– Vejo, disse ele com algum acanhamento, que o doutor não é nenhum pé-rapado, mas nunca é bom facilitar… Minha filha Nocênia fez 18 anos pelo Natal, e é rapariga que pela feição parece moça de cidade, muito ariscazinha de modos, mas bonita e boa deveras… Coitada, foi criada sem mãe, e aqui nestes fundões. […]
– Ora muito que bem, continuou Pereira caindo aos poucos na habitual garrulice, quando vi a menina tomar corpo, tratei logo de casá-la.
– Ah! é casada? perguntou Cirino.
– Isto é, é e não é. A coisa está apalavrada. Por aqui costuma labutar no costeio do gado para São Paulo um homem de mão-cheia, que talvez o sr. conheça… o Manecão Doca…
– Não, respondeu Cirino abanando a cabeça.
– Pois isso é um homem às direitas, desempenado e trabucador como ele só… fura estes sertões todos e vem tangendo pontes de gado que metem pasmo. Também dizem que tem bichado muito e ajuntado cobre grosso, o que é possível, porque não é gastador nem dado a mulheres. Uma feita que estava aqui de pousada… olhe, mesmo neste lugar onde estava mecê inda agorinha, falei-lhe em casamento… isto é, dei-lhe uns toques… porque os pais devem tomar isso a si para bem de suas famílias; não acha?
– Boa dúvida, aprovou Cirino, dou-lhe toda a razão; era do seu dever.
TAUNAY, A. d’E. Inocência. Disponível em: www.dominiopublico.gov.br. Acesso em: 29 fev. 2024.
Nesse trecho, ao se referir à sua filha, o pai de Inocência reproduz os ideais românticos, presentes na
A) valorização do ambiente rural na formação moral da mulher.
B) figura decorativa da mulher ante o protagonismo masculino.
C) equivalência de origem social para a harmonia do casal.
D) importância do dote como condição para o casamento.
E) aura de mistério sobre a identidade da jovem.
- Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
- Interpretação de Texto Literário
- Literatura Brasileira (Características do Romantismo)
- Análise de Personagem e Discurso
- Tema/Objetivo Geral: Identificar a manifestação de ideais de uma escola literária no discurso de um personagem.
- Nível da Questão: Médio.
- Detalhe: A questão exige um conhecimento prévio sobre o papel social da mulher no Romantismo literário. A resposta não está apenas no texto, mas na conexão entre o que é dito e o contexto ideológico da época, o que demanda um repertório do estudante.
- Gabarito: Letra B (figura decorativa da mulher ante o protagonismo masculino).
- Explicação Resumida: Esta alternativa está correta porque, no diálogo, a filha é tratada como um objeto passivo, cujas qualidades são descritas por sua aparência, enquanto as decisões sobre sua vida (o casamento) são tomadas exclusivamente pelos homens (o pai e o pretendente).
PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
- Decodificação do Objetivo: A questão nos pede para encontrar a “impressão digital” do Romantismo na fala do pai. Ou seja, qual ideia específica daquela época sobre a sociedade e o papel da mulher está sendo reproduzida no jeito como ele fala da filha?
- Simplificação Radical (A Analogia Central): Pense nesta cena como uma partida de xadrez. O pai (Pereira) e o pretendente (Manecão Doca) são os dois jogadores, movendo as peças, planejando estratégias e decidindo o futuro do jogo. A filha, Inocência, é a peça da Rainha: valiosíssima, central para a partida, elogiada por sua beleza, mas que não se move sozinha. Ela é movida pelas mãos dos jogadores. O verdadeiro desafio aqui é perceber que o diálogo não é uma conversa familiar, mas a narração de um jogo estratégico onde os homens são os jogadores e a mulher é a peça a ser jogada.
- Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação):
- Analisar as Ações Masculinas: Vamos identificar os verbos e ações que mostram quem toma as decisões.
- Analisar a Descrição Feminina: Veremos como Inocência é descrita e qual o foco dessa descrição.
- Identificar a Agência (ou a falta dela): Vamos determinar quem tem poder e voz na negociação do casamento.
- Construir o Retrato Falado: Com base nessa dinâmica de poder, definiremos o perfil do ideal romântico que a alternativa correta deve apontar.
PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Para entender os papéis de cada um nesta cena, a ferramenta ideal é criar um Dossiê de Personagens, analisando a função de cada um no “jogo” do casamento.
- 🕵️♂️ DOSSIÊ DA NEGOCIAÇÃO – CASO INOCÊNCIA
| Personagem(ns) | Papel na Trama do Casamento | Verbos e Expressões-Chave Associados | Nível de Agência (Poder de Decisão) |
| O Pai (Pereira) | O Estrategista/Negociador. | “tratei logo de casá-la”, “falei-lhe em casamento”, “dei-lhe uns toques”, “os pais devem tomar isso a si”. | Total. Ele inicia, negocia e justifica a transação. |
| O Pretendente (Manecão) | O Jogador Convidado. | “homem de mão-cheia”, “desempenado e trabucador”, “fura estes sertões”. | Alto. Ele é o parceiro de negociação do pai. |
| A Filha (Inocência) | O Objeto da Negociação. | “parece moça de cidade”, “bonita e boa”, “foi criada sem mãe”. | Nulo. Ela é descrita, elogiada, mas não age nem opina. Sua vontade é irrelevante para o acordo. |
O dossiê revela um desequilíbrio absoluto: os homens agem e decidem; a mulher é descrita e destinada.
PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
Agora, vamos executar nosso plano e analisar as provas do texto.
- Execução Sequencial:
- Protagonismo Masculino: O pai narra suas ações de forma ativa: “tratei logo de casá-la”, “falei-lhe em casamento”. Ele é o agente da história. Manecão Doca, mesmo ausente, é descrito por suas ações e trabalho (“trabucador”, “fura estes sertões”).
- Passividade Feminina: Inocência, por outro lado, é definida por suas características passivas e sua aparência: “pela feição parece moça de cidade”, “bonita e boa“. Ela não faz, ela é.
- A Transação: O casamento não é um ato de vontade dela, mas um acordo entre homens: “A coisa está apalavrada” (entre o pai e Manecão). A justificativa do pai, “os pais devem tomar isso a si para bem de suas famílias”, reforça a ideia de que a decisão é uma prerrogativa masculina.
- 🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! A armadilha mais comum aqui é focar no cenário e na descrição do ambiente. Ao ler “aqui nestes fundões” e “fura estes sertões”, o leitor pode ser tentado pela alternativa A (“valorização do ambiente rural”). O erro é confundir o cenário da história com o ideal social que está sendo retratado através das ações dos personagens. - A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: O discurso do pai constrói uma realidade onde os homens são os protagonistas que decidem, negociam e agem, enquanto a mulher é uma figura passiva, valorizada por sua beleza e bondade, cujo destino é decidido por eles.
- Expectativa: A alternativa correta deve, obrigatoriamente, destacar essa desigualdade de poder, mostrando a mulher como uma figura sem agência, decorativa, em contraste com o papel ativo e central dos homens.
PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
Vamos confrontar nossa “Expectativa” com os suspeitos.
- A) valorização do ambiente rural na formação moral da mulher.
- A “Narrativa do Erro”: O leitor foca nas menções ao sertão (“fundões”, “sertões”).
- O “Diagnóstico do Erro”: Descrever o Meio, não o Fim. O ambiente rural é o palco, mas o pai até lamenta que ela foi criada ali (“Coitada, foi criada sem mãe, e aqui nestes fundões”). A fala não valoriza, mas justifica a necessidade de sua intervenção.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
- B) figura decorativa da mulher ante o protagonismo masculino.
- Análise de Correspondência: Esta alternativa é um espelho perfeito da nossa “Bússola”. “Figura decorativa” (descrita pela beleza, passiva) “ante o protagonismo masculino” (os homens que decidem tudo). A descrição é exata.
- Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
- C) equivalência de origem social para a harmonia do casal.
- A “Narrativa do Erro”: O leitor imagina que, por ser um casamento arranjado, a classe social deve ser um fator.
- O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. A origem social dos noivos não é mencionada nem discutida no trecho. O foco do pai está nas qualidades de trabalhador e na riqueza do pretendente.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
- D) importância do dote como condição para o casamento.
- A “Narrativa do Erro”: O leitor sabe que dotes eram comuns em casamentos arranjados.
- O “Diagnóstico do Erro”: Extrapolação. O texto não faz nenhuma menção a dote. Pelo contrário, o foco está na capacidade de Manecão de “ajuntar cobre grosso”.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
- E) aura de mistério sobre a identidade da jovem.
- A “Narrativa do Erro”: O leitor acha que, por ela não falar, ela é misteriosa.
- O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Direta. O pai, na verdade, tenta desfazer qualquer mistério, descrevendo-a abertamente para “vendê-la” a Cirino ou justificar sua escolha.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
- Frase de Fechamento: Portanto, a alternativa B é a correta, pois a fala do pai de Inocência é um retrato fiel de um ideal romântico onde a mulher era vista como um ser a ser protegido e guiado, valorizada por suas virtudes e beleza, mas destituída de poder de decisão, tornando-se uma figura decorativa no palco dominado pelo protagonismo masculino.
- Resumo-flash (A Imagem Mental): No casamento romântico, o homem era o autor da peça; a mulher, o anjo no cartaz.
- Para ir Além (A Ponte para o Futuro): O mesmo princípio de um sujeito ser definido e controlado por um agente externo é um tema central na Sociologia do Trabalho, especificamente na teoria da alienação de Karl Marx. Para Marx, o operário na fábrica se torna alienado de seu trabalho pois ele não decide o que produzir, como produzir ou para quem. Ele é apenas uma peça em um sistema controlado por outros (os donos do capital). De forma análoga, Inocência vive uma “alienação existencial”: ela não tem controle sobre a decisão mais importante de sua vida, que é controlada pelos “donos do capital social” da época, os homens.
