Questão 07, caderno azul do ENEM 2024 PPL – Dia 1


Prima Julieta
Prima Julieta irradiava um fascínio singular. Era a
feminilidade em pessoa. Quando a conheci, sendo ainda
garoto e já sensibilíssimo ao charme feminino, teria ela
uns trinta ou trinta e dois anos de idade.
Apenas pelo seu andar percebia-se que era uma deusa,
diz Virgílio de outra mulher. Prima Julieta caminhava em
ritmo lento, agitando a cabeça para trás, remando os
belos braços brancos. A cabeleira loura incluía reflexos
metálicos. Ancas poderosas. Os olhos de um verde azulado
borboleteavam. A voz rouca e ácida, em dois planos: voz
de pessoa da alta sociedade.

MENDES, M. A idade do serrote. Rio de Janeiro: Sabiá, 1968.

Entre os elementos constitutivos dos gêneros, está o modo como se organiza a própria composição textual, tendo-se em vista o objetivo de seu autor: narrar, descrever, argumentar, explicar, instruir. No trecho, reconhece-se uma sequência textual

A) explicativa, em que se expõem informações objetivas referentes à prima Julieta.

B) instrucional, em que se ensina o comportamento feminino, inspirado em prima Julieta.

C) narrativa, em que se contam fatos que, no decorrer do tempo, envolvem prima Julieta.

D) descritiva, em que se constrói a imagem de prima Julieta a partir do que os sentidos do enunciador captam.

E) argumentativa, em que se defende a opinião do enunciador sobre prima Julieta, buscando-se a adesão do leitor a essas ideias.

Resolução em texto

Matérias Necessárias para a Solução da Questão: Interpretação de texto, análise de poema, coesão textual.

Nível da Questão: Médio.

Gabarito: D) descritiva, em que se constrói a imagem de prima Julieta a partir do que os sentidos do enunciador captam.


1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Decodificação do Objetivo: A tarefa é identificar a sequência textual predominante no trecho. Ou seja, qual é o principal objetivo do autor ao organizar as palavras dessa forma: contar uma história, defender uma ideia, dar uma instrução ou pintar um retrato?

Simplificação Radical: Em outras palavras, o texto é como uma obra de arte. A questão é: o autor está nos mostrando um filme (uma sequência de ações que se desenrolam no tempo) ou uma fotografia (uma imagem estática, cheia de detalhes, congelada em um instante)? O verdadeiro desafio é perceber que o texto não narra o que aconteceu com a Prima Julieta, mas sim como ela era. É um retrato, uma pintura feita com palavras.

Roteiro de Ação (Plano de Ataque):

  • Analisar a Função dos Verbos: Vamos verificar se os verbos indicam ações que fazem a história avançar ou se indicam estados e características.
  • Mapear as Informações: Vamos listar os tipos de informação que o texto nos dá sobre a personagem (sua aparência, seu jeito, sua voz).
  • Conectar a Estrutura ao Objetivo: Vamos definir o que o autor consegue alcançar ao acumular todas essas informações estáticas.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para uma questão que exige a diferenciação entre os tipos textuais, a ferramenta ideal é uma Tabela Comparativa de Gêneros e Sequências. Ela nos ajuda a visualizar as características de cada tipo e a testá-las contra o texto.

Tipo de SequênciaFunção PrincipalCaracterísticas-ChaveAplica-se ao Texto?
NarrativaContar uma história, relatar fatos em uma sucessão temporal.Verbos de ação, progressão no tempo, enredo (começo, meio, fim).Não. O texto não tem progressão temporal. É um retrato “congelado”.
DescritivaConstruir uma imagem de um ser, objeto ou cena, apontando suas características.Verbos de estado (ser, estar), adjetivação rica, uso dos sentidos (visão, audição).Sim. O texto é uma avalanche de adjetivos e características visuais e auditivas para “pintar” a imagem da prima.
ArgumentativaDefender uma opinião, convencer o leitor de uma tese.Tese clara, uso de argumentos, conectivos lógicos (portanto, porque).Não. O autor não está tentando nos convencer de uma tese, mas sim compartilhando uma percepção.
ExplicativaExpor informações, explicar um conceito de forma objetiva.Linguagem impessoal, foco em dados e fatos, objetividade.Não. O texto é profundamente subjetivo, baseado nas impressões do enunciador.
InstrucionalDar ordens ou instruções, guiar uma ação.Verbos no imperativo, passo a passo.Não. O texto não ensina a fazer nada.

3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Vamos executar a análise com base na nossa tabela.

3.1. A Anatomia do Texto:

  • O texto é uma coleção de atributos. O que sabemos sobre Julieta? Que ela irradiava fascínio, era a feminilidade, tinha trinta anos, caminhava lentamente, tinha cabeleira loura, ancas poderosas, olhos verde-azulados e voz rouca. O verbo “caminhava” não indica uma ação pontual que move uma história, mas um hábito, uma característica de seu ser. É um retrato em movimento, mas ainda assim um retrato.

🚨 ARMADilha CLÁSSICA! 🚨
A armadilha mortal aqui é a alternativa C (narrativa). Um aluno desatento vê um personagem (“Prima Julieta”) e um verbo de ação (“caminhava”) e conclui que se trata de uma narração. O erro é não perceber que, para ser uma narração, precisa haver uma sucessão de eventos no tempo, um enredo. O texto não diz “Prima Julieta caminhou até a porta e depois abriu”. Ele diz que ela “caminhava em ritmo lento”, descrevendo o jeito dela, não uma ação específica que leva a outra. É a diferença entre um filme (narração) e uma foto (descrição).

Fechamento (A Bússola):

  • Síntese do raciocínio: O texto se concentra em acumular características físicas e comportamentais da personagem, utilizando uma linguagem rica em adjetivos e imagens sensoriais, com o objetivo de construir um retrato estático. A sequência predominante é, portanto, a descritiva.
  • Expectativa: A alternativa correta deve identificar a sequência como descritiva e sua função como a construção de uma imagem.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

Vamos testar as alternativas com o rigor prometido.

  • a) explicativa, em que se expõem informações objetivas referentes à prima Julieta.
    • Narrativa do Erro: O aluno foca no fato de que o texto “expõe informações”.
    • Diagnóstico do Erro: Erro Conceitual. Uma sequência explicativa busca a objetividade. O texto é o oposto disso: é uma coleção de impressões profundamente subjetivas (“fascínio singular”, “deusa”, “belos braços”).
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • b) instrucional, em que se ensina o comportamento feminino, inspirado em prima Julieta.
    • Narrativa do Erro: O aluno interpreta a descrição como um “modelo a ser seguido”.
    • Diagnóstico do Erro: Erro Conceitual. Uma sequência instrucional usa verbos no imperativo (“faça”, “seja”) para guiar uma ação. O texto não dá nenhuma ordem ou instrução.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • c) narrativa, em que se contam fatos que, no decorrer do tempo, envolvem prima Julieta.
    • Narrativa do Erro: O aluno cai na “Armadilha Clássica”, confundindo a presença de um personagem e de verbos com uma narração.
    • Diagnóstico do Erro: Confusão entre Descrição e Narração. O texto carece do elemento fundamental da narrativa: a progressão temporal de eventos. Ele não conta uma história; ele pausa o tempo para pintar um retrato.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • d) descritiva, em que se constrói a imagem de prima Julieta a partir do que os sentidos do enunciador captam.
    • Análise: Perfeita. “Descritiva” é a classificação correta. “Constrói a imagem de prima Julieta” é a função exata. “A partir do que os sentidos do enunciador captam” descreve o método (visão: “cabeleira loura”; audição: “voz rouca”). A alternativa é um diagnóstico impecável.
    • Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
  • e) argumentativa, em que se defende a opinião do enunciador sobre prima Julieta, buscando-se a adesão do leitor a essas ideias.
    • Narrativa do Erro: O aluno percebe que o autor tem uma opinião forte (“ela irradiava fascínio”) e acha que ele está tentando nos convencer.
    • Diagnóstico do Erro: Confusão entre Descrição e Argumentação. O autor não constrói um argumento com tese e provas lógicas para nos convencer. Ele nos mostra o porquê de sua opinião através da construção de uma imagem. Ele apela aos nossos sentidos, não à nossa lógica.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro): É raro encontrar um texto que seja 100% de um único tipo. A maioria das obras literárias, como os romances, são predominantemente narrativas, mas são “recheadas” com longas e ricas passagens descritivas. Pense em Machado de Assis descrevendo os “olhos de ressaca” de Capitu. Essa descrição não faz a história andar, ela a pausa para aprofundar nossa compreensão da personagem e da atmosfera. Dominar a identificação das sequências textuais é crucial, pois nos permite entender como um autor controla o ritmo de sua escrita, sabendo quando acelerar com a ação (narrar) e quando frear para nos fazer ver (descrever).

Frase de Fechamento: A resposta correta é a alternativa D, pois o texto se organiza como uma sequência predominantemente descritiva, cujo objetivo é construir uma imagem vívida e sensorial da personagem a partir das impressões subjetivas do enunciador.

Resumo-flash (A Imagem Mental): Narrar é filmar um rio correndo; descrever é pintar o retrato do rio parado em um instante glorioso. O autor aqui foi um pintor.


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