ceiba,
como la palma y la yagruma,
cuando yo era vejigo
yo era del monte y soñaba espuma.
Libertad, libertad,
libertad para mi niño.

RODRÍGUEZ, S. Cuando yo era un enano. In: Oh Melancolia. Havana: Empresa de Grabaciones y Ediciones Musicales, 1988 (fragmento).

O recurso que caracteriza essa letra de canção como um relato das memórias do eu poético é o uso de

A) palavras no grau diminutivo.

B) adjetivos na descrição da paisagem.

C) vocábulos relacionados à fauna cubana.

D) verbos no pretérito imperfeito do indicativo.

E) marcas linguísticas de uma variedade caribenha.

  • Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
    • Interpretação de Texto Poético
    • Morfologia: Tempos Verbais (Pretérito Imperfeito do Indicativo)
    • Funções Estilísticas da Linguagem
  • Tema/Objetivo Geral: Identificar o recurso gramatical que estrutura a narrativa como uma memória.
  • Nível da Questão: Fácil/Médio.
    • Detalhe: A questão exige um conhecimento gramatical. Não basta entender o sentido do poema; é preciso identificar a ferramenta técnica (o tempo verbal) que o autor usa para construir esse sentido de passado contínuo e habitual, diferenciando-a de outros recursos estilísticos presentes no texto.
  • Gabarito: Letra D (verbos no pretérito imperfeito do indicativo).
    • Explicação Resumida: Esta alternativa está correta porque o pretérito imperfeito é o tempo verbal que expressa ações habituais, contínuas ou um estado permanente no passado, sendo a ferramenta perfeita para “pintar o cenário” da infância e descrever como as coisas costumavam ser.

PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

  • Decodificação do Objetivo: A questão nos pede para agir como um detetive linguístico e identificar: “Qual é a principal ferramenta gramatical, a ‘peça de motor’ da linguagem, que faz toda a canção funcionar como uma lembrança, uma viagem ao passado?”.
  • Simplificação Radical (A Analogia Central): Pense nos tempos verbais como lentes de uma câmera. O “Pretérito Perfeito” é a lente de fotografia: ela captura um momento único e acabado (“eu fui ao rio”). Já o “Pretérito Imperfeito” é a lente de filmagem: ela captura uma cena em andamento, um hábito, a atmosfera de um lugar (“eu ia ao rio”). O verdadeiro desafio aqui é perceber qual dessas ‘lentes’ o poeta usou para filmar as cenas contínuas de sua infância.
  • Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação):
    1. Isolar o Gatilho da Memória: Identificaremos a frase que se repete para nos levar ao passado.
    2. Coletar as Evidências: Listaremos os verbos de ação e de estado que aparecem dentro desse passado.
    3. Analisar o Modus Operandi: Analisaremos a função desse tempo verbal específico (o que ele faz).
    4. Construir o Retrato Falado: Com base na análise, descreveremos o perfil exato do recurso linguístico que estamos procurando.

 PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para entender a escolha do poeta, precisamos dominar a principal ferramenta do caso: a diferença entre os “passados”. A melhor forma de fazer isso é com uma Tabela Comparativa dos pretéritos.

Pretérito Perfeito (A FOTO)Pretérito Imperfeito (O FILME)
Função: Narra uma ação pontual, concluída, que aconteceu e acabou.Função: Descreve uma ação habitual, contínua, ou um cenário/estado no passado.
Exemplo: “Eu pude ir longe.” (Consegui ir naquele dia específico).Exemplo: “Eu podia ir longe.” (Eu tinha a capacidade, era sempre possível para mim).
Sensação: De fato concluído, de evento único.Sensação: De duração, de hábito, de nostalgia, de “naquele tempo era assim…”.

A questão nos pede para identificar qual dessas ferramentas o eu lírico usou como base para seu relato. Claramente, ele está nos mostrando um “filme”, não tirando “fotos”.


 PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Agora, vamos aplicar nossa ferramenta ao texto da canção.

  • Execução Sequencial:
    1. O Gatilho da Memória: A estrutura que abre as duas estrofes é “Cuando yo era…” (Quando eu era…). Isso funciona como a claquete de um filme, indicando que tudo a seguir acontece nesse tempo passado.
    2. As Evidências (Os Verbos): Vamos listar os verbos que descrevem essa época:
      • quedaba (ficava)
      • bastaba (bastava)
      • alcanzaba (alcançava)
      • quería (queria)
      • podía (podia)
      • iba (ia)
      • era (era)
      • soñaba (sonhava)
    3. Modus Operandi: Todos esses verbos estão no pretérito imperfeito. Ele não diz que “todo quedó cerca” (tudo ficou perto uma vez), mas que “todo quedaba cerca” (tudo ficava perto, era um estado permanente da sua infância). Ele não diz “yo fui pa’l río” (eu fui ao rio um dia), mas “me iba pa’l río” (eu ia, costumava ir ao rio).
  • 🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
    CUIDADO! A armadilha mais sedutora aqui é se apegar a elementos muito visíveis, mas que são o conteúdo da memória, não sua estrutura. As palavras no diminutivo (“chiquito”, “cerquita”) (Alternativa A) ou o vocabulário caribenho (“vejigo”, “jagüey”) (Alternativa E) são importantíssimos para dar cor e sentimento à memória, mas não são o recurso gramatical que a situa no tempo como um relato contínuo. É confundir o cenário e os adereços com a câmera que filma a cena.
  • A Bússola (O Perfil do Culpado):
    • Síntese do raciocínio: O eu lírico constrói metodicamente sua recordação usando um tempo verbal específico que expressa continuidade, hábito e descrição no passado. Este recurso é a espinha dorsal que sustenta todo o relato como uma memória viva e não como uma sequência de eventos isolados.
    • Expectativa: A alternativa correta deve, inequivocamente, nomear a categoria gramatical que corresponde ao tempo verbal do passado que indica ações não concluídas, habituais ou descritivas.

 PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

Vamos confrontar nossa “Expectativa” com os suspeitos.

  • A) palavras no grau diminutivo.
    • A “Narrativa do Erro”: O leitor nota “chiquito” e “cerquita” e associa, corretamente, à linguagem da infância.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Descrever o Meio, não o Fim. O diminutivo adiciona afeto e expressa a perspectiva infantil, mas não é o recurso que estrutura o tempo da narrativa.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • B) adjetivos na descrição da paisagem.
    • A “Narrativa do Erro”: O leitor vê “hermoso”, “peligroso” e foca na descrição do cenário.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Reducionismo. Os adjetivos são parte da descrição, mas a descrição inteira só funciona como memória por causa do tempo verbal que a sustenta (ex: “o rio era hermoso”).
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • C) vocábulos relacionados à fauna cubana.
    • A “Narrativa do Erro”: O leitor identifica palavras como “jagüey” e “ceiba” e foca na identidade cultural.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. O vocabulário dá o contexto geográfico da memória, mas não é o recurso linguístico que a define como memória.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • D) verbos no pretérito imperfeito do indicativo.
    • Análise de Correspondência: Esta alternativa é a identificação precisa e técnica do recurso que nossa “Bússola” descreveu. É o “filme”, a “lente de filmagem”, a ferramenta que permite que todas as cenas da infância sejam vistas como um estado contínuo. Encaixe perfeito.
    • Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
  • E) marcas linguísticas de uma variedade caribenha.
    • A “Narrativa do Erro”: O leitor nota “vejigo” e a expressão “me iba pa’l río” e foca no dialeto.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Confundir Contexto com Estrutura. As marcas dialetais dão autenticidade e localização à voz do eu lírico, mas, assim como os outros itens, não são a estrutura temporal que define o texto como um relato de memórias.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

 PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

  • Frase de Fechamento: Portanto, a alternativa D é inquestionavelmente a correta, pois o uso sistemático do pretérito imperfeito do indicativo é o motor gramatical que transforma a canção de uma lista de fatos passados em um panorama vivo e nostálgico das memórias do eu poético.
  • Resumo-flash (A Imagem Mental): Pretérito Perfeito foi o que aconteceu. Pretérito Imperfeito é como a vida era.
  • Para ir Além (A Ponte para o Futuro): A distinção entre esses dois tempos verbais é absolutamente crucial no campo do Direito. Imagine um depoimento. Dizer “O suspeito estava na sala quando a vítima caiu” (pretérito imperfeito) apenas descreve um cenário, uma situação de fundo. Dizer “O suspeito entrou na sala quando a vítima caiu” (pretérito perfeito) descreve uma ação pontual que pode implicar uma relação de causa e efeito. A escolha do tempo verbal pode alterar drasticamente a interpretação de um fato em um processo criminal.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Sair da versão mobile