O Cerrado e a Amazônia abrigam grande número de serpentes popularmente conhecidas como cobras-corais. Na Amazônia predominam as corais-verdadeiras, que são peçonhentas, enquanto no Cerrado prevalecem as falsas-corais, que não possuem peçonha. Essas espécies apresentam um padrão de coloração muito semelhante. Essa similaridade traz uma vantagem tanto para as corais falsas como para as verdadeiras.
FRANÇA, F. G. R. […] serpentes corais em ambientes campestres, savânicos e florestais da América do Sul. Brasília: UnB, 2008 (adaptado).
Nas fotografias, são apresentados exemplos dessas serpentes: uma coral-verdadeira e uma falsa-coral.
SILVA, L. C.; COTTA, G. A.; RESENDE, F. C. Cobra-coral: aplicativo educativo para reconhecimento das cobras-corais do estado de Minas Gerais, Brasil. Herpetologia Brasileira, n. 1, 2021 (adaptado).
Qual é a vantagem dessa similaridade para as falsas-corais?
A) Facilita a captura de presas.
B) Diminui a competição por recursos.
C) Possibilita a geração de indivíduos híbridos.
D) Reduz a possibilidade de sofrerem predação.
E) Otimiza o encontro de parceiros reprodutivos.
Resolução Em Texto
- Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
- Ecologia (Relações Ecológicas: Predação)
- Biologia Evolutiva (Adaptação, Mimetismo Batesiano)
- Interpretação de Texto
- Tema/Objetivo Geral: Analisar um caso de semelhança entre uma espécie peçonhenta e uma não peçonhenta para identificar a vantagem adaptativa dessa similaridade para a espécie inofensiva.
- Nível da Questão: Fácil.
- A questão se resolve por uma inferência lógica básica sobre estratégias de defesa animal. O texto estabelece que uma cobra é perigosa e a outra, inofensiva, mas se parecem. A conclusão mais direta é que a inofensiva está “pegando carona” na má fama da perigosa para se proteger.
- Gabarito: D
- A alternativa está correta porque a semelhança da falsa-coral com a coral-verdadeira é um caso clássico de mimetismo batesiano. A coral-verdadeira, por ser peçonhenta, “ensina” os predadores a evitar seu padrão de cores vibrantes. A falsa-coral, inofensiva, “copia” esse padrão de cores e, com isso, engana os predadores, que também a evitam, com medo de estarem atacando a cobra perigosa. Isso reduz a possibilidade de a falsa-coral sofrer predação.
PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
Decodificação do Objetivo: Em bom português, a missão é: “Uma cobra é venenosa (coral-verdadeira), e a outra não é (falsa-coral), mas elas se vestem com a mesma ‘fantasia’ colorida. Qual é a vantagem que a cobra inofensiva (a falsa-coral) ganha ao usar essa fantasia?”
Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine dois seguranças em uma festa. O Segurança A (Coral-Verdadeira) é um lutador faixa-preta, super perigoso. O Segurança B (Falsa-Coral) não sabe lutar nada, é inofensivo. No entanto, o Segurança B usa exatamente o mesmo uniforme do Segurança A. Um encrenqueiro que já apanhou do Segurança A vê o Segurança B de longe e pensa: “Opa, é um daqueles lutadores perigosos, melhor não mexer”. O que o Segurança B ganhou ao usar o uniforme? Ele se protegeu de um ataque, reduziu sua chance de sofrer uma “predação”.
Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação):
- Identificar os Personagens: Quem é o “modelo” (perigoso) e quem é o “mímico” (inofensivo)?
- Analisar a “Fantasia”: Qual é a característica que eles compartilham?
- Entender a Lógica do Predador: Como um predador (o “encrenqueiro”) reage a essa semelhança?
- Realizar a Autópsia: Vamos analisar cada alternativa para ver qual delas descreve o benefício para o “mímico”.
PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Para este caso, a melhor ferramenta é uma Análise do Processo de Decisão do Predador. Vamos seguir a “mente” do animal que caça as cobras.
A LÓGICA DO PREDADOR
PASSO 1: A EXPERIÊNCIA TRAUMÁTICA
- Um predador (uma ave de rapina, por exemplo) tenta atacar uma coral-verdadeira. Ele é picado, passa muito mal e quase morre.
- Aprendizado: O predador associa o padrão de cores vibrantes (vermelho, preto, branco) com “PERIGO, DOR, VENENO”.
PASSO 2: O ENCONTRO COM A SÓSIA
- Tempos depois, o mesmo predador encontra uma falsa-coral.
- Ele vê o mesmo padrão de cores que lhe causou a experiência traumática.
PASSO 3: A DECISÃO DE EVITAÇÃO (O “Blefe” Funciona)
- O predador, por precaução, pensa: “Parece perigoso, não vou arriscar”. E desiste do ataque.
- A CONCLUSÃO (A Vantagem para a Falsa-Coral):
- A falsa-coral, mesmo sendo inofensiva, sobreviveu ao encontro. Sua fantasia funcionou. O benefício é a proteção contra a predação.
Conclusão Forense: O fenômeno, chamado de Mimetismo Batesiano, é uma estratégia de defesa baseada no engano. A falsa-coral blefa, e o predador, por via das dúvidas, não paga para ver.
PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
Nossa análise da lógica do predador já resolveu o caso.
- Coral-Verdadeira: Tem uma defesa real (peçonha).
- Falsa-Coral: Tem uma defesa baseada em publicidade enganosa (a aparência).
- A “publicidade” só funciona porque existe um produto “original” e perigoso no mercado para dar credibilidade à marca.
A vantagem é clara: menos ataques, maior chance de sobrevivência e de deixar descendentes.
🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! As outras alternativas descrevem vantagens biológicas que existem na natureza, mas que não têm relação com o mimetismo. O erro é não conectar a característica específica (a cor) com sua função mais lógica (defesa visual). Por exemplo, a cor poderia, em outros animais, servir para atrair parceiros (E), mas no caso de um padrão de “perigo”, essa função é improvável.
A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: A investigação mostra que a falsa-coral imita o padrão de cores de uma cobra perigosa.
- Expectativa: A alternativa correta deve ser a vantagem que se ganha ao parecer perigoso, ou seja, a proteção contra predadores.
PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
Vamos agora interrogar cada um dos suspeitos.
- A) Facilita a captura de presas.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato pode pensar que a cor assusta a presa, paralisando-a.
- O “Diagnóstico do Erro”: Foco Incorreto (Ataque vs. Defesa). O padrão de cores vibrantes (aposematismo) é um sinal de “não me coma”, direcionado a um predador. Para caçar, o mais comum é a camuflagem, para não ser visto pela presa. Ser colorido e chamativo é uma péssima estratégia de caça.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
- B) Diminui a competição por recursos.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato pensa que a cor pode afastar outros competidores.
- O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. A coloração aposemática não tem função conhecida na competição por alimento ou território com outras espécies.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
- C) Possibilita a geração de indivíduos híbridos.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato confunde “semelhança” com “parentesco próximo”.
- O “Diagnóstico do Erro”: Erro Conceitual. Coral-verdadeira (Micrurus) e falsa-coral (Erythrolamprus) são de gêneros diferentes. São parentes distantes e não podem cruzar para gerar híbridos. A semelhança é resultado de evolução convergente, não de hibridização.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
- D) Reduz a possibilidade de sofrerem predação.
- Análise de Correspondência: Esta alternativa é o retrato falado da nossa Bússola. É a definição exata da vantagem conferida pelo mimetismo batesiano: parecer perigoso para não ser atacado.
- Conclusão: 🟢 Alternativa correta.
- E) Otimiza o encontro de parceiros reprodutivos.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato pensa em outra função comum das cores nos animais (seleção sexual).
- O “Diagnóstico do Erro”: Foco Incorreto. Embora as cores possam ter um papel na reprodução de algumas espécies, em um padrão de coloração de advertência (aposematismo) universalmente reconhecido como “perigo”, a função primária e mais forte é a de defesa, não a de acasalamento.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
Frase de Fechamento: Confirmamos que a alternativa D é a correta. Este caso é uma demonstração fascinante de como a evolução pode produzir estratégias de sobrevivência baseadas no engano e na exploração da memória de outras espécies.
Resumo-flash (A Imagem Mental): A falsa-coral é a ovelha que sobreviveu por usar uma fantasia de lobo.
Para ir Além (A Ponte para o Futuro): O mesmo princípio do Mimetismo Batesiano é uma estratégia usada na Segurança da Informação, nos chamados “Honeypots” (Potes de Mel). Um honeypot é um sistema de computador que é configurado para parecer um alvo real e valioso (o “modelo” perigoso), mas que na verdade é uma armadilha inofensiva e altamente monitorada (o “mímico”). Hackers (os “predadores”) são atraídos para atacar o honeypot, pensando que estão invadindo um sistema real. Enquanto eles perdem tempo tentando explorar a armadilha, os especialistas em segurança observam suas técnicas, coletam informações sobre suas ferramentas e aprendem a se defender de ataques reais. O honeypot “imita” um sistema valioso para enganar o predador e, assim, proteger os sistemas verdadeiros.
